Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Pintura íntima: “Sexual Colors” marca o início da experimentação de Gabriel Wickbold em transformar o homem em instalação

Enquanto o fotógrafo sobe o volume de suas experimentações supercromáticas, GIZ propõe um diálogo entre a consagrada série – que virou arremate-artsy nas mãos dos arquitetos mais antenados – e sua nova fase pictórica inspirada nos testes psicológicos dos borrões de tinta, ambos projetos protagonistas deste ensaio com algumas neo-pérolas do design contemporâneo em sua versão mais purista

  • 7 novembro 2017
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Foto da série Sexual Colors 2009 1/5. Cadeira Panton, design Verner Panton, Vitra. vitra.com

Experimentalista incansável, Gabriel Wickbold, 32 anos, pauta constante do nosso crew desde outras encarnações editoriais, cravou de vez seu nome entre os mais quentes da nova cena artsy brasileira. Sucesso de vendas na temporada 2016 da Art Basel em Miami (vale consultar a sua GIZ #2), foi responsável por algumas das cenas mais cromáticas da última edição da Casa Cor SP – nada menos do que seis arquitetos usaram as obras do carioca radicado na Pauliceia em seus espaços. Pudera. Com efeito visual de altíssima performance e discurso absolutamente contundente, suas fotografias instigam, intrigam, questionam e fazem muito mais do que simplesmente atrair o olhar pelos matizes extravagantes: elas brincam com os limites entre ficção e realidade de um jeito tão autoral que virou assinatura.

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Foto da série Sexual Colors 2009 1/5

Entretanto, sem se deslumbrar com a aceitação comercial de sua obra, Gabriel prefere partir para outras plataformas, caminhando seus pigmentos por uma senda cada vez mais qualitativa, em que o meio é tão fundamental quanto a mensagem. “’Sexual Colors’ nasceu em 2008 e terminou em 2012. Foi o começo da minha experimentação em transformar o homem em instalação. A ideia era usar a tinta para cobrir o corpo e fazer uma nova leitura sobre a sexualidade, a luz, a pele, e como a energia das cores agia sobre a impressão final da imagem. Acabou virando um pouco essa coisa do mixed media, porque é fotografia, mas é pintura também. Nasceu com o splash e virou pintura corpórea”, diz.

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Foto da série Sexual Colors 2009 1/5. Ninho Mini Nestrest, Dedon. collectania.com.br

A inspiração veio da natureza, que o artista considera o mais rico dos pantones. “Pesquisei muito as plumagens dos pássaros e entrei nessa mistura de tons, intuitivamente. Pinto o modelo de uma cor, o fundo de outra, depois vou jogando uma tinta e limpando a camada que está escorrendo. Em alguns momentos a derme aparece e a cor vai criando esse sentimento muito orgânico. Nessa mutação, às vezes você não consegue nem desvendar o formato do rosto. Nossos sentimentos são todos muito líquidos e fluidos”, explica sobre o projeto que contou com celebridades estelares e ajudou a estourar seu nome.

“Me inspirei nas pranchas de Rorschach (popularmente conhecido como ‘teste do borrão de tinta’, antiga técnica de avaliação psicológica), em que a reação do observador diz muito sobre o estado de espírito da pessoa”

Apesar do êxito, “bora” partir para outra: ele lançaria, de lá pra cá, diferentes projetos que reverberaram com mais ou menos presença pictórica. Mas Wickbold apresenta aqui e agora, em primeira mão, uma nova onda tão cromática quanto Sexual Colors, que ainda nem teve tempo de batizar. “No último trabalho, por exemplo, que fala sobre conectividade, usei a linha no lugar da tinta. Agora quero falar sobre essência. É uma abstração, para que as pessoas possam parar diante da obra, respirar e tentar descobrir alguma coisa. Cada um tem um ponto de vista sobre aquilo que vê e isso desencadeia um exercício muito difícil hoje em dia, que é enxergar com o olhar do outro. Me inspirei nas pranchas de Rorschach (popularmente conhecido como ‘teste do borrão de tinta’, antiga técnica de avaliação psicológica), em que a reação do observador diz muito sobre o estado de espírito da pessoa. A gente vive olhando a vida dos outros e se confrontando com essa ideia de que não estamos no melhor lugar, no melhor momento, se esquecendo de que a felicidade está dentro de nós mesmos, daquilo que nos faz bem. Buscar a paz interior é uma tendência muito forte da nossa geração. Então tem um pouco do sentimento líquido, de que as emoções são todas muito fluidas. A tinta sugere o movimento: se você está com calor, transpira; se está com tesão, fica úmido; se está triste, chora.”

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Fotos de série ainda sem nome, 2017 1/5

Nessa narrativa, Wickbold usa cerca de 4 centímetros de tinta, que captura em uma lente macro em superzoom. Mistura as cores com diversos estímulos mecânicos, que vão da vibração do som alto ao secador de cabelos, da água ao pincel. Finalmente imprime em telas gigantes (todas têm 2,50 x 1,6 metros, mais ou menos), em efeito que pode lembrar tanto o espaço sideral quanto uma fatia mineral, um mármore, por exemplo.

“Acho que estou mais para artista plástico do que para fotógrafo. Neste projeto, a fotografia ficou muito na ponta do iceberg, mais ligada às possibilidades da execução superdimensionada do que qualquer outra coisa. Mas não gosto de rótulos pra nada. Digamos que é uma coisa múltipla, não é foto, não é pintura, não é vídeo, não é instalação. Prefiro dizer que é uma coisa livre”, conclui. Nas páginas a seguir, nos apropriamos dessas duas séries vibrantes de Wickbold, a quase “vintage” Sexual Colors e a novíssima fase inspirada no “teste do borrão”, para contrapor a explosão pictórica com objetos de design com aspiração mais elementar. A novidade está nos olhos de quem vê – tanto dos sãos quanto dos malucos-beleza.

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Fotos de série ainda sem nome, 2017 1/5