Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

ArteDesign

O som da nudez: capas de discos que são cases na história do design gráfico

De como alguns dos artistas mais aquilatados da mpb – e outros tantos da indústria mundial – calaram a boca e taparam os ouvidos da indústria com capas de nudez explícita que se tornariam joias da história do design gráfico

  • Por:Pedro Alexandre Sanches
  • Foto:Colin Lane (is this it, the strokes, (2001)
  • Com Colaboração de:Diego Muniz
  • 28 setembro 2017

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Dizem que no princípio éramos todos índios e vivíamos pelados, pintados de verde, num eterno domingo. Depois nos cobriram, nos descobriram e nos cobriram de novo em moto-contínuo, até que veio à luz a capa ensolarada do disco Índia, de Gal Costa, nalgum dia nublado de 1973. Hoje dizemos que aqueles eram tempos de ditadura (na época não dizíamos), e logo mandaram esconder a tanga minúscula da Gal, que mal lhe cobria a vagina e passou a ser comercializada escondida por uma capa opaca de plástico azul.

Curiosamente, o tempo em que Gal não podia se exibir quase nua na capa de um LP era o mesmíssimo tempo em que Gal se exibia quase nua na capa de um LP. Hoje mitificamos aqueles 1970 como tempos propícios para as ousadias do corpo em forma de capas de discos, fosse fora do Brasil ou aqui dentro. Houve, por exemplo, o caso da banda britânica de art rock Roxy Music, que gostava de expor mulheres sensuais e na capa de Country Life (1974) experimentou a ousadia de colocar logo duas, uma sem camisa, outra de sutiã transparente, ambas com calcinhas que deixavam entrever os pelos pubianos. A banda de Bryan Ferry teve a capa censurada em vários países, inclusive nos Estados Unidos, eterna terra da liberdade. Tiraram as duas moças da foto e deixaram apenas a folhagem ao fundo.
Um ano depois (estamos sempre atrasados?), vivemos aqui situação parecida. Caetano Veloso (índios tropicalistas adoram andar pelados) quis homenagear os Beatles na dupla de LPs Joia e Qualquer Coisa (1975), e no primeiro deles fez referência à célebre capa que, descoberta, revelava a nudez frontal de John Lennon e Yoko Ono em Two Virgins (1968). Colocou-se em nu frontal com a esposa (Dedé) e o filho pequeno (Moreno), mas diferentemente de Lennon não peitou mostrar o pênis, escondendo-o atrás de pássaros. A censura militar mandou recolher e a capa voltou toda branca, apenas com as gaivotas, Caetano, esposa e crianças desaparecidas.
Genitálias expostas ofendiam (como ofendem ainda hoje) mais que explosões de bombas, infanticídios e assassinatos – especialmente as “assustadoras” partes masculinas. A capa de Andy Warhol para Sticky Fingers (1971), dos Rolling Stones, cobiçou o tabu, não o quebrou, mas excitou toda uma geração ao exibir um pênis bem marcado por baixo de uma calça jeans e um zíper que se projetava capa afora. No encarte, estava o mesmo modelo (que todas e todos sonhamos ser Mick Jagger), agora só de cueca.
Algo parecido fez inúmeras vezes nosso índio Ney Matogrosso, que mostrou muito mais do que escondeu nas capas e encartes sensuais de Ney Matogrosso (1975), Feitiço (1978), Mato Grosso (1982). Não sabemos como, mas todas passaram – e Ney passou a formar um improvável casal ousado e desabusado, lado a lado com as capas explicitamente sensuais da índia Gretchen.
Por falar em Gretchen, a bunda tem tido sorte melhor, mas nem tanta. Não se tem notícia de alguém que tenha ousado tanto quanto Tom Zé, que ilustrou a capa de Todos os Olhos (1973) com um olho que não era um olho, disfarçado por uma bola de gude. Passou pela censura feroz, apenas porque enganou a fobia nossa de cada dia pelo sexo.
Seja como for, eram tempos em que nada podia se mostrar, e (quase) tudo se mostrava. De lá para cá, mais índios foram exterminados e os lindos e gigantes LPs viraram minúsculos CDs (que depois foram extintos), até chegarmos nos estranhos anos de 2010 em que tudo se pode mostrar, e (quase) nada se mostra.

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TODOS OS OLHOS, TOM ZÉ, 1973

Por muito tempo, o álbum do músico mais tropicalista do Brasil, Tom Zé, guardou um grande segredo. Idealizada pelo poeta concretista Décio Pignatari, a capa estampou a foto do ânus de uma prostituta. Para passar pela censura da Ditadura Militar, a imagem foi superampliada. Por mais de quarenta anos, pensava-se que o olho alusivo era composto por uma bola de gude segurada por um lábio. Trilha sonora: A noite do meu bem, Augusta, Angélica e Consolação e Brigitte Bardot.

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ÍNDIA, GAL COSTA, 1973

O fruto proibido da discografia de Gal é um dos LPs mais cultuados da história da MPB. Intensa e provocativa, a fotografia de Antonio Guerreiro traz um close frontal do tapa sexo usado pela cantora (na contracapa há seios nus e adereços indígenas). Em nome da “moral e dos bons costumes”, a Ditadura vetou a exposição pública do álbum que passou a ser comercializado com um envelope opaco, de plástico azul. O mistério tornou o objeto ainda mais desejado. Trilha sonora: Índia, Da Maior Importância e Desafinado.

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RECITAL NA BOITE BARROCO, MARIA BETHÂNIA, 1968

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira: assim o artista plástico baiano Luiz Jasmin interpretou a presença de Maria Bethânia na capa do primeiro dos seus muitos discos ao vivo. Barrada pela censura militar, a psicodélica representação da musa como uma espécie de criatura da floresta se aproximava do universo visual do movimento tropicalista. Trilha sonora: Carinhoso, Lama e Baby.

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MATO GROSSO, NEY MATOGROSSO, 1982

A sexualidade transgressora faz parte da carreira de Ney Matogrosso. Pioneiro em romper com os padrões de gênero na MPB, o artista é mestre em provocar. Com fotografia de Luís Fernando Borges da Fonseca, a capa instigou com um Ney que parecia nu, mas que na verdade usava uma tanga com a cor de sua pele. Boiando em um rio, a imagem do cantor estabelece duplo sentido que casa com o conteúdo do LP. Há quem garanta que muita gente comprou o disco para ver Ney nu. Trilha sonora: Tanto Amar, Uai, Uai e Por Debaixo dos Panos.

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JÓIA, CAETANO VELOSO, 1975

Caetano Veloso viu a capa do disco “Jóia” ser barrada pelo regime militar. Assinada pelo próprio artista, a foto mostrava sua então esposa Dedé e seu filho, Moreno Veloso, nus e o cantor com o sexo tampado por uma gaivota. Nem mesmo a opção de incluir as aves agradou os policiais e a gravadora precisou recolher o álbum das lojas. O disco voltou às prateleiras somente com o pássaro que cobria o púbis de Caê. Bem mais tarde a imagem seria reconstituída para o lançamento em CD. Trilha sonora: Pipoca Moderna, Help e Jóia.

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NASCENTE, FLÁVIO VENTURINI, 1982

Paralelo ao sucesso alcançado no grupo 14 Bis, do qual foi fundador, este é o primeiro álbum solo do cantor e compositor mineiro. Capturado à vontade na nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, a concepção gráfica da capa é de Tadeu Valério, Jô Oliveira, José Luiz Pederneiras e Juliana Prates. O representante do Clube da Esquina emplacou diversos hits na época. Trilha Sonora: Nascente, Espanhola e Jardim das Delícias.

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UM, BABY DO BRASIL, 1997

Aos 45 anos, em meio a um processo de autoconhecimento, a cantora mais cósmica do País decidiu “virar mulher”. Agradeceu ao Senhor pelo corpo que estava ótimo, e vestindo apenas luvas, sapatos e guitarra se deixou fotografar para a capa do disco, com direção artística de Sérgio de Carvalho, que encerraria o período de seis anos afastada do mercado fonográfico. Renascida sob nova alcunha, Baby do Brasil apresentou um disco pop e muito sexy. Trilha Sonora: Sexy Sexy, Fazendo Charme e Divina Orgia.

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VINIL VIRTUAL, DANIELA MERCURY, 2016

Inspirada na lendária foto de John Lennon e Yoko Ono, a cantora Daniela Mercury posou nua, aos 50 anos, abraçada à esposa, Malu Verçosa, na capa do seu último trabalho de estúdio, clicado pelas lentes de Célia Santos. Mais do que uma nudez pura, o objetivo da rainha do axé, que se tornou porta-voz de campanha da ONU pelos direitos LGBT e do casamento gay, era registrar um manifesto feminino. Trilha sonora: A Rainha do Axé, Maria Casaria e Sem Argumento.

giz-2-unfinished-music-1-two-virgens-john-lennon-1968UNFINISHED MUSIC Nº. 1, TWO VIRGINS, JOHN LENNON, 1968

O primeiro disco solo de John Lennon foi um dos mais polêmicos de sua carreira. Rejeitado pela gravadora por ser experimental demais, a capa também trouxe problema ao expor o ex-Beatle e Yoko Ono em nu frontal. A dupla assina a concepção da capa ao utilizar câmera com temporizador configurada por Tony Bramwell. A censura não demorou, nas lojas de discos colocaram tarjas pretas nos órgãos sexuais do casal ou embrulharam os LPs com papelão. Trilha sonora composta por batidas desconexas.

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LOVESEXY, PRINCE, 1988

Gênio provocador, o músico americano criou um universo próprio tanto na música como nas capas dos discos. Com imagem de Jean Baptiste Mondino, fotógrafo de nomes como Björk, David Bowie e Madonna, o 10º álbum de estúdio de Prince foi ao mesmo tempo alegre e provocativo. Pela combinação de nudez com inocência floral, algumas lojas se recusaram a vender o disco e outras concordaram, desde que fosse envelopado por uma textura preta. Trilha sonora: Eye No, Glam Glam e Alphabet St.

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BARULHINHO BOM, MARISA MONTE, 1996

As distribuidoras americanas classificaram o disco como pornô. O projeto gráfico foi assinado por Gringo Cardia e trazia o desenho de uma mulher com seios de fora, de autoria de Carlos Zéfiro. Acostumada a não fazer concessões, a cantora foi vítima das tarjas pretas. Explicou a escolha: “Os shows têm uma intimidade maior do artista com o público, que acaba sendo um pouco voyeur”. Trilha sonora: Panis et Circenses, A Menina Dança e Cérebro Eletrônico.

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IS THIS IT, THE STROKES, 2001

Considerada uma das mais sensuais da indústria fonográfica, a capa do disco de estreia da banda nova-iorquina The Strokes foi fundamental para o sucesso do álbum. O cartão de visita da banda foi uma foto provocadora de uma luva de couro apoiada em um quadril feminino. Precisa de mais? O registro é do fotógrafo Colin Lane e a modelo é sua ex-namorada. Para os setores mais conservadores dos Estados Unidos a arte precisou ser alterada. Trilha sonora: Last Nite, Is This It e Take It Or Leave It.