Revista Giz

01 Out 2016 - Dez 2016

#1 | Edição de Estreia

Ney Matogrosso: luz, câmera, tesão, design e emoção

Em cinco atos, o roteiro de mais um dia em que Ney Matogrosso hipnotizou homens e mulheres – como já fez na cama (e ainda faz, no palco)

  • Por:PEDRO HENRIQUE FRANÇA
  • Fotos:Salvador Cordaro
  • 17 setembro 2016
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Carrinho de chá JZ é uma criação do legendário designer Jorge Zalszupin

PRÓLOGO:

O ser de Ney Matogrosso
A primeira edição de uma revista que se propõe a transgredir os conceitos de publicações de arte e design, cujo nome, GIZ, brinca justamente com o poder do objeto em ser e deixar de ser, escrever e reescrever. Que exemplo maior que Ney Matogrosso e os clássicos do design que colocamos para dialogar com ele? Como essas poltronas, bancos, luminárias e afins, Ney revolucionou uma época e a música brasileira com sua estética, voz e comportamento. Mudou um jeito de agir e pensar. Liberal, sexual, transgressor: ele nasceu, se fez e ainda é assim. Aos 75 anos, segue instigante e provocador. Com uma trajetória não linear, cheia de surpresas ao longo do caminho. Naturalmente mutante.

Como você define esse jeito artístico de ser?
Isso é uma coisa que eu sou impulsionado. Eu só sei ser assim. As pessoas falam “você podia fazer um show só com sucessos”, mas isso não me estimula. Eu posso cantar um sucesso, mas fazer um show só disso não teria graça para mim. Quero coisas novas, diferentes. Mas não é uma coisa que eu decidi ser. Sou assim porque eu sou, não tem explicação.

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Já a cadeira São Paulo, de forte cor amarela, é assinada por Carlos Motta

CENA 1

Encontro marcado

Locação: estúdio Criadouro Carioca, Itanhangá, RJ

Ney é mesmo um inclassificável. Ao adentrar o estúdio, no Itanhangá, ainda sério, todo de preto, ele já mexe com o brio dos presentes – homens e mulheres na equipe, de Allex Colontonio e Talita De Nardo, os publishers, a André Rodrigues, o diretor de redação. A ideia do ensaio é colocar sua expressão e desenvoltura – que enlouquece plateias de todos os gêneros e “agêneros” – Brasil e mundo afora – para dialogar com peças icônicas do design brasileiro e contar a história do móvel no País. Uma novidade para ele que em sua casa mesmo, uma cobertura no Leblon, não tem nenhuma assinatura de grife. “O que tem de mais interessante mesmo é a mesa de madeira da sala de jantar com machetaria que já estava lá quando cheguei e, como ia ser um trabalho para tirar e eu tinha gostado, eu deixei”, conta.

Durante três horas de fotos, Ney alternou peças de seu guarda-roupa com figurinos do mais recente espetáculo, “Atento aos Sinais”, que já está no quarto ano de estrada e tem shows marcados até 2017. Os mobiliários serviram de acessório para ele “deitar e rolar, porque além de lindas, elas são muito confortáveis, né?”. E ele rolou. A cada nova pose, êxtase geral. Caras, bocas, giz na boca, de pé na cadeira, de cócoras, com pés em forma de salto alto. E olhares provocativos, sedutores. Ney exala sex appeal.

De onde vem essa energia sexual?
Ela existe em mim.

Desde sempre?
Sempre existiu e ainda existe. E no palco não tem como controlar: faz parte.

Ney olha da janela e se encanta com a natureza em volta e um imenso ipê roxo. Sabe e entende de mato. É lá, em seu sítio na serra fluminense, que ele mais gosta de estar. “Não trato a natureza como qualquer coisa, eu reverencio, peço licença”, afirma. “Ela é sagrada. E nós estamos nessa situação porque a humanidade dessacralizou a natureza.” Sozinho, Ney gosta de aguardar o anoitecer à luz de velas e escutar a sinfonia dos insetos, muitas vezes acompanhado de um gravador. “Nossa senhora… Eu fico doido! Parece que eu tomei uma droga.”

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De 1974, o banco Marquesa, de Anna Maria (1930-2012) e Oscar Niemeyer (1907-2012), está entre os móveis mais orgânicos e fluidos da história do mobiliário

Exercer a solidão é importante pra você?
Sim, necessito. Não fico infeliz, não me sinto rejeitado, não me sinto menos. Eu preciso disso. É inspirador e pacificador. Me estimula.

CENA 2

O papo cabeça

Locação: carro em movimento, entre Itanhangá e Leblon

No carro, já a caminho da casa de Ney, no Leblon, a conversa se volta para a situação política do País e do mundo e a dualidade entre o avanço do conservadorismo e do empoderamento. “Não faz parte só dessa mentalidade de automóvel, isso também está relacionado, ao nosso país, com a corrupção endêmica, em que tudo é pelo dinheiro, nada é pelo bem-estar humano da população”. Ney, que votou em Lula em todas as eleições até 2002, afirma que o ex-presidente é “uma grande decepção na minha vida”. “Quando estourou o escândalo (do mensalão) eu vi que aquilo não era ético, era mentira. Ali eu me afastei e, desde então, não tenho mais interesse por nenhum político. Eu olho e vejo que tudo é passageiro: a vida, eu, essas pessoas. É isso que me dá tristeza: ver o Lula jogar tudo abaixo. Eu tenho pena de não poder acreditar.”

Você canta “O Tempo não Para”, do Cazuza, em seu show, que diz “eu vejo o futuro repetir o passado”.
Você vê a genialidade do Cazuza. Ele compôs isso nos anos 80 e a música é perfeitamente compatível com 2016 e será com 2017, 2018, 2019…
Ney observa a direita se organizando no País e no mundo. Vê como “assustadora” a possibilidade de Donald Trump ser eleito presidente nos Estados Unidos. “Aí, o diabo está solto, a constatação de que vivemos o fim dos tempos”, dispara. Para ele, a força conservadora tem uma causa para cada lugar. No Brasil, diz, a causa principal é a junção de política com religião. “Isso não pode dar boa coisa”.

Como você vê a bancada evangélica no poder?
Tem Bolsonaro, Feliciano, Malafaia, esses pastores…. Não tenho nada contra religião em si, mas contra ela estar dentro da política querendo organizar a vida das pessoas. Ninguém tem que organizar a minha vida, ninguém tem que organizar a sua. Não vou admitir que ninguém de fora venha dizer que tenho que viver dessa maneira e não da minha. Eu vou mandar tomar no cu e não vou aceitar.
Ney nunca aceitou o papel de porta-voz do movimento gay – e sabe que tem gente que torce o nariz por isso –, mas se estarrece com os recentes casos de crimes homofóbicos, como de Orlando (EUA), e no Brasil. “É uma coisa de Idade Média, estamos voltando 300 anos na história. Não sei pra onde a humanidade pretende ir. Na minha maneira de ver, estamos no planeta para evoluir, mas estamos regredindo. Apesar disso, as pessoas estão se liberando. A briga está aí, entre o atraso e o avanço. O problema é que as armas do atraso são muito agressivas, ignorantes.”

O que mais te faz querer estar no mundo?
O meu trabalho. Enquanto tiver domínio do meu corpo e da minha voz, estarei trabalhando. Fora isso, meus amigos e minha mãe.

O que te faz querer sair do mundo?
Essa situação do Brasil. E não é sair, é me desinteressar. Porque não depende da minha vontade ou do meu voto, que eu acho que é perder tempo. Eu anulo tranquilamente.

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De Ricardo Fasanello (1930-1993), a poltrona Esfera foi revelada ao mundo entre os anos 1960 e 1970. O modelo da foto foi emprestado pelo Arquivo Contemporâneo

CENA 3

Jogo de sedução

Locação: sofá da casa do Ney, em sua cobertura no Leblon

No sofá, Ney está em casa. Dali sai para malhar e andar pelo bairro. Da janela de casa, com vista para a Lagoa e para o Leblon, adora tirar fotos para postar no Instagram @oficialneymatogrosso. Armário é algo que inexistiu em sua vida, fosse no mato, quando morou com o pai, próximo a uma base militar, fosse no Rio de Janeiro.

Você em algum momento da tua descoberta sexual teve medo de repressão do teu pai ou de amigos?
Não. O meu pai me reprimia antes de eu ser. Uma vez ele me chamou de viado e eu não sabia nem do que ele estava falando, era uma criança. A segunda vez que ele me chamou de viado, eu respondi: “Não sou, mas quando for o Brasil inteiro vai saber”. Roguei uma praga, que se concretizou.

Seu pai viveu para te ver gay?
Viveu e nunca questionou. A única vez foi quando ele viu que tinha movimento de mulheres na minha casa e veio me dizer que estava errado, que tinha de optar por uma coisa ou outra. Respondi que não e que a hora que quiser eu optava. Mas por enquanto estava gostando daquela coisa.

Bissexual?
Sim. Nunca imaginei casar com uma mulher, como não quero casar com um homem. Mas eu gostava da safadeza, como gosto até hoje, mas cada vez menos rola.

Por quê?
Acho que é natural, porque eu era escravo disto.

Um escravo do sexo?
Eu era um escravo do sexo.

Quase ninfomaníaco?
Quase não, eu era ninfomaníaco. Eu não dormia se eu não trepasse. Precisava trepar todo dia.

 

“Tenho a questão da sexualidade ainda ativa, mas não tenho essa necessidade, é um outro prisma. Se não tiver carinho, não tem tesão, o pau não sobe”

 

E rolava?
Três vezes por dia, com gente diferente e havia uma disponibilidade enorme. Agora, é outra coisa. Tenho a questão da sexualidade ainda ativa, mas não tenho essa necessidade, é um outro prisma. Se não tiver carinho, não tem tesão, o pau não sobe.

Porque antigamente não precisava nem beijar na boca…
Só isso já era suficiente (ele encosta o pé no pé do repórter).

Quando você parou de ficar com mulheres?
Quando tive um relacionamento mais longo com um homem, o Marcos, com quem morei junto, fiquei 13 anos. Porque a coisa com a mulher era uma brincadeira, de exercer a liberdade. Com o Marcos isso não cabia.
Você usa o poder de sedução do palco para sua vida?
Não. O que você vê no palco não acontece na minha vida, porque não tenho necessidade daquilo. Engraçado, porque algumas pessoas me dizem que me torno atraente justamente por ser o extremo oposto.

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Intitulada cadeira Cobra Cobral, peça vermelha é assinada pelo mato-grossense Sérgio J. Matos

CENA 4

Finalmente
Mesmo já com Marcos, Ney nunca deixou de se encontrar com Cazuza. Dormiram várias vezes juntos. E, se ainda estivesse vivo, acredita que estariam até hoje naquela situação. “Era uma coisa muito mais que sexual. A gente dormia junto algumas vezes sem transar. Era tão bom dormir com ele e exercitar essa coisa de estar junto sem trepar”. Foram muitas histórias com o eterno Exagerado. Ele lembra o dia que Cazuza propôs “escandalizar”. E saíram cada um com uma camiseta com o retrato do outro, de mãos dadas. Numa outra vez em que dormiu na casa de Cazuza, recusou o convite para andar de lancha no dia seguinte. Ney pediu apenas que não trancasse ele em casa. Quando acordou, estava trancado. “Pensei, ‘filho da puta, aquele viadinho me trancou para eu estar aqui quando ele voltasse’. Mas eu olhei da janela, vi que tinha um jardim, e saltei de lá mesmo”.

Tem cada vez mais casais com relacionamentos abertos como esse que você tinha com o Marcos. Como administrar?
É difícil. E dá errado quando o outro se apaixona por alguém. Mas isso pode acontecer com ou sem liberdade. Então optamos que a gente poderia transar com quem quisesse, guardando o espaço do outro dentro de si. Todas as vezes que vi que corria o risco de me apaixonar, eu me afastei.

E sempre deu certo?
Não. A gente chegou a se separar quando ele ficou enciumado com uma terceira pessoa, mas ele que tinha levado para a história.

Mas aí estamos falando de um amor a três.
Sim. Uma noite eu acordei com vozes vindo do outro quarto. O Marcos não estava na minha cama. Levantei para ir ao banheiro e vi ele com um broto lindo na cama. Me chamaram, eu não fui. Mas depois disso esse menino entrou para o relacionamento. E quando o outro quis ficar colado em mim, o Marcos quis acabar com tudo. Eu não deixei. “Você traz e tira a hora que você quer? Não!”. Ele tinha a ilusão que eu estava apaixonado, mas estava só curtindo a carne fresca e boa. Um dia fui para São Paulo com o garoto e, quando voltei, o Marcos tinha saído de casa. Mas não terminamos. Aí que a história ficou melhor. Cada um ficou na sua casa, sem ter chave um do outro e sem aparecer de surpresa.

 

“Também aceito todos os fetiches. Se conheço alguém que tem alguma coisa que é estranha pra mim eu vou lá exercitar e o que era estranho passa a não ser”

 

Marcos foi o segundo amor da vida que Ney Matogrosso perdeu para a Aids. Chegou a se despedir de 13 amigos em um ano. Quando descobriu de seu companheiro, tinha certeza de que também tinha contraído o vírus. “Minha surpresa foi quando fiz o teste e deu negativo. Depois dali nunca mais transei sem camisinha”. Ney usou todas as drogas dos anos 70 e 80 – a última foi um ecstasy “quando ainda era bom, sem anfetamina”. Hoje fuma maconha “raramente”. “Uso para resolver problema. Como eu não fumo regularmente, me dá uma coisa que eu vou no ‘x’ da questão”, diz.
A questão da sexualidade começou cedo. Deixou de ser virgem aos 13 com uma prima distante (“eu era sem-vergonha”). Beijou o primeiro homem aos 17 no quartel. E teve o primeiro sexo com outro homem aos 20. Logo nas primeiras entrevistas, quando estourou com Secos e Molhados e depois em carreira solo, deixou bem claro sua preferência por meninos. Seu último relacionamento, de dez anos, terminou em 2012. Tipo ideal, não tem. “Eu tenho que admirar”, analisa. “E se não tiver carinho não concretizo. E isso é muito louco, porque não dependia disso. Bastava olhar, encostar, já ficava de pau duro e ia. Com qualquer um. Podia ser preto, branco, ruivo, marrom, amarelo, verde.”

Muitos jovens têm tara por você.
E eu digo: “Eu sou velho pra vocês”. E tem gente que fica insistente, que diz que idade não tem a ver. Tem gente que fica puta quando digo não. E eu digo que ela deveria me agradecer por não estar usando ela, nem brincando com os sentimentos.

Mas muita gente quer estar com o Ney.
Eu sei. Mas não quero a responsabilidade de lidar com o depois.  Já cheguei em tanta gente que disse não pra mim. É normal, faz parte da vida.

O que mais mudou com o amadurecimento?
Eu passei a aceitar mais as pessoas como elas são. Antigamente, se não correspondia às expectativas, eu virava as costas e tchau. Hoje não. Também aceito todos os fetiches. Se conheço alguém que tem alguma coisa que é estranha pra mim, eu vou lá exercitar, e o que era estranho passa a não ser. Isso é uma coisa de poucos anos pra cá. Por que não? Sou uma pessoa que não tenho nojo de nada, de pelos, de hormônios, de secreções, nada.

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O confortável pufe da imagem é par inseperável da poltrona Mole, de Sergio Rodrigues (1927-2014). Feito sob medida, o estofado tem o mesmo nome do assento

Epílogo:

A verdade move Ney Matogrosso. Para ele e para sua carreira, nunca teve espaço para especulações sobre sua orientação sexual. “Eu entendi logo que se eu falasse a verdade não ia ter rabo preso, ninguém iria atrás de mim para descobrir nada. Não acho que seja todo mundo obrigado a ser assim. A gente sabe que galã da Globo tá ferrado se assumir. Eu quis viver em paz com minha consciência”. Ney é um artista que não se coloca acima dos outros. Não vive cercado de assessores. O filtro é ele mesmo, nunca o que a indústria e os outros irão pensar. É respeitado e admirado por onde passa. Trata todo mundo bem e diz como quer ser tratado: com respeito.

 

“Sempre ouvi dizer que o Brasil era o país do futuro, mas a gente já está descendo a ladeira sem nem ter alcançado o ápice. Estamos sempre nessa coisa mais ou menos”

 

Ainda acha engraçado ser visto como um ícone de moda – e é. Falava a palavra moda, Ney torcia o nariz. Chique, achava uma futilidade. Até que um dia uma amiga vinda de Paris impôs esse termo a ele. E ele aceitou. Aos 75 anos, Ney não tem arrependimentos. Tampouco culpas. “Não tenho culpa de ter nascido neste planeta, de ter nascido de uma trepada. Não tenho porque me sentir culpado, nunca fiz nada a ninguém”. Orgulho ele tem de ser honesto. E atribui esse caráter, “veja só”, à caretice do pai, que exigia isso.

A pessoa que perdeu amigos e amores sente alguma saudade?
Não. Carrego eles comigo, portanto não tenho que ter sau dades. Posso te afirmar que era mais fácil viver na década de 70 do que hoje. Mas tudo bem, eu estou aqui, o mundo é agora, não vou ficar estacionado. Estou aqui hoje nesse momento. De ontem eu guardo as boas lembranças, e só. Você acha que isso é frieza? Não, eu não sou uma pessoa fria.

O sangue latino corre mesmo nas veias. E correrá, porque liberdade sexual é algo que vai exercer sempre, “a não ser que me matem”. “Vou exercer meus direitos até quando tiver vontade. Porque acho que vai chegar o momento em que vou me desinteressar por isso. Não é possível que vou ficar aquele velho tarado com 90 anos. Deve ter um momento que essa libido desaparece. Agora ela é muito acesa facilmente em mim ainda. Muito”.

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