Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

A Vida Secreta das Abelhas: além de dividir seu tempo entre projetos desenhados à mão e peças criadas para a autoral Dieedro, Jayme Bernardo produz, anualmente, litros de mel para os amigos

O arquiteto, designer, festeiro e gentleman que prefere o lápis ao autocad, cultiva pés de lavanda, jabuticabeiras, projetos internacionais e abelhas no rooftop de seu escritório, aninhado num arranha-céu em Curitiba

  • Por:Allex Colontonio
  • Foto:Salvador Cordaro
  • Interferência Artística:Marcelo Calenda
  • 18 outubro 2017

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Com quase 60 primaveras, outonos, invernos e verões somados no RG, Jayme Bernardo chegou ao topo, literalmente. Principal nome do décor do cone sul – e um dos principais do País –, ocupa a cobertura do nono andar de um edifício no bairro do Batel, a nata da burguesia paranaense. Comanda, com mãos de ferro – e à mão livre, já que não tem lá intimidade tampouco paciência com autocads –, uma equipe de 40 arquitetos que traçam entre 100 e 150 projetos por ano, dependendo dos loopings da crise. Ariano roxo, hoje responde por uma das produções mais comentadas no métier, entre empreendimentos corporativos (hotéis como Mabu, Deville e Slaviero encabeçam a lista), residenciais (de mansões em Miami a apartamentos em Paris, passando por haras em Piraquara), festanças (ele já assinou cenografias do balacobaco e, neste momento, matuta um casamento na praia para 500 convidados) e design de produto de ótima qualidade, sob o selo Dieedro. Todos os anos, religiosamente, envasa (num frasco-conceito desenhado por ele próprio, é claro) litros de mel que distribui entre amigos, clientes e a imprensa – bombas glicêmicas disputadas a tapa na seara arq-design. Os insetos, cerca de cinco mil indivíduos da espécie Jataí, sem ferrão, são mais discretos e bem menos ariscos do que seus parentes africanos. No inverno, não saem da colmeia nem por reza brava, o que frustou quase uma dezena de tentativas deste retrato (realizado com um empurrãozinho do diretor artístico Marcelo Calenda e outro do Photoshop). Da sacada de sua varanda, JB observa os bichinhos flanando entre as lavandas e jabuticabeiras que cultiva. Esse je ne sais quois um pouco menos austero diz tudo e mais um pouco sobre o arquiteto garboso na estampa e ainda mais elegante no trato com o outro. Na infância, percebeu a paixão pelo desenho e uma inclinação intuitiva pelas volumetrias. A escolha foi recebida com estranheza pelo clã – na família, enquanto o pai era jornalista, os primos foram para o lado da medicina. Nascido em SP, mudou-se cedo para a provinciana Loanda, interior do Paraná. “Meu tio fundou a cidade e levou meu pai para lá, que montou um jornal local. Fui alfabetizado praticamente corrigindo o periódico”, relembra.

Cursou Arquitetura e Urbanismo na Federal e, simultaneamente, Engenharia Civil – acúmulo estratégico que lhe permitiria racionalizar milimetricamente a poesia do compasso. Até o começo da década de 1990, manteve uma das mais interessantes lojas de mobiliários e acessórios do pedaço, com as bênçãos da papisa do design Adriana Adams (a mulher que revelou os irmãos Campana). “Quase todas as peças de design seguem o mesmo padrão da arquitetura. O design do Buffet 2V, feito para a América Móveis, por exemplo, poderia ser a base de um prédio”, explica sobre o novo momento na Dieedro. Influenciado por ícones minimalistas como Frank Lloyd Wright, Jayme persegue um traço mais bem-humorado do que seus mestres, outro sintoma de como enxerga a vida. Discreto em relação ao seu universo particular, acumulou nos últimos meses ainda mais milhas do trecho Curitiba-SP, por conta de um romance “vespeante” com uma persona queridíssima do meio, mas Jayme despista os abelhudos de plantão e prefere escancarar mais A Vida Secreta das Abelhas do que a sua, para fazer um trocadilho com o best-seller da escritora americana Sue Monk Kidd. De qualquer forma, bisbilhoteiros que somos, descobrimos que JB sofre de estrófulo, aquela alergia aguda a picadas de abelhas que matou o personagem de Macaulay Culkin no dramático filme My Girl, de 1992 (traduzido por aqui como Meu Primeiro Amor). A vida secreta dos arquitetos pode ser muito mais cheia de mistérios do que a dos insetos.

Jayme Bernardo
jaymebernardo.com.br