Ain’t no mountain high enough

Debruçada entre as montanhas “quase europeias” de Campos de Jordão, a espetacular casa projetada pelo arquiteto André Becker faz um belo exercício de arquitetura contemporânea “incorruptível” e outro de pura contemplação à natureza

  • 16 novembro 2016
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Registro da casa que debruça sobre a Serra da Mantiqueira

Dispa a sua mente – e as suas memórias mais “achocolatadas” –, pelo menos por um instante, daqueles chalés e casinhas coloniais de pinho de riga erigidos com inspiração europeia – alguns chamam de Arquitetura Suíça, outros de Enxaimel, outros de Estilo Normando (e outros de pastiche mesmo) – que dominam Campos do Jordão, cidade debruçada sobre a Serra da Mantiqueira, a menos de 200 km da capital paulista, que as agências de turismo adoram vender como “os Alpes Brasileiros”. Mais alto município brasuca, Campos até que justifica essa atmosfera “cabana bacana” com sua topografia montanhesa e temperatura quase congelante no inverno (só no inverno). E o simpático (podem me julgar, mas eu amo!) shape folclórico-disneylândico de suas lojas e restaurantes ajudam a acionar aquele desejo incontrolável por um fondue ou uma raclete à borda da lareira.

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Vistas da casa e capela que foram projetadas no mesmo terreno

Mas o papo aqui passa longe das alegorias. Rechaçando todo e qualquer estereótipo local (e contornando qualquer outra possível influência “nevada” no DNA, já que seu pai é belga e sua mãe é gaúcha), o arquiteto André Becker Pennewaert, 40 anos, se valeu de outras lições, inspirações e aspirações que extraem do essencial nada menos que um espetáculo. Apostou no “less is more” bauhausiano, mas conseguiu um efeito acolhedor na mistura fina de materiais e no jogo que traz os exteriores para o meio da sala ou que leva os cômodos para os jardins, já que é possível descortinar quase tudo de dentro para fora e de fora para dentro.

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Outro ângulo da morada que tira partido da natureza do entorno

Em termos práticos, no terreno de dois mil metros quadrados, Becker tomou partido da paisagem acachapante para criar dois volumes de madeira, concreto e vidro. O primeiro, com generosos 350 metros quadrados, abriga a casa em si, espécie de loft que integra área social (living, cozinha e varandão), com quatro quartos em cima; o outro, a capela mais linda de que se tem notícia por aquelas bandas, simples e monástica, com direito à poesia de uma longa torre de pedras com sino (como a dos castelos medievais) e nenhuma outra analogia à qualquer igrejinha tradicional. Incorruptíveis com a leitura estilística da região, ambos os retângulos, tanto o maior quanto o menor, sugerem um exercício arquitetônico de equilíbrio e contenção, e outro de contemplação – seja lá qual for a sua fé.

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A capela de vidro foi conceituada de forma que não interrompa à vista para a Serra da Mantiqueira

Formado pela FAU, esse prodígio da arquitetura que comanda o próprio escritório há mais de dez anos, já expôs na Bienal de Arquitetura de Veneza e passou por grandes escritórios como os de Ruy Ohtake, Aflalo & Gasperini e Ubyrajara Gilioli. Estúdios completamente antagônicos entre si, que certamente deixaram boas lições, sobretudo em relação ao rigor e precisão do traço. Mas, quando se fala em André Becker, a originalidade é tão precisa quanto as voltas de seu compasso.

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