Um projeto de Cadas Abranches com mobiliário de Zanini de Zanine

Uma casa que quase mimetiza na paisagem em pedra, madeira, malhas metálicas e uma capela com mobiliário de Zanini de Zanine – sob medida

  • 1 novembro 2016
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Vista geral da casa plantada em terreno de aclive acentuado, em Itaipava

Embora seja um dos arquitetos mais ativos, conhecidos – e respeitados – do circuito carioca na atualidade, Ricardo Antônio Abranches David, notório pela alcunha Cadas Abranches, não é um sujeito lá muito fácil de se encontrar – mandei um WhatsApp para ele, devidamente ticado com dois “checks” azuis, e fiquei esperando a resposta até o fechamento desta edição. Avesso a rótulos, mídias e badalações, parece preferir deixar que seu trabalho fale por si só. E ele não só fala como entrega tudo o que a gente precisa saber, só de olhar: rigor construtivo, integração com a natureza, materiais orgânicos, recortes geométricos, circulações generosas, fluidas, arejadas. Bossa-nova carioca em versão quase tecno, mas com aspecto visual meio art brut, como o legendário casario projetado pelo mestre marceneiro Zanine Caldas (1919-2001) nos anos 1970 lá em Friburgo, em Búzios, em Angra dos Reis e em muitas outras encostas cariocas, além da vizinhança de Itaipava, é claro. Aliás, Zanine, que nem arquiteto por formação era, cravou sua genialidade em clássicos da arquitetura de veraneio na Cidade Maravilhosa que, inevitavelmente, acabariam influenciando quem viria depois dele, incluindo Cadas – o leve aclive acentuado dos telhados das caixas deste anexo, por exemplo, me remete a uma (re)leitura da “fase asiática” de Caldas, que voltou de uma viagem àquelas bandas apaixonado pelos folclóricos e zens “pagodás” (mas é só um palpite não validado com o autor do projeto – por falta de oportunidade, é claro).

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Recorte lateral da morada e como ela se conecta à vegetação do entorno

De volta à residência debruçada sobre a topografia paradisíaca de Itaipava, região serrana do Rio de Janeiro, trata-se de uma dessas obras autoexplicativas, que dispensam perguntas via WhatsApp. Neste caso, a mão de Cadas baixou em duas fases: primeiro veio a morada principal de 1.300 m2, uma dúzia de anos atrás; depois a ampliação recém-concluída – que é o que você vê nessas páginas, com cerca de 1.200 m2. “Os donos adoram receber os amigos para almoços, queriam um anexo social, uma quadra de tênis e uma academia de ginástica. Foi basicamente isso o que definiu o programa”, responde um dos arquitetos do escritório, por e-mail.

Para erguer o anexo, foram utilizados materiais que apresentam bom envelhecimento e se integram à natureza. Pedras tipo moledo, madeiras de demolição, telas metálicas, coberturas em cobre e tetos em palha e madeira compõem os volumes. As esquadrias de vidro integram o interior com o exterior, trazendo o entorno praticamente para dentro. “Utilizamos uma tela metálica com moldura em aço corten na circulação. Material leve que permite a transparência e ao mesmo tempo o fechamento do espaço.”

“Utilizamos uma tela metálica com moldura em aço corten na circulação. Material leve que permite a transparência e ao mesmo tempo o fechamento do espaço”

O ponto alto – do projeto e das fotos que ilustram essas páginas – é a capela, desenhada por Abranches e com recheio feito sob medida pelo designer Zanini de Zanine, filho do Zaninão que hoje responde por uma das melhores produções moveleiras do Brasil, colaborando inclusive com brands gringos como Thonet e Cappellini. Um passarinho soprou no meu ouvido que Zanini teria assinado um contrato de exclusividade para jamais reproduzir aqueles bancos em nenhum outro lugar. “Fizemos cerca de 10 bancos de missa (cada um em bloco único, com apoio para os joelhos) em ipê de demolição, executados pelos carpinteiros do meu ateliê. Também criamos os altares (um central e dois laterais, para apoio de imagens). Foi uma produção longa, usando bastante os quadrados e essa linguagem mais geométrica”, diz o designer.

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Registro da capela, que recebeu bancos de Zanini de Zanine, e do espelho d’água

Nessa capela, o pátio interno com espelho d’água no fundo do altar faz o isolamento e garante um visual de paz e calmaria. A entrada é marcada com uma cruz recortada em chapa de aço corten. Simplesmente lindo – e silencioso.

“O projeto paisagístico é do escritório Jardim Imaginário, com autoria de Louis Marcelo Nunes. Todo o plantio se adequa à região, com destaque para um grupo de cerejeiras”, continuam os emissários de Cadas em resposta à minha entrevista. Outro toque oriental que marca a atmosfera zen-geométrica deste refúgio de veraneio, que o nosso querido fotógrafo Denilson Machado definiu como “um dos projetos mais lindos que já registrei”.

No caso de Cadas, uma imagem vale mais do que mil palavras – e dispensa qualquer blá-blá-blá via WhatsApp.

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