Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

A arquitetura é um sopro: cores vivas em tecidos esvoaçantes complementam arquitetura monumental do Memorial da América Latina

GIZ alcança as intocáveis empenas, dunas e platôs suspensos de um dos maiores complexos da antologia arquitetônica do mestre Oscar Niemeyer em intersecções com a escala da moda que arranham os céus num sopro de cor, movimento, poesia e catarse visual

  • Por:ALLEX COLONTONIO
  • Fotos:SALVADOR CORDARO
  • Styling:RODOLFO BELTRÃO
  • Make:RENAN TAVARES
  • Modelo:TAINÁ FELIX (@ELOMANAGEMENT)
  • 6 novembro 2017
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Registro da passarela do Memorial da América Latina. Tainá usa vestido Marcelo Quadros, com extensões de tecidos. marceloquadros.squarespace.com

O Memorial da América Latina, GIZ e o verbete “impossível” têm uma relação afetuosa entre si. Um ano atrás, quando lançamos o projeto ambicioso capitaneado por esta publicação, pusemos na cabeça que teríamos que fazê-lo em algum lugar onde a arquitetura se manifestasse com força monumental. Apenas dois espaços me vinham em mente (e ambos passeavam pelas curvas voluptosas de Oscar Niemeyer): o conjunto de prédios do Parque do Ibirapuera e o Memorial. Ficamos com o segundo, naquela que viria a ser uma das operações mais insanas da pequena antologia das celebrações do design – e que, exatamente por isso, aterrissaria com tanto impacto no mercado. Tudo porque o auditório Simón Bolívar, um dos palcos mais legendários das Américas, passava por uma reforma minuciosa após o incêndio que o devastou, em 2013. Uma realização pessoal e tanto: ali assisti a alguns espetáculos inesquecíveis na minha adolescência e juventude, que contribuiriam tacitamente para a minha formação cultural, de Mercedes Sosa a um concerto de cantoras negras brasileiras sob regência de Sônia Campos, que juntou desde Daúde à nossa musa da capa Elza Soares.

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Banco Marquesa, design Oscar Niemeyer, Etel Interiores. etelinteriores.com.br. Vestido acervo. Salão de Atos do Memorial da América Latina

Com dedicação integral sob a batuta da competente diretora comercial Keila Ferrini, mobilizamos todos os esforços, orações e mandingas para varrer o prefixo “im” do adjetivo “impossível”. O lançamento de GIZ, com show histórico de Ney Matogrosso, seria o primeiro e único evento realizado ali entre o incêndio e a reforma, prestes a ser concluída (em dezembro desse ano) para marcar uma nova fase tanto do auditório que leva o nome do revolucionário venezuelano que libertou sua terra (mais Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Bolívia do domínio Espanhol), quanto do próprio complexo Memorial em si, que se rejuvenesce pelas mãos do novo presidente em exercício, Irineu Ferraz.

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Sobre o Salão de Atos do Memorial da América Latina, modelo veste Apartamento 03 com extensões de tecidos. apartamento03.com.br

Ainda mais impossível do que colocar de pé uma festança para três mil convidados durante as obras (sem a infra básica de eletricidade, água, banheiros e segurança, tudo providenciado a toque de caixa e às custas de um rim, um fígado e um pulmão de cada um dos envolvidos), seria o ensaio que comecei a planejar já naquela época. Internados na Fundação durante dias para acompanhar desde a remoção de entulho até a limpeza do Foyer, passando pela montagem de palco, ficamos mais próximos do que nunca daquelas estruturas côncavas que fazem os olhos derrapar no horizonte, numa sinuosidade impressionante que caracteriza a genialidade de Niemeyer. Me lembrei de seu documentário A Vida é um Sopro e vislumbrei vestidos em extensões superdimensionadas coreografando aos mandos dos ventos sobre aquelas dunas, marquises, platôs, rampas e empenas altíssimas. “Impossível”, ouvi da administração ao externar minhas intenções de trepar nos telhados tombados na ocasião. Passei a perseguir implacavelmente a derrubada do prefixo “im” novamente. Um ano de negociações depois, subimos onde ninguém, exceto um ou outro “alpinista” da manutenção, jamais estivera antes. Feito que demandou novos alvarás, bombeiros, gruas, guindastes, empilhadeiras, drones – e uma equipe corajosíssima e sem vertigem, começando pela top Tainá Felix, pelo fotógrafo Salvador Cordaro e seu assistente Fábio Palata, pelo stylist Rodolfo Beltrão e pelo maquiador Renan Tavares, além da minha brava matillha in loco, o diretor André Rodrigues e a produtora executiva Adriana Oliveira, com participação especial do diretor de arte José Renato Maia e do staff do Memorial, é claro. Tudo por uma interferência sutil de cor e movimento sobre uma das paisagens arquitetônicas mais impressionantes da urbe. Uma espécie de dança folclórica dos véus, para celebrar a diáspora latino-americana.

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Sobre rampa do Parlatino do Memorial, Tainá usa vestido Samuel Cirnansck com extensões de tecidos. samuelcirnansck.com.br

“Suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz”, disse Niemeyer naquela virada de década. Erguido entre 1987 e 1989, na controversa gestão do então governador Orestes Quércia (1938-2010), o Memorial foi concebido para representar a união e o estreitamento das relações políticas, econômicas e culturais dos povos latinos. Um escândalo na época, já que a obra teria custado US$ 48 milhões, dez vezes mais do que o previsto. Desenhado em duas praças que cruzam a avenida Auro Soares de Moura Andrade, na Barra Funda, em São Paulo, e se conectam por uma ponte imensa, o complexo abarca sete edifícios: Biblioteca Latino Americana, Praça Cívica, Pavilhão da Criatividade, Salão de Atos Tiradentes, Galeria Marta Traba, Anexo dos Congressistas e o Auditório. São 85 mil metros quadrados de terreno, e 25 mil metros quadrados de área construída. Foi o próprio Niemeyer quem sugeriu ao antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) que realizasse o projeto cultural da Fundação, já que Ribeiro, Chefe da Casa Civil do governo de João Goulart, fora exilado e acabou atuando na política de diversos países sul-americanos. “O Memorial é o primeiro gesto brasileiro que realmente chama os latino-americanos a congregar, um ato por meio do qual todos nós nos assumimos como latino-americanos. Com ele, São Paulo será a capital cultural desta América, com nossa cultura sul-americana olhando para si mesma, com orgulho de si e se cultivando”, sentenciou o antropólogo.

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Vestido Marcelo Quadros (marceloquadros.squarespace.com) com extensões de tecidos, em frente ao prédio da Administração do Memorial da América Latina

Ao escalar os tetos do complexo na operação quase acrobática que foi este ensaio, em parceria com a Administração da Fundação Memorial, e fazer tomadas aéreas mais panorâmicas do conjunto, tomamos outra decisão estética ousada: varrer do mapa, digitalmente, os prédios medonhos que, ao longo dos anos, foram brotando em sua órbita. Queríamos, aqui, trocar o “im” pelo “in”. Afinal, nem toda a arquitetura é um sopro.