Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

ArteDesign

Do Planeta Fome até o fim do mundo: sob direção de Allex Colontonio, a diva Elza Soares posa para capa + recheio da GIZ #4

Longe de pendurar o microfone, Elza Soares, entidade cultural e patrimônio universal, dona de uma história que todo mundo já contou e que ninguém cansa de ouvir de novo, insere o capítulo que faltava em sua bio: o reconhecimento internacional como uma das maiores cantoras de todos os tempos. Tal e qual fez Maria Bethânia dia desses ao encontrá-la no aeroporto, GIZ se curva diante da rainha e arma um ensaio do tamanho da sua envergadura, com direito a turbante que quase alcança o céu e trono de ouro para chamar de seu

  • 26 setembro 2017
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Elza Soares com seu “trono” dourado, peça desenhada por Allex Colontonio sob medida para esse registro. Foto: Salvador Cordaro

Fazer a capa com essa mulher forte, extravagante e colorida que eu enxergo quase como uma heroína da DC Comics era questão de honra. Cresci ouvindo minha mãe falar mal da Elza Soares (e olha que ela não tem o hábito de abrir a boca para dizer um “A” sobre quem quer que seja). E foi exatamente a revolta adolescente, que faz a gente contrariar todos os ditames familiares, que despertaria minha curiosidade – e adoração – pela diva que os melhores músicos consideram tão grande quanto Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sarah Vaughan, Bessie Smith ou qualquer outro afluente do grande e diversificado rio das vocalistas do jazz norte-americano. 

Mais tarde, entenderia que a bronca da Dona Nely era um impulso quase mecânico, equivocadamente solidário à opinião pública que julgou, condenou e sambou na cara de uma de nossas artistas mais notáveis por conta de seu polêmico romance com o ídolo do futebol Mané Garrincha (1933-1983). Mommy, abandonada pelo marido, com três filhos pequenos – entre quatro e dez anos (eu, o do meio, contava 6 em 1984, quando meu pai saiu para comprar cigarros e resolveu trocar de família no meio do caminho), – como a maioria das mulheres de sua geração, via pairar sobre a Elza a película turva que o Brasil moralista daqueles anos 1960/70/80 sobrepôs à figura de uma das cantoras mais legendárias de todos os tempos. Hipócrita e machista, era muito mais fácil para a turba furiosa jogar a fama na fatura da bem torneada Madrinha da Seleção, com invejáveis cinturinha de pilão e bundão de passista, do que no craque alcoólatra (e violento) que deixara a prole pra trás. Que bom que a minha mãe, hoje em dia mais solidária a mim do que aos reaças puritanos, tenha finalmente se tornado fã de carteirinha da Elza.

Mulher de aço que é, a carioca que desceu o morro aos treze anos para ser ridicularizada em rede nacional antes de fazer a elite se curvar ao seu canto, driblou o bullying em uma das reviravoltas mais apoteóticas da antologia dos shows de calouros, seis décadas antes de Susan Boyle, patinho-feio do interior da Inglaterra convertida em fenômeno de views na gênese do YouTube, subir ao palco do Britain’s Got Talent sob uma tempestade de comentários jocosos.

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Elza Soares sob direção de Allex Colontonio para GIZ: acessórios e roupas criadas sob medida por Bruno Oliveira. Foto: Salvador Cordaro

Era o começo da segunda metade do século passado quando, ao dar de cara com a menina negra, pobre e varapau trajando um vestido de chita da mãe, três manequins acima do seu, ouviu de Ary Barroso (1903-1964), gênio musical sarcástico e apresentador na finada Rádio Tupi: “Minha filha, de que planeta você veio?”. Entubando as gargalhadas das macacas de auditório, retrucou: “do Planeta Fome”, antes de arrebatar geral com seu vozeirão sísmico. Uma vida que renderia um bom roteiro em Hollywood – e que já virou documentário pelas mãos da cineasta Elizabete Martins Campos (My name is now, Brasil, 2005).

Como reza a biografia trágica de quase toda grande cantora negra de que se tem notícia, da mãe do gospel, Mahalia Jackson (1911-1972), à musa mais premiada do pop, Whitney Houston (1963-2012), Elza, que pegou a manha dos scats onomatopeicos característicos de suas improvisações jazzísticas com o esforço descomunal que fazia ao levantar latas d’água na cabeça gemendo “brrrrzzzzz”, “grwnssssss” e “wrssssss” na infância miserável na favela Moça Bonita, em Padre Miguel, aguentaria esse e muitos outros trancos ainda mais pesados – incluindo a perda de nada menos do que cinco dos oito filhos que teve, sendo o primeiro aos 12 anos (um deles, o Garrinchinha, num acidente de carro que a fez pensar em suicídio). Sobrevivente, ela está mais para o samba, para o rock, para o pop e para as novas experimentações do que para os downs do Blues. Até o fechamento desta edição, sua nova música Na Pele, dueto com a rockstar Pitty, liderava a lista do Spotify – a musicoteca digital mais bombada da vez, que, de quebra, desponta como termômetro de audiência mais tangível do que a parada da Billboard.

“Venho lidando com essa projeção internacional na maior humildade possível, porque do mesmo jeito que você está no topo, pode levar um tombo. Essa vida é uma montanha-russa, um vai e vem danado. Não fico iludida, não. Da fama para a fome, só mudam duas vogais”

Como já virou tradição, nosso ensaio de capa desencadeou outra epopeia insana – primeiro porque a agenda de Miss Soares, graças a Jeová, anda apinhada de shows pela europa e EUA e conseguir um encaixe nela seria praticamente impossível; depois, ela merecia uma catarse visual daquelas de abrir o Mar Vermelho.  Sabíamos ser imprescindível construir uma imagem com a reverência que todos nós devemos à fênix por tudo aquilo que acrescentou culturalmente ao eternizar alguns do versos mais fundamentais da MPB – imagine que até a i-n-t-o-c-á-v-e-l Maria Bethânia, que trombou com Elza esses dias no aeroporto, teria se ajoelhado diante dela só para dizer: “Obrigada por tudo o que faz pelo Brasil. Seu último disco é a coisa mais moderna que eu já ouvi”.

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O turbante com mais de 1 metro que Allex vislumbrou para Elza Soares. Beleza: Wesley Pachu. Agradecimentos: Pedro Loureiro. Foto: Salvador Cordaro

E foi essa intérprete à frente de seu tempo, quase mítica da derme de ébano à cabeleira revolta tingida ora de púrpura, ora de vermelho, ora de laranja – “se tiver medo de mudar e ficar presa a um cabelo só, você também vai ter medo de olhar pra frente. Eu não tenho. Vai ter negro loiro, sim!”–, que determinou a diáspora cromática que amarra a narrativa estética e filosófica da edição que você tem em mãos. Elza é a dona de uma história que todo mundo conhece – mas não se cansa de ouvir de novo. “Venho lidando com essa projeção internacional na maior humildade possível, porque do mesmo jeito que você está no topo, pode levar um tombo. Essa vida é uma montanha-russa, um vai e vem danado. Não fico iludida, não. Da fama para a fome, só mudam duas vogais”, diz com o conhecimento de causa de quem se refez do prólogo ao epílogo. A divindade, a guerreira, a heroína da Marvel e da DC parida por uma lavadeira numa comunidade humilde, preferiu cantar do que enlouquecer.

O grande círculo místico
“O poder do negro taí. Sempre esteve. Agora o negro se posiciona e pronto. Lá fora ele não abaixa a cabeça pra ninguém e aqui no Brasil também está começando a fazer isso. A carne negra não é nem a mais barata e nem a mais cara. Ela é negra e pronto. Não tem ninguém melhor do que ninguém para ter que comparar”, responde Elza quando pergunto sobre a reverberação do hit que virou hino entre os grupos recentes de luta pelas questões raciais. A Carne foi o carro-chefe de seu álbum Do Coccix Até o Pescoço, composto por Seu Jorge e Marcelo Yuka, lançado em 2002 e também indicado ao Grammy, que pontuaria sua primeira reviravolta avant-garde na cena musical do País, há 15 anos (outro marco modernista na MPB). 

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Foto: Rui Mendes

No presente perfeito, o primeiro mandamento da GIZ é não deixar os neurônios sossegarem em busca da foto perfeita e da mensagem que queremos passar por meio dela. Logo, não dava para fugir de algumas obviedades: a imagem de rainha que planejamos passaria, invariavelmente, por sua militância política (e pela nossa também). Estilizamos uma espécie de deusa Nagô explorando um look surreal executado pelo talentoso estilista Bruno Oliveira. A túnica com manto de seda de mais de 40 metros de comprimento, que se esparramaria pelo set tal e qual uma tinta derramada, além de um torso alto de mais de um metro em sua cabeça, braceletes e colares de divindades africanas foram costurados e forjados em cinco dias. Achamos pouco. Elza, inseparável de sua cadeira de rodas por conta do achatamento de coluna decorrente de um acidente no palco, anos atrás, que inspirou Chico Buarque a compor Dura na Queda, era merecedora de um trono de ouro. Como não encontramos nada à altura, resolvemos projetar um a partir das simbologias de algumas tribos que se apropriam principalmente das bolas como status de poder. As referências vieram desde as cestarias ancestrais ao sagrado Opon-ifã, tábua rotunda talhada na madeira por alguns povos da África Ocidental, sobretudo na região da Nigéria. Mas a epifania se deu mesmo com o relato que ouvi sobre uma tribo subsaariana extinta que cultuava a roda de maneira peculiar. Reza a lenda que, ao invés de punir, quando alguém da aldeia fazia algo errado, os indivíduos davam as mãos em ciranda ao seu redor e cada um dizia algo bom sobre aquela pessoa, numa espécie de resgate das suas melhores intenções. E lá fomos nós, com amor e compasso, rabiscar as bolinhas na órbita da Elza – que, embora não tenha feito nada de errado, é digna de ouvir novamente todas as coisas boas que já fez na vida.

Um dia na casa da Elza, outros tantos fora da casinha…
A rota geométrica e geográfica da nossa pauta correu bons quilômetros e mobilizou uma roda de samba azeitada. O desafio de colocar o trono “de ouro” em pé foi materializado pela Infinita, em Santa Catarina. Os discos de latão saíram de São Paulo, dos tornos da Saint James Prataria. E o retrato foi feito no Rio, um dia antes de Elza embarcar para Nova York para seu elogiadíssimo concerto no Central Park (diga-se de passagem, no voo AA974 da American Airlines que precisou arremeter em pouso de emergência no Aeroporto Internacional Tom Jobim, de onde havia partido horas antes, por conta de uma pane na turbina).

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Foto: Vania Toledo

A sessão de fotos foi bookada na sua casa, à beira-mar mais cantada do universo. Salvador Cordaro, André Rodrigues e eu pegamos a ponte-aérea naquela manhã ensolarada de quarta-feira. Anderson Farinelli, nosso “gizer” in Rio, estava à espreita com o circo semi-armado. Encontrar nossa homenageada no conforto de seu imenso apartamento, que descortina em bons metros quadrados um dos trechos mais nobres de Copacabana, me encheu de orgulho tanto quanto ver de perto, na estante da sala ou sobre várias mesas e aparadores, um número sem fim de troféus que começam com estatuetas do nosso Prêmio da Música Brasileira e terminam com nada menos que um Grammy, a condecoração máxima da música mundial. Elza, a mulher que Louis Armstrong (1901-1971) dizia ter uma corda vocal a mais e de quem até Amy Winehouse (1983-2011) se afirmava fã, está em sua melhor fase artística. Aos 80 anos declarados – os biógrafos dizem ser 87, considerando o registro tardio no cartório – continua vociferando sua arte com energia impressionante. Foi eleita cantora do Milênio pela BBC de Londres anos atrás e seu álbum A Mulher do Fim do Mundo (aquele que não sai da playlist da Bethânia) consta na lista do The New York Times como um dos melhores do ano, entre dezenas de outras comendas.

“Ando cansada, viu cara. Muita correria. Agora tô em Nova York, fiz um show fantástico no Central Park depois daquele susto no avião e tô aqui respondendo às perguntas do Allex entre o intervalo de uma entrevista para o Globo News e de uma outra para um americano que… ah, nem lembro o nome dele (risos).”

Panorama bastante diferente do que encontrei quase 20 anos atrás, pouco antes de me formar em jornalismo, quando a entrevistei pela primeira vez para o meu TCC, livro reportagem sobre cantoras negras brasileiras (sim: Elza também está na gênese da minha carreira). À época, ainda que respeitada como a lenda que é, amargava um período de poucos espetáculos e nenhuma gravação. Página virada.

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Foto: Bob Wolfenson

A diva fazia fisioterapia no quarto enquanto tomávamos o seu living de assalto –  Salvador, em atitude exatamente contrária ao que seu nome sugere, deixou cair (e estraçalhar) uma estátua africana da coleção da dona da casa – devidamente restaurada por nós mas, ainda assim, quase o empurrei sacada abaixo.

Arrasta móvel daqui, arrasta móvel dali:  saem sofás e poltronas, entram luzes, fresneis, refletores, fundo infinito branco, fundo infinito vermelho, rebatedores dourados, o simulacro do trono. E fez-se o estúdio-improvisado. Conosco estavam o produtor Pedro Loureiro e o make up artist Wesley Pachu, dois dos três anjos da guarda que, junto com Juliano Holanda, estão entre os responsáveis por sua guinada recente. “Conheci a Elza em 2012, quando era um dos donos do Alfândega, bar de música em Belo Horizonte onde se apresentavam grandes estrelas da MPB. Ficamos muito amigos e, pouco mais tarde, começamos a trabalhar juntos na criação do projeto da exposição sobre sua trajetória e no show A Mulher do Fim do Mundo, até evoluir para a gestão da sua carreira e desenho de sua estratégia para os anos seguintes”, conta Loureiro, 37 anos, que largou a carreira de cantor e músico após vencer reality shows e se formar em Ciências Contábeis e Gestão de Negócios. “Tenho os pés na contabilidade e a cabeça na música. Elza está na vanguarda e quem está perto dela também precisa estar. Ela já tinha um disco incrível que, ao mesmo tempo em que explodiria por sua genialidade, também corria o risco de não se tornar tudo aquilo que poderia ser por conta da administração frágil dos antigos gestores e de um movimento de mídia contestável para os objetivos da artista. Decidimos seguir observando as boas ideias dela, de cada um da equipe, as sugestões dos fãs, as demandas da imprensa e juntei tudo isso às minhas ideias. Elza é um fenômeno, estava tudo ali. Sua arte é genuína e nunca ninguém precisou tocar”, conta. Pedro e sua turma aproximaram Elza de um público jovem, refizeram seus passos na mídia, criaram novas parcerias, bombaram sua agenda de shows para além das fronteiras e agora preparam um livro (escrito por Zeca Camargo), um filme e um musical, além do próximo álbum. “O Juliano é um grande parceiro de trabalho. Compra todas as minhas loucuras e as loucuras da Elza. Apareceu na vida dela há muitos anos e foi precursor em sua valorização artística. Não fiz nada sozinho, mas com ajuda dele, do  Pachu, do Wes Mesquita, do Léo Belicha, do Isaac Silva, do Kastrup. Sou apenas um operário dessa construção”, democratiza. A rasgação de seda é recíproca e começa lá no topo da pirâmide: “Somos uma família. O Pedro, o Ju e o Pachu. Cada um cuida de uma coisa. Estou em ótimas mãos, cara. Uma meninada tão trabalhadora, tão aplicada, tão gentil… Agora mesmo fiquei sabendo que a minha música com a Pitty está em primeiro no Spotify… nem sei direito o tamanho disso, mas sei que é bom”, ri Elza.

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Foto: Daryan Dornelles

Sem deixar ninguém esperando um minuto sequer, ela entrou na sala tão logo avisamos estar prontos para o shooting. Lindona, bem-humorada, solícita com todo mundo e sem reclamar da quiçaça que armamos no seu living, trajava a túnica que levamos de Sampa enquanto ajudamos a vestir a capa “mar vermelho”. Ela acha graça no tamanho do pano e se diverte com a brincadeira. Seguro suas mãos enquanto Anderson e Pachu arrumam as joias e ajustam o turbante alto (uma obra de arte com mais de cinco metros de shantung de seda embolados por ele que, acostumado a produzí-la diariamente, tirou de letra). Ela faz chiste comigo sobre os braceletes: “Prenderam os grilhões novamente”. Mil flashes. Paciência de Jó: “No meu tempo livre faço fotos e dou entrevista para a GIZ. Mas gosto mesmo é de comer (ri alto). Tô numa dieta feia, cara. Segurando a boca pra afinar a cintura.” Um profissionalismo difícil de encontrar em boa parte das estrelas com quem já trabalhei – com menos de metade da metade da idade dela. Elza, definitivamente, não pertence a este lugar.

Do Mar Vermelho ao outro lado do oceano
Para otimizar o tempo de todo mundo, parte da entrevista foi realizada via WhatsApp, durante sua viagem mais comentada – por conta do incidente no voo, Elza foi parar em todos os sites e jornais. A primeira pergunta: você está cansada? “Muito (risos). Ando cansada, viu, cara. Muita correria. Agora tô em Nova York, fiz um show fantástico no Central Park depois daquele susto no avião e tô aqui respondendo às perguntas do Allex entre o intervalo de uma entrevista para o Globo News e de uma outra para um americano que… ah, nem lembro o nome dele (risos)”. Pedro também responde via app: “Viajar com a Elza é uma farra sadia, sem bebidas, sem drogas, sem excessos. Temos todos mais ou menos o mesmo estilo de vida: água, alimentação saudável, um gosto pelo sono reconstrutor. Somos viciados em trabalho, apenas”.

Foi a terceira temporada de shows de Elza na Big Apple só este ano, após um hiato de duas décadas sem se apresentar na América. A multidão veio abaixo, confirmando outra crítica favorável do The New York Times. “Tradução nenhuma é necessária para reconhecer a ira e a coragem de A Mulher do Fim do Mundo, que trouxe seu trono mais uma vez para a cidade.”

“Se tiver medo de mudar e ficar presa a um cabelo só, você também vai ter medo de olhar pra frente. Eu não tenho. Vai ter negro loiro, sim!”

Pedro explica que sempre se impressiona com a comoção que ela causa no público gringo. “Fora do Brasil rola uma verdadeira histeria nos fãs, que querem agarrá-la, pedem autógrafo, cercam o carro. O fã brasileiro é mais contido, talvez se sinta parte da família de Elza. Aqui fora é algo mais distante, intocável.” Se você fizer uma busca na internet por essas apresentações em terras estrangeiras, vai se surpreender com os registros de uma artista vigorosa e que continua inabalável em seu canto de trovão, hipnotizando plateias que não entendem o nosso idioma, mas falam a língua da Elza. “Me alimento da energia dos fãs. Não tem segredo, não. Olho para cima, converso com Deus e vou de mãos dadas com esses verdadeiros anjos que estão do meu lado. A fisioterapia ajuda o corpo, enquanto o amor firma a alma.” A rotina puxadíssima arde ainda mais quando as distâncias aumentam. “Pachu e Juliano cuidam dela com carinho de filhos, inclusive nos tratos especiais por conta de sua locomoção reduzida. Todos se ajudam e fica tudo bem”, continua Pedro, que diz ter testemunhado artistas de todas as castas se renderem a ela pelas cruzadas da vida, de Chico Buarque e Caetano Veloso, a Pitty e Simoninha. “Um respeito comovente.”

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Pintura: Antonio Ferreira Jr. sob encomenda para GIZ

Tanto nas entrevistas quanto nas poesias que toma como suas em proclamações harmônicas guturais, Elza fala abertamente sobre tudo, essencialmente das minorias, mas caiu nas graças mesmo das feministas. “Esse assunto é seríssimo. Falta muita coisa ainda. Melhorar, até que melhorou, mas falta muito pra ficar bom. Se a mulher se unisse mais e competisse menos, aí o coro engrossava. Isso não existia antes. Agora tem Elza pra tudo quanto é lado.”

A exemplo do que aconteceu em seu último e moderníssimo álbum, produzido pela vanguarda paulista capitaneada por Guilherme Kastrup e que mistura gêneros musicais como o samba, o rock, o rap e a eletrônica embalando temáticas-vespeiras como violência doméstica, sofrimento urbano, transexualidade e negritude, a voz rouca, lírica e sincopada que fez Louis Armstrong achar que ela tinha uma corda a mais, está pronta para novos – e ousados – trinados. “Adoro desafios. Para o próximo trabalho quero mais guitarra, algo bem mais maluco. Falo sempre para os meninos que precisamos pirar, desconstruir para construir. Fiz isso a vida inteira”, sentencia a mulher que não quer ver o mundo acabar tão cedo.

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Conceito, direção, textos e entrevista: Allex Colontonio. Foto: Salvador Cordaro. Produção SP: André Rodrigues. Produção RJ: Anderson Farinelli. Styling: Bruno Oliveira. Beleza: Wesley Pachu. Equipe Elza Soares: Pedro Loureiro. Layout: Anderson Miguel. Arte final: Marcelo Calenda. Móvel: poltrona multifuncional-híbrida assinada por Allex Colontonio, com execução Infinita Surfaces + St. James

Instagram:
@elzasoaresoficial

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