Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Miro: a trajetória que transportou um dos grandes nomes da fotografia brasileira de Bebedouro, no interior de São Paulo, até as paredes do Museu do Louvre

A convite de GIZ, o decorador Ari Lyra (amigo de longa data do fotógrafo) faz um bate-papo com o fotógrafo e resgata, do baú do mestre, algumas das joias mais valiosas da série Pérolas Negras que, além de ocupar museus brasileiros, ganhou exposição em Paris, onde foi premiada

  • Por:Ari Lyra
  • Fotos:Miro
  • 17 outubro 2017
giz-Novo-Projeto-Miro-1

Anônimo, série Pérolas Negras (2013)

“A fotografia é a razão pela qual acordo todos os dias.” É assim que um dos maiores do ramo no Brasil, Miro (aka Azemiro de Souza), sintetiza sua avassaladora paixão pelo ofício. Até os 21 anos (1970), morou em Bebedouro, interior de São Paulo – mas, quando sentiu a vocação pulsar forte, arrumou as malas e se mandou para a capital, onde virou assistente de Mario Daloia. Depois de uma temporada em Paris, voltou e foi escalado para inúmeras peças publicitárias vultosas, caso do primeiro anúncio veiculado pela gigante Lycra. Os famosos e ilustres também não o escaparam: de Raul Cortez a Marília Pêra e Gisele Bündchen, passando por Juscelino Kubitschek.

giz-Novo-Projeto-Miro-4

Anônimo, série Pérolas Negras (2013)

“A essência da fotografia, na era digital, virou um business. É um absurdo! A fotografia é o negativo. Fotografia é emoção contida em acetato.” Ao que segue: “Quando comecei, você fazia um registro preto e branco, ele ia para o laboratório e você saia de lá impregnado com o cheiro daquela fotografia. Hoje, você clica com o seu celular, envia na hora pra alguém lá em Tóquio e tudo normal”, compara. “Trabalhei muito com a câmera 4×5, em que eu colocava o pano preto na cabeça e ninguém via o que eu estava fazendo. Hoje, com a digital, quando faço o primeiro clique a foto já não é mais minha – é de quem está ao lado do computador. Seja a diretora da revista, a equipe de edição ou direção de arte. A partir dali, cada um começa a pedir uma coisa. Já foi mais penoso para mim ter que lidar com tudo isso”, desabafa, justificando o saudosismo: “A gente tinha um foco. O que saía na hora era o que ia ser usado. Hoje, tudo é feito muito rapidamente e quem finaliza é o computador – ‘depois a gente arruma’. Ganha-se um tempo na hora de fotografar, mas perde-se depois, na pós-produção. Inverteu. Antes, havia muito mais cuidado na hora da foto porque não tinha jeito, era tudo ou nada. Isso vai voltar. Se Deus quiser, volta!”.

giz-Novo-Projeto-Miro-7

Luiz Melodia, série Pérolas Negras (2013)

Com o digital devidamente digerido, Miro reajustou seu foco e virou referência também no admirável mundo novo. Evidência concreta é a série Pérolas Negras, que, além de ocupar museus brasileiros, ganhou exposição no Louvre, em Paris – onde foi premiada. A ideia original surgiu de Emanoel Araujo, em 2013, fundador e curador do Museu Afro Brasil, para celebrar os oito anos da instituição que fica dentro do Parque do Ibirapuera. “Usei bijuterias inspiradas em algumas tribos africanas, como pérolas negras, pedras pretas e alguma coisa de brilho. O foco foi todo no preto, onde uma luz bem frontal teria um realce só sobre o que é principal: o brilho do rosto de cada personagem”, revela. Entre os anônimos, somente um participante é modelo profissional, todos os outros são africanos recém-chegados ao Brasil. Ao todo, são 30 retratos que contam também com celebridades negras brasileiras, entre elas, o mestre Luiz Melodia (1951-2017), que acaba de fazer a passagem. Selecionamos aqui, direto do baú de Miro, algumas dessas joias especialmente para vocês.