Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

Desvio para o azul: de tirar o fôlego é o projeto de Olivier Dwek debruçado para a ilha grega Cefalônia

Banhada pelo azul do mar Jônico, a casa-moldura escancarada para a Cefalônia enquadra ângulos que parecem pinturas vivas no projeto de Olivier Dwek

  • 31 março 2017

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Se o síndico Tim Maia cantava ser fundamental “ver na vida algum motivo pra sonhar e ter um sonho todo azul da cor do mar”, outro mito do nosso cancioneiro popular, o Djavan, foi ainda mais específico ao ilustrar o seu mar-fetiche na letra de Mal de Mim (aquela do versinho sexual-emepebista “dormir contigo é escutar Gal e Tom”). O trecho em questão diz: “Passear, rever amigos, conduzir boas novas e visitar a Grécia no futuro”.
Música para os olhos e inspiração para todos os sentidos, essa casa cravada na encosta que descortina a Cefalônia, ilha Grega descrita por Homero na antiguidade como “morada dos deuses”, faz parecer mitologia qualquer episódio recente ligado ao crash de um dos países mais deslumbrantes da Terra.

“A protagonista é a ilha, emoldurada pela casa. Dos desenhos iniciais até a finalização, os planos todos giraram em torno da vista que seria descortinada”

Sem trocadilhos, a dívida de proporções homéricas que soma mais de €320 bilhões contraída por conta de administrações públicas desastrosas, corrupção endêmica e evasão de divisas – qualquer semelhança com nós tupiniquins é mera coincidência – por pouco não devastou o paraíso nos últimos anos. Aos 45 minutos do segundo tempo, a chanceler alemã, Angela Merkel, garantiu ajuda financeira ao país mediterrâneo com a condição de medidas de austeridade – que nunca saíram do papel. Valendo-se da égide de suas divindades, a Grécia deu o maior calote da história do FMI, e hoje convive com altas taxas de desemprego, além de uma exasperada crise humanitária, que traz refugiados sírios batendo diariamente aos portões de Zeus.

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Mas o papo aqui é paisagem-cartase, coisa que os gregos têm para dar, vender, doar, locar e sambar na cara da sociedade com um prato na mão e outro no chão.
O criador por trás da criação justifica o efeito que o refúgio exerce sobre quem o espia. Olivier Dwek nasceu em Bruxelas, na Bélgica, em 1970. Sua paixão pelas artes visuais o levou à Académie des Beaux-Arts, antes de cursar arquitetura. É reconhecido pelo caráter não-sistemático de suas obras, que vão desde butiques da Louis Vuitton, passando por galerias de arte, reformas de fábricas antigas e inúmeras obras residenciais. Alinhada aos movimentos Modernista e Minimalista, a produção criativa de Dwek reflete sua elegante busca por um rigor formal, sem cair na vala da estética fria e asséptica. Virtuose em criar volumes com luz e sombra, Dwek aplica um certo caráter museológico em seu trabalho. As linhas e perspectivas são mais limpas, as estruturas monumentais são mais móveis e simulam leveza com muita competência.
A morada parece pequena na encosta verdejante que arranca suspiros que quem passeia pela praia

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É essa equação que vemos por aqui. Dwek desenvolveu seu projeto a partir de contornos retilíneos que criam perspectivas geométricas e dinâmicas. É como se ele tratasse a vista como polaroids superdimensionadas, com direito àquelas bordinhas brancas e tudo.
Os meios justificam os fins: a Cefalônia nasce envolta às brumas do Mar Jônico – seu pico está a 1.628 metros de altitude. Observada da casa, emerge do meio de uma luz intensa e azul, frequentemente escoltada por um véu de nuvens brancas. “Quando surgiu a oportunidade de construir uma residência de frente para esse espetáculo, minha escolha foi elementar. A protagonista é a ilha, emoldurada pela casa. Dos desenhos iniciais até a finalização, os planos todos giraram em torno da vista que seria descortinada. Terraços, sala de leitura, de jantar, cozinha, quartos e banheiros, e toda área social estão voltados para a vista marítima, enfatizada pela arquitetura, o que torna tudo mais teatral”, explica Dwek.

giz-2-olivier-dwek-7

giz-2-olivier-dwek-8A estrutura totalmente branca, quando contemplada em contraponto ao azul Klein, remete à espuma das ondas que quebram na encosta. Esse contraste cromático evoca as construções tradicionais das Cíclades, as ilhas mais famosas do Mediterrâneo, ao sul do Mar Egeu, com seu casario caiado. Olivier Dwek confirma essa referência, e complementa com a necessidade de buscar inspiração na história da arquitetura vernacular para que a mesma seja adaptada para os dias de hoje. Com tanta crise, os deuses devem estar loucos, mas não descuidaram de sua terrinha.

Olivier Dwek
olivierdwek.com