Bienal, para quê Bienal? 32ª edição do evento em SP propõe discussões interessantes

Sob o título Incerteza Viva, 32º edição do evento propõe algumas discussões interessantes – mas também escorrega no tédio

  • Por:J. Wair de Paula
  • 18 outubro 2016
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Sala do camaronês Kal Eyongakpa é marcada pelo apelo fácil que apresenta

 “A Bienal de São Paulo é um encontro entre a arte mais contemporânea possível e o público mais amplo possível.” Frase de Juca Ferreira, sociólogo e Ministro de Estado da Cultura, que consta no material educativo/processos artísticos e pedagógicos da 32ª Bienal de São Paulo, com o título Incerteza Viva. Sob o olhar do curador Jochen Volz (também curador do Museu de Inhotim, em MG, e curador chefe da programação da Serpentine Galleries, em Londres), esta mostra toma emprestado o julgamento do filósofo italiano Franco Berardi, em seu Manifesto Pós-Futurista, que exige que a arte se torne uma força transformadora da vida. Sob a égide da Incerteza (sim, com maiúscula), seriam discutidas questões prementes do mundo atual, aproximando processos e inquietações artísticas de questões como ecologia, inteligência ambiental, sistemas sócio/político/econômicos, e o delicado equilíbrio entre estes.

Em síntese, o conceito desta Bienal se apodera da ideia de uma mudança de era geológica. Segundo geólogos e cientistas, saímos do Holoceno (período iniciado há 12 mil anos) e entramos no Antropoceno – “a Idade do Homem”. Este conceito reflete a interação de nossa própria espécie com o planeta e nos permite considerar as consequências de nossas ações coletivas no contexto do ‘tempo profundo’ da história da Terra. Uma mostra que “enfoca as noções de incerteza, para refletir sobre as condições atuais de nosso planeta …, e as estratégias oferecidas pela arte contemporânea para abrigar ou habitar incertezas” segundo o próprio curador.

A incerteza é o desconhecido. Ponto. Discuti-la exige o perfeito conhecimento e aceitação de seus antagonismos e nuances, a diversidade de forças e de códigos – e a arte seria o elo de ligação que permitiria a troca contínua destes elementos, enxergando na incerteza processos criativos e construtivos. Então, o que se vê nesta Bienal é a discussão materializada em vídeos, instalações e outras plataformas, ainda propondo que esta discussão não se encerre no último dia desta mostra, mas que continue ad infinitum. Porém…

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Pierre Huyghe é dono de interessante vídeo em exposição na sala que requer atenção mais intensa

Vista sob a explicação das plaquinhas informativas de cada obra e sob a ótica de seu projeto, a Bienal é fascinante. Discute, elabora, denuncia, propõe caminhos, lança prerrogativas, seduz. Mas visualmente se mostra pálida, a “estética da gambiarra” não em seu lado criativo, mas seu oposto. E tome vídeo de mata e seus nativos, muita instalação feita de terra, plantas, madeiras, muito papel colado, muito coletivo – a estranheza não como elemento inquietante, mas entediante. A chatice da obra da portuguesa Carla Filipe em seu arremedo de hortinha comunitária, a insolência banal do espanhol Xavier Salaberria que se apropria de uma obra da escultora Liuba Wolf para inserí-la num amontoado de restos, o apelo fácil da sala do camaronês Em´Kal Eyongakpa (onde encontrei um casal se pegando em altíssima voltagem – um dos momentos mais animados deste dia…), a obviedade da montagem da entrada, ao colocarem os totens queimados de Franz Kracjberg ao lado de uma oca de Bené Fonteles, a bobagem do coletivo Opavivará – todos sob o conceito de “ressignificação”. Ressignificação é o novo preto na 32ª Bienal de São Paulo.

Aqui e acolá encontramos um vídeo interessante (como a acachapante obra do francês Pierre Huyghe), uma sala que requer uma atenção mais intensa – como a que abriga a obra do colombiano Carlos Motta em sua instalação Towards a Homoerotic Historiography, uma proposta forte e lírica como a da mexicana Mariana Castillo Deball – cujo trabalho se apropria de um processo arqueológico para executar uma monotipia ancestral, ou a impressionante sala do argentino Victor Grippo e suas “batatas metafísicas”.

Um interessante paradoxo acontece no último andar. Ao expor em três momentos a magnífica obra do pernambucano Gilvan Samico, que soa deslocada tanto física quanto conceitualmente – nada dela remete ao incerto ou à noção de incerteza – fui ler a plaquinha para ver que explicação teria para contextualizá-la neste emaranhado. Nesta, basicamente a história da carreira do artista. Esta obra não precisava ser explicada, sob o olhar de quem montou a Bienal.

Num plano mais amplo, esta edição da Bienal demonstra a própria incerteza do futuro da veneranda instituição, prejudicada por curadorias equivocadas no passado recente, e por fragilidades financeiras no presente e talvez no futuro. E respondendo à minha própria pergunta no título desta – a Bienal, hoje, serve para discutir. Em alguns momentos, consegue. Mas, se ao analisarmos o que foi montado nos espaços da generosa arquitetura de Niemeyer nos apropriarmos do conceito de meio como mensagem de Marshal McLuhan – e que os meios de comunicação são extensões do homem, esta Bienal mostra um homem que é pura incerteza.

32ª Bienal de São Paulo – Incerteza viva
Das 09h às 19h, até 11 de dezembro de 2016
Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, Portão 3