Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Quando os diamantes são eternos: um projeto de Marc Koehler, Dune House se encrava feio pedra preciosa em arquipélago holandês

No arquipélago das ilhas Frísias, que se debruçam das encostas dos Países Baixos até a Alemanha, o arquiteto finca uma casa de madeira em forma de diamante que quase mimetiza com a paisagem arenosa da região

  • 25 outubro 2017

 

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Se você estiver no norte da Holanda, será preciso apanhar um ferry-boat, aquela embarcação tipo balsa gigante com fundo chato, para chegar até a ilha de Terschelling, também conhecida por Skylge, destino que compõe o arquipélogo das Frísias, um cordão de ilhas que se desenvolvem desde o Mar do Norte ao longo das costas dos Países Baixos e da Alemanha. Na sua órbita, uma extensa área de bancos arenosos suportam pequenas comunas que vivem essencialmente do turismo, da agricultura e da pesca. De olhos bem abertos, caminhando entre as dunas da ilha de Terschelling, todas tombadas como reserva ecológica, é possível avistar uma casa que à primeira vista parece enterrada na areia, ao relento, apenas esperando ser engolida pela enseada a qualquer momento. Mas não vai!

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Registro da Dune House com seu grande volume de vidro e madeira de cedro vermelha que parece mimetizar na paisagem entre as dunas da ilha de Terschelling, no norte da Holanda

Como um diamante de madeira emergindo das rochas, a Dune House (nome autoexplicativo) parece sempre ter sido parte da paisagem por brotar no horizonte como um grande volume de vidro e madeira de cedro vermelho – escolhido estrategicamente por sua resistência ao spray constante de sal do mar, que corrói e oxida tudo o que encontra pela frente.

A beleza desse design é que ele nunca é entediante. De cada ângulo, a casa fica diferente. Olhando do oeste, ela é uma pirâmide. Do leste, uma casa futurista camuflada. Do norte, uma casa de família. E da parte sul, um loft de vidro. É absolutamente brilhante

“A Dune House foi inspirada na experiência de passear entre as dunas em que a casa foi construída. É irresistível cortar os montes de areia, de cima a baixo, para encontrar a melhor vista”, conta o arquiteto responsável pelo feito, o holandês Marc Koehler, escolhido a dois dedos para materializar o desejo dos irmãos que cresceram ali – e ficaram mais de duas décadas longe, sonhando com o dia de regressar, em grande estilo. Jort e Maarten Kelder não voltavam havia 25 anos para Terschelling, mas sempre batalharam para ter um pied-à-terre para chamar de seu na região. Tiveram que esperar um tempo: a área das dunas, patrimônio do Estado, permite apenas a venda de 80 lotes para construção. Com alguma sorte, dois terrenos foram disponibilizados para a venda e eles não pensaram duas vezes antes de bater o martelo.

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Aqui e abaixo, detalhes dos interiores da morada nada convencional, que dá uma aula de boa arquitetura, com direito a explorar a bela vista do entorno

Jort conta que comprou mais de 100 livros de arquitetura urbana e de casas de praia de madeira antes de chegar ao nome de Koehler. O curioso é que a escolha não se deu pelo fato de Jort ter gostado do trabalho do arquiteto ou de seu estilo de construção, mas por achá-lo bastante ambicioso e paciente, capaz de, com seu jeito calmo, conseguir fazer muito em poucos metros quadrados disponíveis.

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Foi então a vez de Marc segurar a batata quente e se deparar com severas restrições. De acordo com o estatuto da reserva, na área não são permitidas edificações maiores que 90 metros quadrados, e seria obrigatória a instalação de um telhado inclinado para o oeste (por conta do vento). Além disso, as obras da fundação da casa deveriam terminar em duas semanas, para não atrapalhar a época de acasalamento dos pássaros nativos. Da parte dos Kelders, um pedido não negociável, que o arquiteto tiraria de letra: uma parede de vidro que desse vista para mar.

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“A chaminé é a parte central da casa. Em um estilo Frank Lloyd Wright, é o coração central, com toda vida acontecendo ao redor dela”, explica Koehler, que projetou também andares de tamanhos diferentes, o que dá a sensação de se estar andando entre dunas. Muito mais do que não perturbar a vida sexual das aves, arquitetado como um loft, o lar-doce-lar é mais do que ecologicamente correto, com painéis solares, eletrodomésticos e iluminação de baixo consumo de energia, com sistemas naturais de refrigeração e aquecimento. “A beleza desse design é que ele nunca é entediante. De cada ângulo, a casa fica diferente. Olhando do oeste, ela é uma pirâmide. Do leste, uma obra futurista camuflada. Do norte, uma casa de família. E da parte sul, um loft de vidro. É absolutamente brilhante”, diz, sem modéstia, Koehler sobre sua joia rara que já arrebatou diversos prêmios. E que trouxe para os dias de hoje os melhores recortes da infância ensolarada dos irmãos Kelder que, vira e mexe, encontram alguns ninhos de passarinho em seu telhado-deque.

Marc Koehler Architects
marckoehler.nl