Revista Giz

03 Mai 2017 - Jul 2017

#3 | Água Viva

As Casas de Arthur: em entrevista à GIZ, o arquiteto abre o jogo sobre sua trajetória profissional

Avesso à fama de arrogante e mais paciente diante da vida, Arthur Casas, que ao lado de Isay Weinfeld e Marcio Kogan forma um dos três principais vértices da arquitetura contemporânea brasileira, faz jus ao apelido dado pela filha Nina: meu malvado favorito

  • 13 julho 2017

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Com este sobrenome no plural lavrado na certidão de nascimento, seria um equívoco não seguir arquitetura. Em 2001, Arthur Casas mostrou a que veio em plena Oscar Freire e ainda pôs os Jardins na rota dos modernos internacionais com o retrofit que promoveu em um velho edifício metamorfoseado no Emiliano, hotel butique pioneiro do País e sinalizador da aterrissagem do design no Brasil. Na época, o nome do profissional foi alardeado com o Mattos do meio. Mas o nome próprio com preposição oriundo da família da mãe, D. Alice de Mattos, já falecida, filha de portugueses, seria podado na invasão americana do filho. Ao plantar seu escritório no Chelsea, em Nova York, o workaholic confesso passou a assinar apenas Arthur Casas quando sacou que nossos brothers nortistas gravam apenas um sobrenome por cabeça, quanto mais se for latino. Sorte a dele, o de batismo viera de berço com o anglicizado “H”.
Diferentemente do lendário rei da mitologia anglo-saxônica, a Excalibur do Arthur paulistano da gema vem temperada com a liga da brasilidade, embainhada por suas contribuições afiadas que dão vigor contemporâneo cosmopolita ao Modernismo nacional. Cresceu no Alto da Lapa, cursou Mackenzie, estagiou no Sig Bergamin e deu os primeiros passos solo na via “desonrosa” da decoração, segundo ainda pensam alguns de seus pares old style. Quase tudo para dar errado. No entanto, AC surpreendeu a classe e continua a assombrar seus pares. Prossegue fiel à lapiseira Pentel, o primeiro esboço é traçado por seu próprio punho no papel-manteiga, como aprendeu na faculdade. A família Casas – Arthur, Ligia, João, 4 anos, e Nina, 13, da primeira união – vive numa residência dos anos 40 saída da prancheta do mestre da Escola Paulista, Vilanova Artigas (o mesmo que assina a casinha ocupada pela redação de GIZ). E para amenizar o vaivém SP-NY-SP e o zigue-zague do corre-corre paulistano ele fincou no bucólico Pacaembu o lar e seu studio com “S”.

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Em companhia de Marcio Kogan e Isay Weinfeld, ele faz parte do consagrado triunvirato que há mais de três décadas assina os projetos de alto padrão, pessoa física e jurídica, mais incensados do País. Cada qual com seu olhar autoral requintado, vasto know- how e busca constante pela superação estético-construtiva-
tecnológica em concepções de indiscutível encanto tropical.
Dentre os registros sobre sua trajetória, destaca-se o coffee table book em inglês “Studio Arthur Casas Works 2008-2015”, impresso em Barcelona, conceituado com todo o esmero por sua fiel equipe. A segunda edição em português está sendo revista e ampliada para o lançamento em setembro. Coordenado por sua mulher, a arquiteta Ligia Casas, o livro é impecável e, como se não bastasse, o texto principal leva assinatura do papa dos ensaios arquitetônicos, Philip Jodidio. O professor de Harvard encerra a introdução fazendo menção ao projeto de 2015 que deu peso internacional a esse astro da arquitetura brasileira: “Com o Pavilhão do Brasil, em Milão, ele confirma seu status como um dos mais importantes arquitetos contemporâneos da América Latina”. Elegante que é, Arthur trajava blazer, camisa azul, jeans e tênis na nossa entrevista que seguiu numa ensolarada manhã de segunda-feira em seu templo de trabalho na rua Itápolis. Perguntei se gostava de moda. “Não, particularmente, sou observador. Poderia comprar tudo fora, mas resolvi fazer tudo sob medida no Ricardo Almeida por conta da barriguinha saliente e ‘tô um pouco corcunda’. A calça é uma Prada velha pra burro, o tênis, um Asics de 40 dólares.”

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Quero lhe perguntar faz tempo: por que implica com Oscar Niemeyer?
Não implico mais, implicava quando jovem por conta da arrogância juvenil, pelo fato de ele não dar oportunidade a outros arquitetos. Nos anos 80, quando Orestes Quércia (1938-2010) o convidou para fazer o Memorial da América Latina, em São Paulo, ninguém contestou se o projeto do Niemeyer era bom ou ruim. Implico com o Niemeyer dos anos 80, não com o melhor Niemeyer dos anos 40, da Pampulha, dos anos 50, de Brasília, e dos anos 60. Sem dúvida, foi o grande arquiteto brasileiro e aquele que soube impor seu traço. Ele conseguia fazer o que queria. Às vezes, a gente faz um projeto que tem uma cereja no bolo e é justamente aquela cereja que o cliente não entende, implica. Um amigo da faculdade, o Renato Melo, dizia, “Oscar ninguém malha”. (Risos) Não desgosto do Oscar, ao contrário.

Um ponto alto de sua carreira foi o Pavilhão do Brasil para a Expo Milano 2015, parceria com o Atelier Marko Brajovic. O que mudou de lá para cá?
Olha, não mudou muita coisa, não. Pensei que mudaria, vencemos o prêmio do World Architecture Festival 2015, que naquele ano foi em Singapura. Até hoje, o escritório participou de cinco concursos públicos, dos quais vencemos quatro. Desses, o único construído foi o Pavilhão em Milão – porque não havia como não ser erguido.

Nem o do Pelourinho, o do Maranhão e o do campus no Paraná?
Nada. O do Pelourinho foi feito na gestão anterior, quero descobrir quem me abre a porta para o atual governador pois está pronto, aprovado, detalhado, pago. O Campus Cabral na Universidade Federal do Paraná pode acontecer no próximo ano [2018]. A sede do governo do estado do Maranhão jamais acontecerá. Não participo mais de concurso público no Brasil porque as coisas não saem do lugar.

O Pavilhão da Expo tinha aquela metáfora incrível do network através da rede de mil metros quadrados para as pessoas brincarem, relaxarem…
Poderia ser um importante instrumento para participarmos de concursos internacionais como convidados. O Brasil investiu, poderia ter trazido o pavilhão ou parte dele para cá, instalado a rede em um parque público, reutilizando a estrutura que estava paga, mas nada. A rede foi comprada na bacia das almas, em um leilão qualquer, levada para um vilarejo na Itália. Poderia estar aqui, em um parque como o Villa-Lobos, não aconteceu. O Pavilhão da França foi instalado em uma cidadezinha do país, levando algum interesse à localidade. Os brasileiros morreram na praia.

Mas como foi fazer bella figura em Milão?
Foi legal, dei uma aula com o Marko Brajovic e nossa equipe no Politecnico di Milano, fomos entrevistados por vários veículos internacionais. Foi importante para a autoestima do escritório.

Vamos aos EUA, quem diria, Trump virou presidente. Em 2002, você projetou com materiais brasileiros o World Bar, na Trump World Tower, em Nova York, um edifício revestido de preto, próximo da ONU.
(Risos) Desnecessário mencionar que o referido edifício possui no interior uma série de detalhes dourados e que o fato deste bar estar localizado no térreo não me deu outra opção, senão também explorar o dourado nos tecidos e no tom da madeira, o carvalho canadense, criando uma unidade visual. Antes, eu adorava acabar minhas noites por lá, bebericando um dry Martini.

São 18 anos de escritório em Nova York…
Fomos considerados um dos dez escritórios mais importantes instalados em Nova York pela imprensa local. Não é pouco, haja vista a quantidade de profissionais que atuam por lá. No entanto, ainda atuamos principalmente como interior designers. Nesse momento, estamos projetando duas residências na Califórnia, um edifício no Brooklyn (NY) em parceria com um escritório local e, finalmente, nossa arquitetura vai debutar em Miami Beach, em um pequeno edifício. Se São Paulo deu régua e compasso ao meu trabalho, Nova York me dá recursos para aprender, ousar e descobrir a brasilidade naquilo que faço.

O que distingue nossa arquitetura?
Posso comparar com a arquitetura praticada nos EUA. Por falta de dinheiro, a arquitetura brasileira está muito aquém da arquitetura social, do planejamento urbano até da arquitetura de edifícios comerciais praticada nos EUA e na Europa. Porém, a residencial de alto padrão é das melhores do mundo.

“O Modernismo não envelheceu. Mas também não amadureceu. O grande erro desse Modernismo do concreto aparente foi privilegiar a forma, o discurso, e esquecer o conforto, a vida”

São quantos projetos no exterior? No Brasil?
Fora, até hoje, um total de uns 40. No momento, temos projetos em Londres, em Portugal, nos EUA, em Bogotá. Este ano, no Brasil, o escritório tem cerca de 50 trabalhos em diferentes escalas.

Vale manter um escritório em Nova York?
Vale. Primeiro, os projetos têm uma remuneração melhor. Segundo, há uma troca de informação, aprendo muito, mas também ensino muito aos americanos (risos). Terceiro, de vez em quando, preciso sair do meu universo daqui. Nem tudo pode ser visto só pelo viés financeiro. A experiência lá me enriquece como pessoa e como profissional. Acredito ter um repertório maior que vários bons profissionais daqui, por conta de viajar várias vezes ao ano. Não que as pessoas não viajem, mas o objetivo das minhas viagens é diferente. O fato de estar nos EUA me abriu muitas possiblidades. Acabei conhecendo os editores de revistas, meu trabalho é mais publicado fora. É network e networking.

Como vê as três áreas em que atua?
Meu trabalho reflete a visão holística que tenho da minha profissão, decorre da minha intensa observação e da minha paixão. As três são intrinsecamente relacionadas à trajetória do escritório. Como atuamos em escalas tão distintas, agora, estou revendo a divisão das áreas em design, arquitetura e interiores. Talvez sejamos um escritório de conceito. Vendemos nosso conceito em qualquer escala.

Você é admirador de Frank Lloyd Wright e de Vilanova Artigas. Mas quem são os arquitetos contemporâneos visionários que admira?
São vários, entre os quais, Herzog & De Meuron, os japoneses Shigeru Ban e SANAA, os irmãos Aires Mateus. Também gosto muito do Chipperfield, que faz uma arquitetura serena, que me atrai, que eu faria. Eu não conseguiria ser o SANAA, que possui uma relação com a arte que não tenho. No Herzog & De Meuron me atrai a constante reinvenção, a cada projeto uma outra pele, fazem tudo com muita qualidade.

Vamos ao estilo neoclássico que você odeia, eu também. Numa reunião imaginária, como convenceria o incorporador que São Paulo não carece mais de prédios nesse pseudoestilo que não insere a cidade no futuro?
Hoje, o edifício de alto padrão precisa ter o atrativo do moderno e qualidade de projeto. Ao contrário do que se imagina, o neoclássico é um prédio barato de ser executado. O que traz a falsa impressão de luxo são os acabamentos em gesso, cimento, texturas, ao contrário das construções modernas onde caros são os revestimentos, os grandes vãos, os caixilhos enormes, etc. O incorporador sai pela tangente, limpa os excessos do neoclássico, mas não faz arquitetura moderna.

Como analisa a mudança do gosto em São Paulo nas últimas quatro décadas?
Quando adolescente, tinha amigos que viviam em casas Modernistas de concreto, da chamada Escola Paulista. Na geração seguinte, o gosto voltou-se para o neoclássico porque queriam casas mais aconchegantes, sem o barulho das construções de concreto que também tinha problemas térmicos – no frio, gelada; no verão, morria-se de calor. Com isso as pessoas passaram a implicar com a casa moderna. Mas, é preciso entender que o moderno atual pode ter o DNA dos anos 60 e 70, porém tem a tecnologia do século 21. Evoluiu.

Modernismo em um mundo de realidades virtuais não soa vintage?
O Modernismo não envelheceu. Mas também não amadureceu. O grande erro desse Modernismo do concreto aparente foi privilegiar a forma, o discurso, e esquecer o conforto, a vida. Ainda acredito nessa forma de projetar: gosto de pilotis, da interação dos espaços, dos planos de vidro, do desbloqueio espacial. Essa transparência – que começa com Mies van der Rohe – determinou um rumo no meu trabalho. É ela que busco aprimorar. Penso como Mário de Andrade: “O passado é lição para se meditar, não para se reproduzir”. Foi mais ou menos isso que fiz nos primeiros anos da minha carreira e ainda faço, só que de forma menos explícita.

Você é ambicioso, tem 45 arquitetos e estagiários lá e cá. O Studio Arthur Casas chegou ao tamanho ideal? Sonha expandir para outras capitais?
Não, não, é tudo que não quero! Na verdade, até ultrapassamos o tamanho, o ideal seria aqui uns 25, em Nova York uns cinco – porque parte da equipe daqui trabalha em projetos de lá. Acredito que iremos nos direcionar nos próximos anos para sermos um escritório só de criação, não de desenvolvimento de projetos, e ter escritórios satélites que façam isso. Paulo Mendes da Rocha faz isso há tempos e não perde qualidade. Mas preciso ainda refletir sobre esse modelo.

O que aconselharia para melhorar a qualidade de vida em uma casa?
Invariavelmente, quando alguém procura o arquiteto, a casa onde se habita tem problemas que, solucionados, melhoram a vida da família. Às vezes, chego a propor dois quartos para o casal, quando vejo que a relação já não rola mais. A entrevista que faço chega a esse tipo de intimidade, é uma análise com sensibilidade e respeito à célula familiar. É preciso saber interpretar. Muitas vezes a pessoa deseja coisas que não necessita. Por exemplo, numa casa de veraneio para que oito quartos se a família tem três filhos adultos? Isso é medo de solidão. Imagine os quartos vazios, o corredor com um monte de portas fechadas – só irá aumentar a sensação. Não há fórmula, são propostas tailor-made, família a família.

O que tem a dizer da arquitetura praticada por seus colegas Marcio e Isay?
Adoro o trabalho dos dois. Eu, de certa forma, mas sobretudo eles, que têm alguns anos a mais de mercado, abrimos a duras penas uma porta para a arquitetura brasileira, principalmente a contemporânea paulista. Tem mais gente nesse grupo como o Angelo Bucci, uma turma da FAU, tanta gente, eu não gostaria de ser injusto. Houve a geração do Paulo Mendes da Rocha com tanta gente boa, depois ocorreu um hiato nos anos 80 e 90, quando a gente pouco atuava. Marcio e Isay atuavam mais que eu por conta de terem trabalhado com outro grande, esquecido pela nova geração, Aurelio Martinez Flores (1929-2015). Fiquei amigo do Aurelio no final de sua vida. Se, hoje, a arquitetura está voltada ao moderno isso se deve a três, quatro profissionais que sobreviveram no período dos anos 80 e 90 sem abraçar o neoclássico.

E quem foi seu mestre?
Uma vez, inventei de entrevistar o Mario Botta para a Casa Vogue. Eu era apaixonado por sua arquitetura, fui a Mendrisio, na Suíça italiana, onde ele tem escritório. Disse-lhe que era perceptível em seu trabalho as influências de Carlo Scarpa e de vLouis Kahn – ele havia estagiado com ambos. Botta respondeu: “É como você dizer que não é filho de seu pai”. Eu nunca tive “pai”, ou mestre. Para mim foi um pouco mais difícil.

Que conselho daria a um aspirante a arquiteto?
Em qualquer profissão é preciso ser persistente e resiliente, a capacidade de lidar com problemas, acreditar naquilo que faz, saber observar, ter foco. Jamais devemos nos achar um loser, palavra muito americana que detesto. A arquitetura é uma profissão holística, você tem que ser contador, advogado, saber vender o projeto, saber construir uma equipe – um monte de coisas.

Você não reúne todas essas características?
Devo ter a maioria dos requisitos, mas não todos. Não sou bom administrador de dinheiro, por exemplo. Toda faculdade de arquitetura deveria ensinar a gerir um escritório, muito mais útil do que topografia. Tudo é business.

Aos nove anos de idade, sua filha Nina o comparou ao “Malvado Favorito”, personagem do desenho animado. Se você é malvado ou não, não tenho como saber. Mas está menos arrogante?
(Arthur se levanta, pega o boneco da prateleira de toys em sua sala e coloca-o na mesa. O boneco diz: “Hello, everybody!”). Foi a Nina quem me deu. (Risos) O Malvado Favorito tem muito a ver comigo. Sou muito bravo, mas derreto como manteiga em minutos. Somos fisicamente parecidos: carecas, meio corcundas, gostamos de echarpe. Não é que eu seja arrogante, sou perfeccionista, exigente. Mas aprendi a ser mais paciente.

Para fazermos um wrap up, como dizem os americanos ao encerrar, o que gostaria de mencionar?
Muita gente acredita que as coisas acontecem para os outros pela via da sorte. Mas o ônibus passa para todos, pegar ou não é uma opção sua. Às vezes, você tem que provocar as coisas. Eu não teria feito o Pavilhão do Brasil em Milão se não fosse minha inquietude a me levar a participar do concurso público. Ninguém sabia que o nosso escritório era um dos participantes, os nomes só foram revelados no final. Comecei a entrar em concurso público aos 50 anos de idade, podia ter ficado fazendo minhas casas. A inquietude é importante. E, outra, ser apaixonado pelo que se faz.

Está feliz com o sucesso?
É preciso reconhecer as oportunidades, dar sempre o melhor de si e não sofrer com as inevitáveis frustrações. Com isso, sou cético em relação ao conceito de sucesso.

E o que sua lapiseira sonha ainda esboçar?
Ainda quero fazer um grande hotel em São Paulo, acho que faz falta, o Emiliano foi um retrofit. Fiz o Emiliano Rio, na Avenida Atlântica, que estará completamente pronto em junho. Gostaria de fazer um museu, uma área pública de São Paulo… Tanta coisa!

Arthur Casas
arthurcasas.com

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