À francesa

Restaurador da escultura O Pensador, de Rodin, Antoine Amarger mergulha no Monumento do Ipiranga para trazer de volta sua plástica fenomenal

  • Por:Cinthia Rodrigues
  • 25 novembro 2016
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Francês Antoine Amarger assina a repaginação do Monumento do Ipiranga

Acostumado a restaurar obras-primas como O Pensador e Os Burgueses de Calais, de Auguste Rodin (1840-1917), e outras gemas preciosas como os bronzes do Musée Picasso, de Paris, o francês Antoine Amarger nunca imaginou que seria convocado a repaginar o Monumento do Ipiranga, no Brasil. Há dois meses trabalhando sem parar no painel, entre limpeza do metal, reestruturação do relevo no interior do monumento, recomposição dos elementos faltantes e restauração da cor dos bronzes, o profissional celebra a temporada com galhardia.

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Em São Paulo desde setembro, o restaurador Antoine Amarger diz que considera a cidade um lugar muito agradável e cheio de vida

“Ouvi péssimas críticas sobre Son Paulô, que era uma cidade caótica, turbulenta. Não concordo. Aqui é muito agradável, cheio de vida”, diz o profissional, que finalizou a restauração do maior conjunto escultórico em bronze executado no país ainda no início de novembro.

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Além de Antoine Amarger, mais 10 pessoas trabalharam na restauração do Monumento quatro mulheres (uma brasileira, uma argentina, uma tunisiana e uma francesa)

Com esse bom humor adorável, Amarger comanda há dois meses uma equipe internacional de dez pessoas, entre elas quatro mulheres (uma brasileira, uma argentina, uma tunisiana e uma francesa). Idealizado na década de 20 pelos italianos Ettore Ximenes, escultor (1855-1926) e Manfredo Manfredi, arquiteto (1859-1927), o projeto do monumento foi pioneiro ao fundir o metal em território nacional, no Liceu de Artes de Ofícios. Até então, esse trabalho era feito apenas na Europa.

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O projeto do monumento foi pioneiro ao fundir o metal em território nacional, no Liceu de Artes de Ofícios, pois até então, esse trabalho era feito apenas na Europa

Para o desafio, foram “importados” diversos artistas, muitos deles com formação modernista e artesãos fundidores que rapidamente abriram pequenos negócios e passaram a atender uma demanda burguesa por obras sacras e objetos de arte.

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Ao chegar no Brasil em 1887, o escultor Amedeo Zani (1869-1944) criou obras de arte relevantes para São Paulo e Rio

O escultor Amedeo Zani (1869-1944) é um exemplo. Chegando ao Brasil em 1887, esteve ligado à construção do Museu do Ipiranga, ao Liceu de Artes e Ofícios, criou obras de arte relevantes para São Paulo e Rio e fundou a mais influente fundição artística do século XX, sendo responsável pela execução de todas as esculturas monumentais em bronzes da recém-inaugurada Brasília e fundindo para os principais modernistas brasileiros até meados de 1990.

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Antoine Amarger veio ao Brasil a pedido da KSA Fundição Artística, contratada há dois anos pela Secretaria Municipal de Cultura

A vinda de Amarger ao Brasil foi necessária devido à ausência de especialistas por aqui. Quem o trouxe foi a KSA Fundição Artística, contratada há dois anos pela Secretaria Municipal de Cultura, por meio de seu Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), para realizar o projeto. “Essa é uma grande oportunidade para aprendermos a lidar com os monumentos que temos espalhados pela cidade de São Paulo”, diz Israel Kislansky, escultor baiano e sócio da KSA Fundição Artística, apontando para o importante fato de que há transferência de know how durante esse projeto. Depois do restauro entregue, resta apenas torcer para que o Museu Paulista (Museu do Ipiranga), que fica dentro das dependências do parque do Ipiranga, possa ser reaberto antes de 2022, quando se comemora o bicentenário da Independência.