Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

ArteDesign

Somos todos iguais: irmãs Bawar ilustram ensaio sobre o ponto de vista pessoal e intransferível da editora de GIZ acerca do quanto as diferenças ainda ardem à flor da derme

… e de como questões atuais, como a representatividade social e o empoderamento do turbante, podem levar à escala da revolução. Nessa toada, Lara e Mara, as gêmeas albinas, e sua irmã mais velha, Sheila, filhas de imigrante africana, estrelam um ensaio para questionar: “qual é a sua cor?”

  • Por:Ana Paula de Assis
  • Fotos do Ensaio:Felipe Abe
  • Conceito:Allex Colontonio
  • Amarrações:alessandra marcilio
  • Turbantes:Michelle Fernandes
  • Make:Renan Tavares
  • Produção de Objetos:Virginia Lamarco
  • 27 outubro 2017
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Registro das empoderadas irmãs Bawar clicadas junto à Felizberta, a matriarca do clã

Nasci na São Paulo caucasiana de 1979, com infância correndo entre os anos 1980 e 1990. Na tevê, o entretenimento-febre era o Show da Xuxa, com a apresentadora de cabelos loiros e seu séquito de paquitas idem que em nada representavam a uma criança de pele escura como a minha. Se hoje ainda engatinhamos e não vemos muito a presença negra nos principais cargos e na publicidade, comerciais (salvo por uma Karol Conka aqui e por uma Taís Araújo acolá, raras exceções à regra) e passarelas, acredite, nesse passado recente de apenas 38 primaveras atrás (estou ficando velha), a situação era ainda mais desfavorecida para quem buscava referências para a construção de sua personalidade. Tudo era muito inacessível e o ambiente escolar era o mais árido possível. O que hoje se convencionou chamar de bullying, o não aceite de crianças com o meu fenótipo era uma prática tão recorrente que até estranhávamos quando não havia xingamentos e apelidos nada edificantes. As professoras não eram preparadas para tratar a diversidade e, de certa forma, reforçavam o estereótipo.

As superpoderosas Bawar sisters reforçam a narrativa sobre conviver em um mundo mais plural e cromático, muito além da pigmentação. São donas de imagem expressivíssima que dá um olé no entendimento padrão

Nas festas juninas, brancos dançavam com brancos e meninas negras arriscavam seus passos com pares de mesma tonalidade – isso quando havia algum postulante disponível. Como a rejeição desses também era praticada sem pudores, a única alternativa que nos restava era bailar com outra coleguinha ou ficar fora da festa. Ter a tez escura e ser eleita Miss Caipirinha? Nem pensar. Por mais que você se empenhasse para ser a campeã em vendas dos famigerados bilhetes ou rifas que conferiam o tal título, o posto de destaque era totalmente proibitivo para quem fosse preta e de cabelo crespo como eu.

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Mara Bawar com banco Ruano, design Inês Schertel, Dpot Objetos. dpot.com.br

Recentemente, ao relembrar dessas agruras com uma amiga baiana que estudava em um colégio particular em Salvador, paradoxalmente, a solução proposta pelos educadores da capital mais negra do País segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) foi criar um concurso exclusivo para negras chamado “Rainha do Café”, uma vez que não havia a menor possibilidade de meninas não-brancas terem êxito e serem coroadas no certame principal, que elegia a Soberana do Milho.

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Lara, Sheila e Mara Bawar no banco Trancelim e cadeira Cobra Coral, ambos aço e corda naval, design Sergio J. Matos. marcheartdevie.com.br

Quer ato mais segregacionista que este? O racismo joga duro e muito pesado. Corta. Hoje o cenário está (um pouco) menos sombrio e ainda assim não nos é dado o direito por completo de reconciliarmos com o nosso passado e resgatar as raízes. Um exemplo disso foi a recente polêmica sobre a apropriação cultural do turbante. Acreditem – não é “mimimi”: para carregar um torso na cabeça é necessário representar e ponto. A nossa estrela da capa, “a mulher do fim do mundo” Elza Soares, o faz a contento. Ela, que vociferou com toda a intensidade de seu canto gutural que a carne mais barata do mercado é a negra, carrega, majestosamente, um turbante “do tamanho de sua importância”, como cravou o nosso publisher Allex Colontonio. A coroa vai muito além de ser um simples adereço, conforme explica Thaís Muniz, designer, artista, pesquisadora, mentora do @turbante.se.

“Eu acho que se as pessoas enxergassem menos preto e branco elas se relacionariam melhor, realizariam mais coisas juntas e se uniriam por mais motivos que vão além da aparência” Lara Bawar

“Acho maravilhoso que o tema tenha protagonizado discursões e reflexões. Tenho visto a agonia das pessoas querendo encontrar fundamentação para justificar quem pode usar ou não, e as mesmas não entendem que o problema não é a mulher branca aderir, mas sim que o racismo é tão perverso, que gera a invisibilidade da população negra. Vemos de longe algo que sempre foi usado por um grupo étnico apenas ser legitimado quando um corpo branco consome, aprova e diz que é bacana. Ninguém tem o direito de impor o que as pessoas podem ou não fazer. Existem inúmeras amarrações e nomenclaturas para adornos de cabeça que tem uma função apenas estética. Já o turbante carrega significados que vão muito além: ele representa grupos de pessoas que fazem parte de determinadas culturas, religiões ou ideologias. Dentro da cultura brasileira, da cultura afro-americana e de muitos países da África, ele foi subalternizado durante muito tempo, e como questiona Spivak – crítica teórica indiana – em uma das suas obras: Pode Um Subalterno Falar?, quais os significados embutidos na mágoa e na necessidade de reivindicar território ao ver símbolos de resistência cultural serem representados por outros agrupamentos sem qualquer compromisso social contra o racismo, por exemplo? Muitas pessoas, negras e não negras, continuam numa discussão de lógica binária (sim e não/pode e não pode) e têm se apegado ao bendito (e quase defasado) termo ‘apropriação cultural’ pensando a noção de identidade cultural de forma fixa e estática. Esses purismos geralmente acabam aprisionando. Não só no Brasil, mas em inúmeros lugares em que passei, a grande referência da massa para turbante é a Carmem Miranda: uma portuguesa branca que protagonizava o personagem que as cantoras, dançarinas ou baianas de acarajé não podiam representar por serem negras. O racismo continua a criar barreiras, que pessoas que têm privilégios sociais não veem. Então quando penso na reverberação de como quero que as próximas gerações se refiram ao turbante, acredito que todos que militam e entendem (negros e brancos) vão saber que existem turbantes, e que Dete Lima, Negra Jhô, Rainha Nzinga, Nefertiti, as Mães de Santo são as principais representantes desse símbolo. Acredito que estamos escrevendo um novo capítulo que reflete política e sociedade”, sentencia.

“Com certeza nossas raízes africanas nos fortaleceram muito e encontramos muita autoestima na nossa criação, através do exemplo de pessoas fortes e histórias que nossa mãe sempre nos contou das grandes mulheres negras” Sheila Bawar

E foi para quebrar velhos paradigmas e com um discurso menos cartesiano contra a intolerância que apresentamos as convidadas do nosso ensaio, as superpoderosas Bawar sisters, que reforçam a narrativa sobre conviver em um mundo mais plural e cromático, muito além da pigmentação da superfície. Donas de imagem expressivíssima que dá um olé no entendimento padrão ao transbordar a classificação da derme em preta / branca e clara ou escura, as paulistanas Lara e Mara, 12 anos, junto à carioca Sheila, 14, filhas de Felizberta, mãe imigrante de Guiné-Bissau, país da África Ocidental colonizado por Portugal, comprovam que serem negras na condição de albinismo (alteração genética que provoca ausência de melanina na pele, cabelos e olhos) não foi impeditiva para que, ao lado da irmã primogênita – que não herdou essa característica recessiva –, militassem a favor da causa da diversidade de todas as cores.

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Mara, Sheila e Lara Bawar nos módulos esféricos Boiling, design Luciana Martins + Gerson de Oliveira, ,ovo. ovo.art.br

“O albinismo também é um tabu para muitas pessoas e desde o nascimento nossa mãe contou com grupos de apoio e centros especializados para orientá-la sobre os cuidados especiais com nossa pele e visão. Isso sempre nos manteve próximas de pessoas semelhantes e também nos permitiu ver como somos todos iguais”, explica Mara. Dentro desse espírito de “viva a diferença”, as meninas ganharam notoriedade após participarem do ensaio Flores Raras, do fotógrafo Vinicius Terranova (cuja imagem mais impactante abre este especial).

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Lara, Sheila e Mara Bawar com a poltrona Painho, design Marcelo Rosenbaum, Tidelli. tidelli.com.br/Manta de lã, design Inês Schertel, Artefacto. artefacto.com.br

Estamparam campanhas para marcas expressivas e editoriais – tanto aqui quanto lá fora –, as jovens e conscientes influenciadoras digitais (que já consquistaram mais de 100k no insta @lara_mara_sheila) hasteiam a bandeira por um mundo mais igualitário e multicolor: “Eu acho que se as pessoas enxergassem menos preto e branco elas se relacionariam melhor, realizariam mais coisas juntas e se uniriam por mais motivos que vão além da aparência”, sentencia Lara. Extremamente articuladas, as garotas desde pequenas foram preparadas para o embate sobre consciência racial no berço familiar. “Com certeza nossas raízes africanas nos fortaleceram muito e encontramos muita autoestima na nossa criação, através do exemplo de pessoas fortes e histórias que nossa mãe sempre nos contou das grandes mulheres negras. Toda minha família é bastante empoderada e sempre nos passaram isso. Foi na adolescência que percebi de verdade o racismo velado que existe na nossa sociedade, mas meu mal estar foi melhorando conforme conheci cada vez mais referências de personalidades negras. É muito importante se ver representado nos palcos, na tv, nas revistas, na política, etc. Fez toda a diferença para mim e vejo isso no meu trabalho”, finaliza Sheila.

Irmãs Bawar
bawar.com.br

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As gêmeas Mara e Lara Bawar, aqui retratadas pelas lentes do fotógrafo Vinicius Terranova para a série “Flores Raras”, em 2016. O projeto representa o encanto da diversidade e valoriza belezas frequentemente marginalizadas.vterranova.com