Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Vapor Barato: Meter Arkitektur recupera e amplia uso de sauna do século 19 no Norte da Suécia

Projeto encabeçado pelo sueco Bengt Mattias Carlsson atualiza tipologia de sauna secular com inclusão de casa de banho, lavanderia, quartos para hóspedes e área de convívio em meio à natureza bruta

  • 11 outubro 2017
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Rapte-me, camaleoa! Vista panorâmica da Skogssauna, que emprega madeira e aço em sua estrutura e a faz repousar leve sobre o terreno tombado em Tomtebo, na Suécia. O complexo arquitetural é composto pelas construções originais do século 19 agregadas aos anexos criados recentemente pelo escritório Meter Arkitektur

Na Europa da Idade Média, as saunas eram uma verdadeira febre: dadas as baixas temperaturas comuns àquela porção do globo terrestre, sobretudo nos rigorosos invernos, convencionou-se a criação de abrigos aquecidos, nos quais a água era vaporizada por meio de rochas ígneas a fim de melhorar o conforto térmico. Uma sauna bem feita levava, em média, oito horas para atingir a temperatura ideal – e sustentava o microclima tipo tropical por até 12 horas ininterruptas. Ou seja: um buraco quente e cheio de gente. No século 16, com a propagação desenfreada de alguns tipos de doenças causadas, sobretudo, pela falta de assepsia e higiene corporal, a Europa orquestrou, em massa, o fechamento da maior parte de suas saunas.

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Um dos banhos da Skogssauna

Na Finlândia, país geograficamente mais isolado dos seus vizinhos europeus (para se chegar lá de navio ou via terrestre, era preciso cruzar, pelo menos, Alemanha, Dinamarca, Noruega e Suécia), as enfermidades minguaram antes de aportar – coube, portanto, aos finlandeses levar adiante a tradição das saunas (e a não-verdadeira fama de as terem criado). Localizado em Tomtebo, área residencial em Umeå, na Suécia (próxima ao lago de Nydalasjön), o projeto Skogssauna (“sauna da floresta”, em tradução livre) foi criado com a missão de incluir novos programas, além de restaurar o já existente, original do final do século 19. “Quando inserimos edifícios, lidamos com tecnologias modernas para o uso da madeira, ao mesmo tempo em que exploramos técnicas nórdicas ancestrais no manuseio do material”, revela Bengt Mattias Carlsson, arquiteto no comando do escritório Meter Arkitektur, que assina os croquis. Como a sauna original foi construída em uma área de tombamento, Mattias driblou a legislação ao propor um esquema modular para servir de base à filosofia estética e técnica da nova construção. Para tanto, uma nova entrada foi criada na lateral do terreno, com direito à estrada para permitir o acesso aos ambientes, carros, tratores e barcos.

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A construção se apresenta em diversas camadas, essencialmente compostas por caixas de vidros, aço e madeira

O prédio novo, que é o maior de todos, inclui casa de banho, lavanderia, quartos para hóspedes e uma área de convívio – tudo em meio à mata nativa. O complexo se organiza de modo a mirar tanto a floresta quanto o mar, e foi erguido por meio de uma estrutura de madeira maciça que repousa com leveza sobre a paisagem que já foi ocupada, no passado, por um posto militar avançado. Em um primeiro momento, fica difícil entender o tamanho da casa de banho – seu programa vem dividido em unidades menores, como se fossem uma coletânea de cabanas na floresta que seguem em direção à sauna e transbordam para o horizonte a leste. O novo prédio vem revestido por uma caixa estrutural composta por pranchas de glulam (glue laminated lumber – “madeira laminada colada”) com 190 mm de espessura que formam 19 placas dispostas em um módulo de 2,4 metros de extensão ao longo da casa de banho.

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A Skogssauna emoldura a paisagem tal e qual obra de arte por meio de suas estruturas de madeira, dispostas em caixas que criam camadas sob um cubo vítreo mais amplo com múltiplas funcionalidades – abraça o paisagismo em seus reflexos e proporciona isolamento térmico e acústico

Um eixo principal de 60 metros une as construções que levam acabamentos rústicos, com uma camada de alcatrão nas paredes externas e óleo de linhaça revestindo as paredes internas. Pranchas de madeira sólida definem o set para a experiência nos banhos, permitindo com que as pessoas transitem livremente por entre as diferentes propostas de espaços dentro e fora. Como as árvores dos entornos foram mantidas intactas e próximas às construções, a tradição finlandesa de projetar um telhado capaz de coletar as pinhas e galhos foi celebrada. Para tanto, dois tipos de cobertura no estilo pérgola feitas em glulam e com tubos de aço para maior sustentação foram previstas, com inspiração direta nas cabanas nórdicas em madeira, nos porões típicos dos anos 1970, que eram projetados para abrigar salas de jogos e entretenimento (os famosos “rumpus rooms”) e, mais estranhamente, no crematório localizado em Gävle, que foi projetado pelo finlandês funcionalista Erik Bryggman (1891-1955). O resultado? Lindo de viver.

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“Lidamos com tecnologias modernas para o uso da madeira, ao mesmo tempo em que exploramos técnicas nórdicas ancestrais no manuseio do material”, diz a equipe

Meter Arkitektur
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