Revista Giz

01 Out 2016 - Dez 2016

#1 | Edição de Estreia

EGO x ECO: a arquitetura pode mudar o planeta

O jovem escritório de arquitetura EFFEKT, com base em Copenhague, na Dinamarca, renova a vanguarda escandinava com o projeto ReGen Villages: comunidades planejadas hoje com a cabeça no dia depois de amanhã. A primeira vila fica pronta em 2017 e pode marcar o despertar de uma nova etapa no habitar humano

  • 1 novembro 2016

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Quando Nikola Tesla (1856-1943) apresentou à comunidade científica suas teorias sobre a eletricidade (em 1887), não deu outra: acharam que ele havia levado um choque e fritado os neurônios. Corta para 2016 e, seguramente, toda a geração e a distribuição de energia em escala global têm como base as “sandices” de Tesla. “Gostamos de pensar que o projeto ReGen é o Tesla das ecovilas. Nossa missão é proporcionar uma escolha sustentável, conveniente, fácil e acessível a todos”, explica Sinus Lynge, co-fundador do escritório de arquitetura e mentor da equipe que materializou a visão do empresário James Ehrlich para suas ReGen Villages, que foram destaque no Pavilhão Dinamarquês da Bienal de Arquitetura de Veneza (2016). São comunidades planejadas de modo autossustentável e com inteligência aplicada em tecnologias de uso compartilhado e integrado, feitas sob medida para enfrentar desafios cada vez mais alarmantes dos nossos tempos nos âmbitos social, financeiro e, acima de tudo, ambiental. Ao citar Tesla, Sinus passa a mensagem: sua turma acredita que essa nova tendência do habitar humano vai vigorar, indubitavelmente, dentro deste século, devendo se tornar a nova ordem mundial. “Atualmente, ocupamos 40% do território de todos os continentes com a produção de alimentos. Esse ramo da indústria é, sozinho, o maior emissor de gases que causam o efeito estufa, além de promover fortemente a devastação de florestas e gastar 70% de toda a água potável disponível no planeta. Perdemos 30% da produção de alimentos antes mesmo que ela seja consumida, isso durante o transporte – e, ainda assim, 1/7 da população mundial (cerca de 1 bilhão de pessoas) vai dormir com fome todas as noites. Precisamos criar modelos que sejam melhores do que esse. As ReGen Villages são uma opção”, contextualiza Lynge.

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Na prática, já começou e fica pronto em 2017. A primeira vila vai ser instalada em Almere (a 25 minutos de Amsterdã), na Holanda, e tem 100 casas de tamanhos e estilos variados. Novas encarnações seguem planejadas para ocupar Suécia, Noruega, Dinamarca e Alemanha; e eles têm intenção de expandir para outros cantos, como os países árabes, Malásia, Índia, China, alguns destinos na África, Estados Unidos e Canadá. Por enquanto, nada de Brasil – ainda precisamos nos libertar do esquema casa-grande e senzala. “Esse novo jeito de morar representa um passo adiante para uma vida de abundância em contato direto com a natureza, sem abrir mão de serviços que ajudam a tornar tudo mais confortável e menos árduo”, conta Ehrlich. Ou seja, não precisa temer as muriçocas nem as urtigas: nessa vila, o ecossistema opera de modo perfeitamente equilibrado, podendo ser rastreado em todas as etapas. Como explicar isso para uma criança que vai crescer nesse admirável mundo novo? James Ehrlich não hesita: “Imagine viver em uma casa dentro de uma vizinhança que é como a barriga da sua mãe. Você tem tudo disponível ali perto – de comida deliciosa a água pura e energia limpa – e até o lixo é transformado em uma coisa de muito valor”, fala, empolgado, antes de finalizar em um rompante de grandeza digno de Tesla: “Essas vilas podem curar o planeta”. Eureka!

Como funcionam as ReGen Villages?

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Cada vila tem 25 casas (entre 80 e 140 metros quadrados dentro de uma tipologia pré-estabelecidade) organizadas em torno de um círculo. No meio, entram as unidades para produção de alimentos. Essas construções são, então, envelopadas por vidro, como se fossem estufas, para estender as temporadas de cultivo das colheitas e convívio social. Entram os espaços para recarregar carros elétricos, que são como micro estacionamentos. Os espaços sociais (áreas de convívio) são construídos entre as moradias e a produção dos alimentos, para garantir a interação dos moradores. Com isso, cria-se um ecossistema saudável e que não preda a natureza – mas, sim, a auxilia em sua regeneração natural.

Passo 1:
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Todo resíduo gerado em uma casa Regen é categorizado, separado e enviado para diversas finalidades

Passo 2:
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 Os resíduos que não são compostáveis são direcionados para uma unidade de biogás

Passo 3:
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Os resíduos que são compostáveis são usados como alimento para o cultivo de moscas e para o rebanho

Passo 4:
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As moscas são fornecidas como alimento para os peixes e o resíduo produzido pelo rebanho é usado como fertilizante nos jardins sazonais

Passo 5:
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Os resíduos gerados pelos peixeis são, por sua vez, utilizados como fertilizante para as plantações aquapônicas

Passo 6:
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O sistema aquapônico fornece frutas e verduras para a moradia Regen

Passo 7:
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Os jardins sazonais fornecem uma variedade de produtos para consumo doméstico

Passo 8:
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Rebanho e peixes são as principais fontes de proteína

Passo 9:
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O sistema coleta a água da chuva e a armazena para uso posterior em um reservatório

Passo 10:
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A água produzida em excesso pela unidade de biogás também é direcionada para o reservatório

Passo 11:
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A água imprópria para o consumo humano é separada em uma unidade de coleta independente

Passo 12:
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Essa água imprópria para o consumo humano é utilizada para regar os jardins sazonais

Passo 13:
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A água limpa do reservatório pode ser redirecionada para manutenção das plantações aquapônicas sempre que for necessário

Passo 14:
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Painéis de captação de energia solar garantem a eletricidade nas casas ao mesmo tempo em que redirecionam os excessos de energia para um gerador chamado de smart grid;

Passo 15:
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A energia produzida pela unidade de biogás excedente também é direcionada para o smart grid

Passo 16:
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O smart grid é projetado para redirecionar a energia armazenada para carregar carros movidos a eletricidade, por exemplo. A tecnologia do smart grid permite que a energia seja utilizada de forma otimizada, para minimizar perdas

EFFEKT ARKITEKTER
effekt.dk

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