Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Giramundo: em “Black Ladies”, Uwe Ommer desnuda a beleza hiper-realista de corpos femininos em harmonia com a explosão cromática africana

Registro poético do empoderamento de gente comum do Togo, da Costa do Marfim e do Senegal, o projeto, que já se materializou em livros editados pela Taschen e pela Rizolli, traduz a adoração do fotógrafo alemão: “O corpo da mulher africana representa a epítome da beleza”

  • 1 novembro 2017

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Nascido em 1943, o alemão Uwe Ommer desde muito cedo manifestou seu interesse por fotografias tipo a-b-s-u-r-d-a-s que parecem janelas vivas, tamanha a precisão/resolução da imagem. “O mundo é colorido. Eu gosto que seja assim”, explica sobre o hiper-realismo de sua obra, em entrevista à GIZ. Começou clicando pássaros, mas logo virou a casaca e trocou sua porção “Nat Geo” para registrar as avis raras do cotidiano humano. E, como diz aquela canção, você não sabe o quanto ele caminhou pra chegar até aqui.

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Aos 20 anos, Ommer largou tudo e foi para Paris estudar francês, onde conheceu o fotógrafo de publicidade Jean Pierre Ronzel. Aos 23, abriu seu próprio estúdio especializado em moda e, em 1984, clicou o famoso calendário Pirelli – publicação bancada pela supermarca italiana de pneus que anualmente traz o olhar de uma legenda dos cliques sobre as celebs mais sensuais do planeta. Um ano antes, fotografara a capa do álbum da über-master-blaster diva Diana Ross e os registros de seu concerto mais memorável, no Central Park – até hoje, recorde de público: cerca de 800 mil pessoas assistiram à musa definitiva da Motown debaixo de uma tempestade torrencial.

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Em 1995, após passar o réveillon em um restaurante e observar duas famílias distintas, porém semelhantes, teve o insight: rodar 130 países para documentar as mais variadas composições familiares (mil no total). “A essência da minha fotografia está exatamente na ampla variedade de projetos que faço e no fato de poder criar séries a partir disso.”
Com tantas narrativas antagônicas em sua obra, uma se destaca com tanto bold que ganhou dois volumes de livros lançados por duas das editoras mais prestigiadas do planeta, a Rizzoli e a Taschen, que aterrissaram nas livrarias sob a alcunha “Black Ladies”.

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“Comecei a explorar ainda mais as cores quando descobri uma Kodachrome 25 – e as mulheres negras”, conta. E foi a fundo na questão ao defender que “o corpo da mulher africana representa a epítome da beleza”. Dá para notar a paixão do artista observando as imagens a seguir, uma explosão cromática que não poderia ficar de fora desta edição artsy que assume a diáspora das cores como um discurso estético, étnico, arquitetônico e de empoderamento que tem tudo a ver com nossos dias.

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“Tive a ideia durante um ensaio fotográfico na praia. Vi três mulheres surfando”, conta sobre a imersão que fez em países africanos como Senegal, Costa do Marfim e Togo capturando takes de estudantes, dançarinas, secretárias, artistas. “A nudez, especialmente o topless, é prática comum no Oeste africano. Você acha que elas estariam mais bonitas cobertas por vestidos?”, provoca.

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“As imagens são uma mensagem de empoderamento a todas as mulheres do mundo. Black Ladies foi o primeiro livro a revelar a beleza de pessoas comuns que vivem pela África.” Quando pergunto a Ommer a respeito da reação das mulheres ao verem o resultado final, a resposta chega na lata: “Geralmente, elas me apresentam às suas irmãs, amigas, primas, colegas, conhecidas…”