Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

O olhar, o homem e a natureza: Hans Silvester grava manifestações das pinturas corporais de povos africanos e os efeitos decorativos com a natureza

Alemão radicado na França, o fotógrafo registra, a cada ano, a tradição dos habitantes do vale do Rio Omo, fronteira da Etiópia, Quênia e atual Sudão do Sul. Com arranjos naturais de plantas, folhagens, frutos e flores contrapostos a uma expressiva arte da pintura corporal, essas fotografias viraram tema de exposição sobre o artista no Museu Afro Brasil. Diretor-curador da instituição, Emanoel Araujo fala sobre este que é um dos trabalhos mais autenticamente coloridos da história das civilizações

  • Por:Emanoel Araujo
  • Fotos:hans silvester
  • 13 novembro 2017

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São muitos os fotógrafos europeus que sempre voltaram seus olhares para a diversidade humana, histórica e cultural do imenso território africano. Nesses registros, a Europa tem descobertas às vezes muito preconceituosas sobre a vida africana, desde os tempos mais remotos e imemoriais, quando da chegada, no século 19, de esculturas e objetos trazidos como troféus de massacres étnicos, de muitos e muitos povos espalhados de leste a oeste nas savanas, nas montanhas e nos desertos.

Com isso, a Europa também viveu os tempos da descoberta de uma estética africana, com contribuições reducionistas, com seus dogmas e seu imenso poder e força com linguagens sintéticas, mix middles e assemblage desafiadoras à chamada arte eurocêntrica.

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(Tensão entre eixo virtual e real; tensão entre simetria virtual e real; estancamento rítmico, empilhamento de uma forma geométrica primária ou confirmação de um volume, plano, área espacial em negativo, em formas fechadas ou abertas; regularidade de um ritmo genérico em um padrão interrompido por motivos aderentes, arranjados aleatoriamente, surpresas formais ou inversões semelhantes à fuga de unidades básicas de padrão).*

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Portanto, os dogmas da arte africana tiveram aspectos muito originais de uma estética autóctone logo apreendidos pelos artistas de vanguarda do começo do século 20. À guisa de estabelecer um limite entre o primitivismo e o modernismo, a arte europeia deixou visível essa grande influência artística quando o crítico francês André Breton, idealizador do movimento surrealista, impressionou artistas como Picasso, Giacometti e tantos outros, também seguidores do cubismo. Estava claro o valor intrínseco das manifestações artísticas africanas.

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(Desconformidade entre áreas pintadas e superfícies de planos; Jogos visuais nos quais formas reduzidas se tornam ambivalentes e podem ser lidas como representação alternativa de uma coisa, seu sinônimo ou antítese; Motivos pars pro toto que se utiliza de um aspecto evidente de uma coisa para representá-la na sua totalidade; Combinações em técnica mista de que ao ocidental aparece como texturas, modelagens, cores, objetos ou ideias correlacionadas de uma forma irracional).*

Muitos foram os fotógrafos que, numa visão ampla, fizeram extraordinários registros dos povos e das manifestações culturais África afora.

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Hans Silvester, um apaixonado pela diversidade artística dos povos da Etiópia, revelou para todo o mundo as manifestações das pinturas corporais e esses extraordinários efeitos decorativos com a natureza. Esse fotógrafo alemão, que vive na França, viaja todos os anos para vivenciar e se alimentar de uma dinâmica da estética que se renova a cada tempo, sempre muito original.

Os arranjos naturais de plantas, folhagens, frutos e flores se contrapõem a uma expressiva arte da pintura corporal. Essas fotografias também revelam o contexto em que esses habitantes do vale do rio Omo – na fronteira da Etiópia, Quênia e atual Sudão do Sul – convivem com a magnitude dessa natureza. Natureza que vai além da forma como ela se explicita no corpo e na face desses povos. Num sentido imensamente amplo, entre a vida animal, vegetal e humana.

*(Trechos sobre os dogmas da arte africana, por George Preston, 1987)

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Hans por Wair de Paula Jr.

Hans Silvester, 79 anos, fotógrafo e militante/ativista ambiental, iniciou precocemente sua atuação como artista: afirma ter descoberto a fotografia aos 14 anos de idade, quando ganhou sua primeira câmera. Em 1955 se formou na Faculdade de Freiburg, Alemanha, antes de começar sua vida de viajante e fotógrafo. A extensão de sua obra – facilmente comprovada pelas inúmeras publicações que podemos encontrar em sites como Amazon – inclui desde uma aparente paixão por gatos (que lhe rendeu alguns livros), estudos e publicações sobre pipas, cavalos e pombos a tratados sócio-ambientais e registros de cunho antropológico. França, América Central, Japão, Portugal, Egito, Tunísia, Peru e Itália foram os assuntos explorados nas décadas de 1960 e 1970. Na década seguinte, Hans Silvester mirou suas lentes para as áreas naturais da Europa, documentando o extenso vale do rio Calavon, no sudeste da França – onde publica um importante relatório sob o título “Rio Assassinado”, e em seguida registrou os estragos do desmatamento na Amazônia. Muda-se para o deserto de Thar, também conhecido como “O Grande Deserto Indiano” – uma imensa e árida região localizada entre Índia e Paquistão, e lá documenta a vida das mulheres do Rajastão – pouco antes de publicar uma série de livros dedicados a locais como as Ilhas Gregas e as coloridas paisagens da Provença.

O trabalho que apresentamos aqui na GIZ foi resultado de anos de documentários, concluído em 2006, onde Silvester desfila a beleza da tradição dos povos Surma e Mursi, no Vale do Rio Omo, região ao sul da Etiópia. Este registro revela o uso de tintas, penas, flores, galhos e outros adereços colhidos da natureza local para criar acessórios de inconteste beleza, reafirmando a ancestralidade e a universalidade deste anseio.