Com tintas e barro, Anália Moraes imprime o feminino na arte independente

No estúdio Casa Dobra, Anália Moraes se expande, deixando a marca de traços femininos em várias plataformas

  • Texto:Odhara Caroline
  • 19 dezembro 2016

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Não há muros na vida de Anália Moraes: a sua arte invade todos os cômodos. A artista plástica mora na Casa Dobra, estúdio em que é sócia do namorado, Daniel Wood, estuda a disciplina na faculdade, trabalha com isso desde os 17 anos. Anália desdobra os seus dons em diferentes plataformas. Suas ilustrações, que estão no livro Mas Você Vai Sozinha?, de Gaia Passarelli, também ocupam telas, ela faz o design de pinz metálicos, trabalhou com cerâmica fria e agora experimenta com cerâmica de alta temperatura. “Nela, você aprende a lidar com frustração e o resultado final sempre fica um pouco diferente. A cerâmica é muito intrínseca ao ser humano. É diferente da tinta; é terra, é barro. É visceral. Acho um processo muito bonito”, ela opinia em entrevista a GIZ. “Todos os suportes são muito interessantes — e essa mudança também é, tanto para apresentar ao cliente quanto para nós, como artistas. É uma forma de estarmos sempre nos movimentando, aprendendo um processo novo”, ela reflete.

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Foto: Naira Mattia

A questão do ser mulher permeia todo o trabalho de Anália. “Eu sou mulher. O que eu faço hoje, não importa plataforma, cliente, produto, tudo vai ter um viés feminista, que é o jeito que eu me expresso e me coloco na sociedade”, ela defende. Ressaltando a importância de um artista levantar uma bandeira, Anália sublinha o machismo do mundo artístico e propaga a sororidade. “Não é só um discurso; eu preciso desenhar mulheres e falar sobre esse assunto. Principalmente no mundo da arte, precisamos criar uma rede de apoio, uma comunidade para compartilhar experiências e técnicas. É assim que nós vamos nos fortalecendo e nos impondo como mulheres no mercado de trabalho.”

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O nome do estúdio que Anália e Daniel dividem vem de uma sigla — a Casa Dobra, na verdade, seria a Casa do Brasil. Anália e Daniel tinham esse nome no bolso há anos. A ideia original é que ele batizasse um projeto em que o trabalho de artistas brasileiros fosse levado para fora do país. “Antes, quando íamos a feirinhas, usávamos nossos nomes”, explica Anália. “Mas começamos a crescer e criar coisas diferentes. Como passamos a trabalhar com colaboradores e se criou uma comunidade que nos dá suporte, resolvemos começar a usar o nome ‘Casa Dobra’, porque hoje nosso trabalho engloba mais do que apenas nós dois — temos desde as lojas parceiras até colaboradores”. A abertura oficial do estúdio foi em setembro de 2015.

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Na Casa Dobra, enquanto Anália trabalha com o lado plástico, o namorado Daniel cuida da produção audiovisual. O casal está junto há três anos e meio e compartilha todos os aspectos da vida. “É bem complexo”, admite Anália. “Mas eu não conseguiria me imaginar fazendo o que faço hoje sem estar junto com ele”. Ele é publicitário de formação e o responsável por equilibrar o lado artístico de Anália, segundo ela. “É mais tranquilo e confortável entrar em confronto consigo mesma enquanto artista quando você tem alguém para te apoiar. Essa é a beleza da nossa parceria — o lado profissional e o pessoal se alimentam reciprocamente e a possibilidade de coisas que podemos explorar aumenta”, ela teoriza.

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Anália entrou em contato com a arte dentro de casa, desde a infância. A madrinha dela é artista plástica e design de anteriores. Enquanto a menina passava férias em sua casa, ela ensinava técnicas e sempre colocava a afilhada para fazer alguma coisa em seu ateliê. A mãe de Anália também incentivou a artista: “Sempre tinha tinta e papel em casa”, conta. No Ensino Médio, ela já ilustrava e desenhava, e no curso técnico de comunicação visual, durante as aulas de história da arte e de desenho, a paixão foi sedimentada. Em 2013, ela passou quatro meses trabalhando com o artista plástico Stephan Doitschinoff, na Chapada da Diamantina, e desenvolvendo trabalhos autorais.

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Ao voltar para São Paulo, começou a frequentar feirinhas independentes com Daniel. Anália define que são essas feirinhas que alimentam os trabalhos institucionais, com o feedback imediato recebido nelas e as conexões criadas com o público. “Você pode olhar no rostinho de quem gosta do que você faz, é muito gratificante. Na economia criativa, esse contato é importante — em algumas feiras, eles não deixam nem que você coloque algum vendedor. Eles querem que o cliente possa conversar com quem faz o processo. Isso desmitifica o trabalho do artista. É sobre o processo e a troca: porque a pessoa se vê em um lugar que ela talvez também possa produzir, a arte fica mais acessível e se quebra a barreira entre o produtor e o público. Isso tudo é um estímulo”, ela diz.

 

Casa Dobra
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