Revista Giz

03 Mai 2017 - Jul 2017

Água Viva

O filho de Xangô: fragmentos desbravadores da arte e das andanças de Pierre Verger pelo mundo

A bordo de sua incansável Rolleiflex, o legendário fotógrafo francês capturou um Brasil que não estava no mapa – e se rendeu aos tambores do Candomblé e ao toque do Afoxé

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Registro de Monte Serrat, Salvador, Brasil (Anos 50)

Com poesia rara no olhar, o fotógrafo e antropólogo francês Pierre Verger (1902-1996) fincou raízes no Brasil e se encantou por São Salvador. A capital baiana serviu de porto seguro para o mestre se dedicar aos estudos sobre candomblé e registrar, com pegada antropológica, a cultura afrobrasileira. Após a morte da mãe, o parisiense de família abastada, aos 32 anos, de posse de sua câmera Rolleiflex, resolveu desbravar novos horizontes, continentes e países. Perambulou pelo Taiti e Polinésia, Estados Unidos, Japão, China, Índia, Argentina, Cuba, Haiti, Peru, entre outros destinos que pareciam ainda mais longínquos naquela ocasião. “A sensação de que existia um vasto mundo não me saía da cabeça e o desejo de ir vê-lo me levava em direção a outros horizontes”, dizia. Com zero apreço pelo estilo de vida da burguesia francesa, encontrou na fotografia uma maneira de se relacionar, fazer estudos e, principalmente, se conectar às outras culturas e civilizações com realidades sociais distintas. No período que compreende dezembro de 1932 até agosto de 1946, foram 14 anos de viagens e cliques ao redor do globo, segundo a Fundação Pierre Verger – que zela pelo precioso acervo do etnógrafo.

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Mercado Água de Meninos, Salvador, Brasil (1946-1948)

“A instituição homônima criada em 1988 pelo próprio Verger iniciou suas atividades com o intuito de organização do acesso à sua obra. Composto por 62 mil negativos, o acervo que retrata essas trips foi subdividido em três fases: de 1932, quando se iniciam os registros fotográficos, até sua chegada ao Brasil, em 1946; entre 1946 e o final da década de 1950, quando ainda atuava na revista O Cruzeiro; e a última etapa, que abarca os anos 1960 até o início dos 1980, quando sua produção fotográfica foi diminuindo e, aos poucos, ele fez a transição da carreira para pesquisador e escritor”, explica Ângela Elisabeth Lühning, professora da UFBA e diretora da Fundação Pierre Verger. O espaço opera na casa original onde ele se fixou desde a sua chegada à Bahia, no bairro popular Engenho de Brotas. A escolha do endereço tem muito a ver com seu estilo de vida mais voltado à simplicidade que marcou sua trajetória. “A Bahia é um dos poucos lugares do mundo onde há a possibilidade de se viver sobre o mesmo plano amistoso, com pessoas de origem étnica diferente”, declarou. Verger se integrou totalmente aos hábitos soteropolitanos, chegou até a ser consagrado como filho de Xangô pelas mãos de Mãe Senhora em um dos terreiros mais tradicionais da terra de Jorge Amado e Dorival Caymmi, o Ilê Axé Opó Afonjá. A iniciação nos rituais de matriz africana o fez partir para Benim, na África Ocidental, onde alcançou o título de Fatumbi – nascido de novo graças ao ifá – e como babalaô ganhou passe livre às tradições orais em ioruba, uma grande reponsabilidade dentro da religião. GIZ lhe convida a flanar pela consistente produção de Verger em ensaio que aborda a natureza em todas as nuances numa época que não havia televisão e muito menos redes sociais para difundir tais interpretações visuais. Bon voyage!

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Paisagem, Rio de Janeiro, Brasil (1940-1941)

Fundação Pierre Verger
R. Vila América, 18, Engenho Velho de Brotas, Salvador/BA. T (71) 3203 8400. pierreverger.org