Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Com o bloco na rua: para casa no Planalto Central, Bloco Arquitetos considera topografia, incidência solar e mínima interferência na vegetação

Para valorizar espaços para a recepção de amigos, desenho cria ambientes amplos e integrados que se envolvem com o horizonte do cerrado brasiliense

  • 17 outubro 2017

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Distante 40 quilômetros do centro da capital do País, as árvores retorcidas e as gramíneas do cerrado central brasileiro são também paisagem desta casa erguida pelo BLOCO Arquitetos em uma área rural no Distrito Federal. Viver em meio à natureza campestre era um sonho do casal de clientes, advogada e empresário, que, com ofícios favoráveis ao trabalho remoto, poderiam passar semanas inteiras ou parte delas vivendo por ali.

giz-4-bloco-arquitetos-vila-rica-haruo-mikami-4Foi a partir da orientação solar, do máximo aproveitamento da vegetação nativa, e do cuidado com a topografia que Daniel Mangabeira, 42 anos, Henrique Coutinho, 43, e Matheus Seco, 41, direcionaram a implantação do projeto. Para a mínima intervenção no terreno, levemente inclinado, optaram por criar três platôs que pousam sobre o solo, sobre os quais foram assentados dois pavilhões que acomodam os níveis internos da casa, elevados do piso de modo que se evitasse a entrada, acidental, de pequenos animais silvestres. Enquanto o pavilhão frontal abriga sala, varanda, garagem e serviços, no outro, perpendicular, estão banheiros externos, quartos e escritório. É no terceiro platô que fica a piscina. A circulação ao redor da área social e a conexão entre os blocos são abertas de modo a promover o contato direto com as condições naturais do terreno. Os espaços informais também estavam na cartela de requisitos: a família é festeira e precisaria de ambientes integrados.

giz-4-bloco-arquitetos-vila-rica-haruo-mikami-1Os materiais, de pouca ou nenhuma manutenção pós-obra e resistentes à ação do tempo, foram pensados para os dias em que a morada fica vazia: acessada somente por um trajeto via estrada de terra batida, a casa deveria estar preparada para o vento e a poeira da região. Eleitos como ideais, os tijolos e o concreto aparentes tiveram sua imperfeição valorizada, e os pilares também à mostra possibilitam perceber a separação entre elementos estruturais, alvenarias e vedações.

giz-4-bloco-arquitetos-vila-rica-haruo-mikami-3A manifestação da geografia local se estende: a latitude de Brasília e o clima de tardes muito quentes direcionaram a orientação das fachadas para que as voltadas para o sol poente (Oeste) tivessem de estar preparadas para a incidência solar direta durante a tarde, o que as fez fechadas, exceto por pequenos rasgos baixos para entrada de luz no nível do piso. “A ideia dos moradores, da qual compartilhamos, era poder acordar com a primeira luz do dia”, conta a equipe de BLOCO. Além disso, a distância em relação aos vizinhos já fornece a privacidade desejada para os quartos, dispensando o uso de cortinas nos ambientes. Já o sol do Norte, inclinado durante os meses mais secos do ano, faz com que as faces voltadas em sua direção requeiram proteção adequada, como os grandes beirais de concreto.

giz-4-bloco-arquitetos-vila-rica-haruo-mikami-7A Casa Vila Rica faz parte de uma leva de projetos mais recentes do BLOCO Arquitetos em que, apesar de os interesses seguirem os mesmos, a equipe tem percebido que o desenho da estrutura e a materialidade das superfícies têm assumido uma importância maior. “Não se trata de uma mudança completa de rumo, mas, talvez, uma bifurcação no caminho”, dizem. Fãs da arquitetura ibero e latino-americana e inspirados pelo espanhol Rafael Moneo, os amigos consideram que o projeto seja uma ideia que opera sobre o contexto, social ou material, que pode ser permeada por vivências de cada arquiteto. “No nosso caso, crescemos e estudamos em Brasília, portanto, nossas referências têm relação direta com a cidade, suas virtudes e seus problemas”, finalizam.

 

Bloco Arquitetos
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