Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

Poesia da arquitetura: projeto assinado pelo arquiteto André Becker em São Paulo

O layout de André Becker surpreende pela qualidade autoral repleta de referências e reverências, praticamente debruçada sobre uma praça paulistana. Uma ode ao deleite das novas gerações e seu contato (desde cedo) com o melhor da poesia concreta

  • 3 abril 2017
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Luca De Nardo Missaglia e Miguel Aniceto multipilcados brincam no mirante entre poltronas Mole by Sergio Rodrigues, Dpot

poesia da arquitetura costurada por um Minimalismo em sua máxima escala. Debruçada sobre uma praça muito arborizada e, por mais incrível que pareça, a poucos passos da movimentada Faria Lima, avenidão paulistano corporativo que é um dos mais movimentados do País, o projeto assinado pelo arquiteto André Becker é uma casa original dos anos 1950 e que passou por uma repaginação capitaneada pelo legendário Aurélio Martinez Flores (1929-2015). O arquiteto mexicano radicado no Brasil, cardeal do Minimalismo Concreto que é uma das melhores escolas da nossa Arquitetura Contemporânea, teve entre seus pupilos nomes como Isay Weinfeld, Marcio Kogan e Arthur Casas.

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Geral do mirante com direito a poltrona Mole para desfrutar da bela vista da praça em frente à morada

“Ele fez uma super-reforma, de excepcional detalhamento técnico e bom gosto, durante os anos 1990. Aurélio Flores influenciou toda uma geração paulistana com seu Minimalismo elegante, de acabamentos e espaços impecáveis. Participou da formação de toda uma geração de referência – diretamente, ensinou a minha geração, seja por quem teve contato com sua obra, ou indiretamente, pela referência que esses profissionais-alunos têm sobre o meio hoje. Admiro profundamente a simplicidade e a elegância de seu legado e o cuidado com o detalhe, muitas vezes renegado na arquitetura”, explica Becker.

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O living aberto para a varanda ganhou poltronas Dinamarquesas design Jorge Zalszupin, Etel e mesa de centro Bell de Sebastian Herkner

O próprio arquiteto, morador de Higienópolis, bairro central de Sampa, vizinho ao edifício Louveira, de Vilanova Artigas (1915-1985), exemplo clássico de construção que dialoga com o entorno, desejava assinar uma obra que se conectasse de maneira harmoniosa com o exterior. “A cidade funciona melhor numa relação de abertura para o outro, não de fechamento.” A casa de 520 metros quadrados se esparrama para uma pequena praça, no bairro estritamente residencial mas com alguns eixos de prédios em distâncias saudáveis: visíveis e legíveis, mas não sufocantes. O briefing tinha duas frentes: uma ala totalmente nova no segundo andar para criar um grande terraço e alguns novos espaços que contemplam a vista incomum para a praça, e uma série de alterações de ambientes e articulações internas para que a morada se adequasse ao estilo de vida dos moradores – um jovem casal do mercado financeiro com uma filha recém-nascida.

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Registro aéreo da parte externa com as crianças brincando na piscina

Deste modo, e por motivos de ordem prática, o conceito do projeto foi resolver o novo pavimento de forma leve e de rápida execução. “Uma estrutura metálica com quatro pontos de apoio apenas: dois pontos foram colocados num eixo estrutural existente da residência, e dois apoiados fora, com longos pilares laterais e fundações novas, de modo a distribuir as cargas adicionais da reforma suavemente. O novo pavimento ganhou uma grande floreira na parte frontal, que mimetiza a casa com a praça, e define outro elemento conceitual importante da repaginação: trazer os jardins para dentro. “O paisagista Raul Pereira foi parte vital do projeto. Ele enriqueceu o jardim existente no térreo, e desenvolveu com sensibilidade ímpar os novos modelos vertical e suspenso, além dos canteiros e vasos do andar superior, que complementam a imersão à pracinha.” Na planta original, apenas a sala de estar tinha um jardim amplo.

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O living com sofá Orla, design, Jasper Morrinson, Micasa; mesa de centro design Simone Coste e poltrona Alta de Oscar Niemeyer

“Na reforma, demolimos a cobertura da garagem e um escritório acima desta, e a refizemos com fundações novas que suportassem a carga de um jardim de grande porte, defronte à praça, com um spa e árvores. A ideia foi ampliar a área verde externa e também a casa, tal qual o Artigas fez no Louveira”, detalha.

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Sala de jantar com a mesa Planalto, Estúdio Paulo Alves, e e cadeiras Oscar, design Sergio Rodrigues, Dpot

Após a definição dos elementos formais e conceituais, os outros aspectos importantes da obra se desenvolveram naturalmente. A programação se delimita em hall, jantar, home theater, estar, varanda, cozinha, adega, edícula, garagem, lavanderia, depósito, quarto e WC de apoio no térreo. “O estar integrado ao jardim é o único ambiente que não sofreu alteração alguma: era uma pérola do Aurélio.” No primeiro andar ficam as suítes principais e de hóspedes, jardim e SPA. No segundo piso se localizam academia, estar, terraço, sauna, WC e copa. Ele se conecta tanto com a casa internamente, quanto com o jardim/spa, externamente e que na verdade são uma extensão do terraço deste pavimento.

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Paredão verde assinado pelo paisagista Raul Pereira e retrato do arquiteto André Becker

Outro ponto alto da casa são os acabamentos e texturas, alguns herança do esmero de Aurélio Flores, como o piso em travertino, as paredes muito claras e a entrada de luz natural na morada. “Mantivemos essa paleta de cores e acrescentamos alguns itens contemporâneos. O mármore foi recuperado e mantido. Já outros ambientes receberam madeira de demolição autêntica originalmente de um galpão agrícola descontinuado. Esse piso já queimado por décadas de exposição às intempéries está bem curado e dispensa tratamentos”, conta. A escada também foi conceituada dentro da narrativa do projeto de explorar o máximo da leveza em todos os aspectos.

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A academia ganhou móvel suspenso, design Estúdio Paulo Alves com serralheria LPS

Ela é composta de placas metálicas maciças de um centímetro de espessura, chumbadas nas laterais e suspensas por tirantes centrais com acabamento de pintura epóxi branca. O resultado é genial e remete à sensação de um agradável “tapete” de metal aveludado. A marcenaria desenvolvida em parceria com o expert Paulo Alves também vale menção honrosa. Como destaque, o móvel giratório da academia, executado pela serralheria LPS com rolamentos automotivos, que permitem rotações suaves e sem ruídos. Para atender os proprietários que têm grande apreço por arte, mobiliário e design, os interiores levam recheio à altura da casca.

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Mesa Elica da Zanotta acompanhada das cadeiras Rocher, design Hertel & Klarhoefer, Ligne Roset. Ao lado, escada que parece flutuar

Por lá, desfila uma caprichosa constelação de craques do desenho nacional e gringo como Sergio Rodrigues, Jader Almeida, Paulo Alves (olha ele de novo aí), Jasper Morrison, Ronan & Erwan Bouroullec, Jorge Zalszupin, Oscar Niemeyer, Sebastian Herkner e Simone  Coste. “Os moradores foram parte vital do processo. Todo layout é a soma de arquitetos + clientes, tanto na escala mais intimista quanto nas comerciais e urbanas. O outro lado, sejam pessoas, incorporadores privados ou órgãos públicos são tão importantes quanto bons arquitetos”, finaliza Becker, um dos excelentes representantes da novíssima pele da arquitetura nacional – aquela que se preocupa com o dia de amanhã sem se esquecer de ontem.

André Becker
R. Bela Cintra, 282, Cj 25, São Paulo.
T (11) 2369 5692
andrebeckerarquitetura.com.br

 

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