Poéticas e incômodas, a beleza das imagens retratadas pela Angústia.Photo reside nas reentrâncias do cotidiano silencioso

Agência de fotografias formada por Fabricio Brambatti, Gabriel Bianchini, Larissa Zaidan, Raul Arantes e Tommaso Protti materializa desde histórias de analfabetos que não imaginaram ter suas memórias contadas, até a situação sociopolítica turca

  • 11 outubro 2017

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Um soco no estômago. As imagens feitas pela Angústia.Photo não pretendem pintar – ou clicar – um universo que não existe, senão dissecar a mais latente das realidades diretamente no âmago de quem vê. A beleza não está na harmonia ou na doçura do que é retratado, mas reside na sensibilidade de perceber cenários desconsiderados tanto pelos veículos midiáticos, quanto por quem anda a esmo na rua sem sequer olhar para os lados. A agência de fotografias que já clicou episódios como a Zona de Exlcusão de Chernobil, a história de um menino colecionador de crânios de vaca, e a ocupação das torres do Pico do Jaraguá, está com uma exposição na Cartel 011, um ponto de cultura jovem localizado na rua Artur de Azevedo, em São Paulo, que congrega ideias, promove lançamentos de produtos, sessões de música e de arte e entretenimento.

De acordo com Cristian Resende, sócio fundador do estabelecimento, a proposta da loja-galeria sempre foi promover o novo e apostar no futuro, oferecendo uma plataforma de expressão e espaço para os jovens talentos. “A curadoria da galeria tenta seguir esse mesmo eixo, apresentando jovens artistas e/ou trabalhos pouco ou nunca expostos antes”, comenta.

Esta é a primeira exposição da Angústia.Photo, que leva ao espaço no bairro de Pinheiros até 15/10 suas imagens que “buscam poesia onde só existe rotina” sem a intenção de ser ponto final. “A ‘angústia’ é uma inquietude constante. É o começo e o fim de tudo o que nos move, quase um aperto”, define Larissa Zaidan, uma das fotógrafas da agência ao lado da dupla fundadora Fabricio Brambatti e Gabriel Bianchini, Raul Arantes e Tommaso Protti.

Em entrevista, a fotógrafa explica com clareza os fundamentos e a metodologia que segue o grupo na busca por um trabalho mais do que autoral, incômodo.

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Como o pessoal da agência decidiu se juntar? Como perceberam que poderia dar certo?
Larissa Zaidan:
O Fabricio Brambatti e o Gabriel Bianchini resolveram criar a Angústia por conta de uma necessidade que tinham de fazer o seus trabalhos e o trabalho de outros fotógrafos autorais circularem no mercado e na vida das pessoas de forma independente. Não é um questão de dar certo ou errado, é  a vontade de tratar o que nós mais amamos, que é a fotografia, com o respeito e a atenção de que ela precisa.

A linha narrativa que aproxima o trabalho de cada um já era traçada individualmente antes?
LZ:
Sim. A confluência dos fotógrafos da Angústia justamente se deu pois os nossos trabalhos, de alguma forma, conversam muito. Dentro da foto, nós temos afinidade tanto nos assuntos que nos seduzem quanto na maneira que queremos abordá-los. E, apesar de individualmente termos pautas diferentes ou estéticas únicas, nós fotógrafos da Angústia nos aproximamos por conta dessa conexão dos nossos trabalhos.

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Como e por que optaram por retratar este tipo de imagem?
LZ: Na verdade, não sabemos se houve um momento em que optamos por isso. A beleza e melancolia de cada assunto nosso retratado, as estranhezas ou delicadezas, vêm muito de um reflexo de como nos enxergamos no mundo e como enxergamos o mundo. Ou pelo menos o nosso mundo. O trabalho de cada fotógrafo da Angústia é muito mais uma consequência de como olhamos e lidamos com o nosso universo particular.

Quais são as maiores dificuldades em campo? É possível/viável não se envolver com as situações retratadas?
LZ: 
Essa é uma questão bem pessoal de cada fotógrafo. Mas falando de pontos em comum, existem algumas dificuldades mais práticas e algumas mais subjetivas. Por exemplo, tanto na rua, ou em qualquer pauta específica, temos que pensar sempre que estamos lidando com o fator da imprevisibilidade. Ou seja, em qualquer situação que estivermos com a câmera e que existirem outras pessoas ao nosso redor como protagonistas de uma cena que nos fascina ou nos interessa de alguma forma,  estamos sujeitos aos imprevistos inerentes do ser humano. É por isso também que, apesar de ser possível e viável não se envolver com as situações retratadas, essa não-relação pode não ser tão interessante para nós. Muitas das circunstâncias a que chegamos para fotografar são fruto de algum envolvimento com as situações retratadas.

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Como os fotógrafos têm se valido da angústia para confrontá-la?
LZ: 
A angústia sempre existiu em nós, é basicamente o que nos faz lembrar que estamos vivos e por que fotografamos. Mas não sei se o que importa nesse caminho é confrontá-la, mas sim aceitá-la. Ela não melhora conforme o tempo passa, mas nos dá outras ferramentas para seguirmos em frente com nossos trabalhos.

Como é o método de trabalho da agência? Trabalham com pautas pré-estabelecidas? Como é estabelecida essa agenda?
LZ: 
Temos alguns caminhos para desenvolver trabalhos entre os fotógrafos da Angústia. As pautas individuais, que não são pré-estabelecidas, vão de acordo com o perfil de cada integrante e são escolhidas de forma independente. Como temos vários interesses em comum, existe a possibilidade de às vezes executarmos algumas pautas juntos, como, por exemplo, o trabalho que o Fabrício e o Gabriel estão desenvolvendo sobre a caça de javali no Brasil. Para além disso, temos os trabalhos que são feitos em nome da Angústia, que daí existe a participação de todos os fotógrafos na execução das fotos ou vídeo.

Como é o método de divulgação? Vi que vão publicar as imagens num jornal. Para vocês, como se porta o impresso diante do digital nos dias de hoje? Qual seria a diferença de peso?
LZ: 
Nós acreditamos que o material impresso, tanto na mostra quanto em publicações, cria uma relação muito mais potente com quem a observa. O meio digital é carregado de um estigma de superficialidade, pegar algo nas mãos e sentir o cheiro do papel ou ver as cores das fotos ao vivo muda a relação com o conteúdo. Publicamos um jornal com nossas fotografias para ser distribuído gratuitamente pelas ruas. Mais do que um meio de divulgação, o jornal é uma tentativa de  fazer com que a fotografia autoral entre na vida das pessoas de uma forma mais natural, mais sincera.

Cartel 011
R. Artur de Azevedo, 517, São Paulo. T (11) 3081 4171. cartel11.com.br

Angústia.Photo
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