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Rabo entre as pernas: de gafes a isenções, Cynthia Garcia avalia o saldo político do Oscar 2017

Nossa colunista Cynthia Garcia avalia o saldo sócio-político-cultural do Oscar 2017

  • 1 março 2017

Por que Hollywood pôs o rabo entre as pernas e não utilizou a cerimônia do Oscar 2017 como plataforma política contra Trump como o mundo todo esperava? O zunzunzum diz terem sido três as principais razões a impedir o maior prêmio do cinema a dar o recado e não cumprir o prometido: ser a edição mais politizada desde a fundação da academia em 1929. O cinema americano comercial tem ainda pela frente uma profunda revisão de valores humanos e sociais. Segundo pesquisa recente da University of Southern California, personagens não-brancos com direito a diálogos em produções hollywoodianas representam apenas 28% dos protagonistas. Apesar de 40% da população dos EUA ser classificada como não-branca somente 7% dos filmes produzidos em Hollywood levam em consideração essa representatividade étnica, inclusiva, realista. A 89º cerimônia do Oscar pode até entrar para a história devido ao mico final no anúncio da premiação de melhor filme mas a iniciativa revolucionária nesta edição foi eleger dois atores negros ao prêmio de ator coadjuvante, a genial Viola Davis (Fences) que fez um discurso brilhante, e o bonitão Mahershala Ali (Moonlight), também o primeiro muçulmano a levar a estatueta nessa categoria. Com essa Trump não contava…  Mas falta ainda vencer a barreira e distribuir a dois não-brancos o Oscar de melhor ator no mesmo ano e encerrar esse racismo de branco, não-branco, e eleger apenas as três coisas que movem a arte: o talento, o talento, o talento.

Na cerimônia de 2017, enquanto a elite de Hollywood calou, a minoria levantou a voz. Os diretores do curta premiado White Helmets, sobre a organização de voluntários que já salvou 82 mil pessoas na guerra da Síria, levantaram a plateia ao conclamar: “Fiquemos do lado da vida! Fim ao banho de sangue na Síria!” O melhor filme estrangeiro foi para The Salesman do diretor iraniano Asghar Farhadi, que já anunciara que não compareceria ao evento por pertencer a um dos seis países proibidos por Trump de entrar nos EUA. Antes de entregar a estatueta ao feminista e inclusivo Zootopia, vencedor de melhor filme de animação, Gael García Bernal proclamou: “Como latino-americano, trabalhador imigrante e ser humano, sou contra qualquer tipo de muro que nos separe”. O italiano Alessandro Bertolazzi que levou o Oscar de maquiagem com Suicide Squad também se posicionou como imigrante. A presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, resumiu: “A arte não tem fronteiras.”

Mas por que o rabo entre as pernas da elite de Hollywood? Um grupo desculpa o “acanhamento” por Meryl Streep já ter externado tudo em seu protesto no Golden Globes no início de janeiro. A politizada MS há horas da 89ª edição do Oscar se meteu num bate boca com ninguém menos que Karl Lagerfeld. A razão do imbróglio foi a atriz, com 20 nomeações para o Oscar das quais três arrematadas, ter dispensado o look que KL tinha confeccionado de cortesia para a prima donna do cinema. KL diz que Elie Saab teria pago para MS envergar na cerimônia o vestido azul marinho bordado do estilista libanês. MS acusa KL de estar caluniando. Vai saber… Na verdade, MS estava ciente que a chance de levar a quarta estatueta por seu papel em Florence Foster Jenkins era minguada (o filme francês original, Marguerite, assisti, é ótimo). Vestir um modelo de um profissional árabe foi a maneira de MS continuar batendo na tecla do protesto contra a política de imigração de Trump.  Mas MS não foi a única a usar a moda como estandarte. A diretora afro-americana Ava DuVernay, que competiu com o documentário 13th, também fez questão de desfilar uma criação de designer muçulmano, no caso, o saudita Mohammed Ashi à frente do Ashi Studio, sediado há dez anos em Beirute. Ponto para elas!

E a segunda razão de Hollywood ter enfiado o rabo entre as pernas? Acusam o policiamento nazista nos agradecimentos nesta edição, com exatos 35 segundos. Mas se nem ator consegue mandar mensagem a Garcia nesse timing, quem é capaz? O verdadeiro motivo é money, money, grana – sempre ela – e o pavor de ficar a ver navios e entrar para a lista de excluídos, como ocorreu nos anos 50 no macarthismo, período sórdido da história americana que lembra os cem primeiros dias da era Trump… Acontece que o secretário do tesouro dos EUA recém-apontado pelo presidente, Steven Mnuchin, é um big investidor de Hollywood e produtor executivo de filmes importantes. Isso explica, por exemplo, porque o peso pesado Tom Hanks enfiou o rabo entre as pernas e não compareceu à cerimônia desse anos. É dele o papel principal em Sully, dirigido pelo republicano assumido Clint Eastwood, 86 anos, que não foi por velhice pura e simples… TH é democrata, já declarou que gostaria de ver Obama se candidatar para um terceiro mandato. Sully, sobre o piloto que evitou a queda fatal de um avião de passageiros no rio Hudson, foi produzido por Mnuchin. Got it? Curiosidade: Mnuchin é escrito assim mesmo. Só não confundir com Munchkin, os anões de Munchkinland no clássico O Mágico de Oz…

Encerrando a tríade de desculpas esfarrapadas, a última também está vinculada à Casa Branca. O executivo Bob Iger, a quem Trump convidou para participar do time que cuida de sua política estratégica, é CEO da Disney. Não precisa dizer mais nada, afinal, Mickey sempre foi um republicano estratégico, evangélico. Mas isso é outra longa história…

Mas como o Oscar também é sinônimo de moda, nesta edição meu prêmio não foi   para elas. Quem arrasou no estilo foram os bonitões. Meu Oscar de estilo vai para:

Mahershala-Mahershala-Ali-de-Ermenegildo-Zegna-Couture

1) Mahershala Ali de Zegna Ermenegildo Zegna Couture, primeiro muçulmano a vencer melhor ator coadjuvante! Dá-lhe, talento e charme!

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2) Ryan Gosling de Gucci, o lindo da Eva Mendes não levou. Next time, baby!

Jamie-Dornan-de-Gucci

3) Jamie Dornan de Gucci, sexy, sexy, sexy…

Dev-Patel-de-Burberry

4) Dev Patel de summer Burberry levou a mãe não o Oscar

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5) Justin Timberlake de Tom Ford abriu a noite com tudo, com sua Jessica Biel

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6) Andrew Garfield de Tom Ford, emagreceu para fazer o papel humanitário

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7) David Oyelowo, sempre classudo, de summer Dolce & Gabbana com lapela preta

Riz-Ahmed-de-Ermenegildo-Zegna-Couture

8) Riz Ahmed, sempre elegante, de smoking azul Ermenegildo Zegna Couture

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9) Pharrel “Happy” Williams clonou Karl Lagerfeld de dandy Chanel

Casey-Affleck-de-Vuitton

10) Casey Affleck de Louis Vuitton lavou o cabelo e levou o Oscar de melhor ator

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