Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Divo no divã: Marcos Palmeira equilibra os dias entre a vida na cidade e a produção orgânica na fazenda no interior do Rio

Se a criação junto à família de artistas não fizesse dele um adepto das artes dramáticas, o ator de certo se dedicaria à natureza – a infância na fazenda dos avós, na Bahia, semeou no carioca um gosto pela vida rural, hoje responsável pelos alimentos da Fazenda Vale das Palmeiras

  • 26 outubro 2017
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É sobre uma poltrona Eames, do seu próprio acervo, que posa Marcos Palmeira em uma descontraída sessão numa tarde de segunda-feira. Feita pelo casal Ray e Charles no fim dos anos 1950, a peça deveria abraçar os ideais de conforto e simplicidade

“Minha casa foi sempre um estúdio de Cinema Novo”, diz Marcos Palmeira sobre a imersão natural no mundo das artes. Foram bastante caseiras as reuniões da Mapa Filmes, que o pai, José Viana de Oliveira Paula, o “Zelito”, dividiu com Glauber Rocha durante mais de uma década. A avó tocava piano e a presença do tio, Chico Anysio, também foi bastante marcante. “Mas nunca me projetei ator. Só tinha muita admiração por eles todos”, conta.

Sem ter muito para onde correr, traçou uma carreira paralela às referências artísticas familiares. Tem na memória uma vida toda dedicada ao teatro, que começou com ensaios amadores na escola. Apareceu nas telonas pela primeira vez em Copacabana Me Engana (1968), de Antônio Carlos da Fontoura, a partir do que não parou. Foi contratado da TV Manchete e da TV Globo, com a qual ainda tem contrato. Com o progenitor, já dividiu os bastidores em Avaeté – Semente da Vingança (1985) e em Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão (2000). “Trabalhar com meu pai foi ótimo. Ele é um cara muito divertido e bem-humorado. Temos uma relação muito madura nesse sentido”, acrescentando o benefício de poder participar inclusive das funções técnicas dos filmes. Mas foi a partir dos prêmios alcançados com Dédé Mamata (1988) que passou a ser visto como um ator em potencial. Despontaram os convites e a coisa disparou.
Talvez pela natural afinidade e pelo já reconhecido apreço do ator pelo meio rústico, constam em sua carreira encontros com personagens como Tadeu, em Pantanal (1990), e João Pedro Inocêncio, em Renascer (1993), em novelas de ambientações mais rurais. “Não me incomoda de jeito nenhum. Eu adoro. Faz parte da minha realidade.” São 54 invernos recém-completos distribuídos entre as vertentes urbana e rural, afinal, entre o Posto 6 da praia de Copacabana e os dias de sombra e pé sujo da terra roceira – mesma baliza em que cresce a filha Júlia, do antigo relacionamento com a diretora artística Amora Mautner.

Se não fosse mestre na arte da interpretação, Marcos talvez se dedicasse à veterinária ou zootecnia. Apesar de ter crescido sob a sombra do Corcovado, foi pela Bahia que criou todos os encantos. É à convivência na fazenda da família em Itororó, aliás, à qual atribui o seu hoje interesse pela natureza. “Foi isso de andar muito a cavalo enquanto garoto, lidar com gado, com bicho.” Enquanto na adolescência e o pai gravava o documentário Terra dos Índios (1979), teve seu primeiro contato com tribos indígenas, que, mantido e cultivado, o levou a, passado um tempo, ir morar com os xavantes, por quem foi batizado Tsiwari (“sem medo”).

Enquanto a família segue a gerenciar os negócios da fazenda no nordeste do País – que dá origem a um chocolate de primeira e onde Marcos gosta de passar férias com a esposa Gabriela Gastal –, ele toca seu próprio empreendimento em Teresópolis, no Rio, de produção pecuária, leiteira, de hortaliças e de frutas. Decidiu fazer do cuidado dos alimentos, orgânico, quando descobriu que quem lá plantava, de lá não comia. “Na verdade, eu estava ali envenenando o solo com agrotóxico.” Depois de se aprofundar na produção de alimentos puros, abriu seu próprio armazém no Leblon, o Vale das Palmeiras, em que comercializa os frutos colhidos. A preocupação ambiental se converte ainda em ativismo: Marcos participa da ONG Uma Gota no Oceano e empresta sua imagem, também, para a defesa da demarcação de terras e difusão da cultura indígena.

“Tenho muito menos tempo do que gostaria na fazenda, mas muito mais tempo do que achei que fosse ter”, conta ele, que, nas brechas da rotina regrada em que passeia de bicicleta, se equilibra entre vida de ator, empresário e ambientalista. Depois do fim das gravações de Assim Eram os Dias, que se encerram em setembro, já engata no projeto do longa-metragem D.A.S., dirigido por Vicente Amorim, previsto para ser lançado em 2018. Da proximidade com a natureza, além da série A’Uwe, da TV Cultura, lançou agora, pela TV Brasil, Manual de Sobrevivência para o Século 21, em que atua como narrador e fio condutor na documentação do trabalho de pessoas que estão fazendo algo pelo bem da humanidade.

@marcospalmeiraoficial