O fotógrafo Yuri Seródio apresenta nova série na Luis Maluf Art Gallery

A exposição “Compassos Paralelos” faz uso dos conceitos aristotélicos e das discussões sobre simetria para fotografar espaços de arquitetura

  • 4 julho 2017
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Data da Grécia Antiga a idéia de que a chave da beleza pode ser expressa em números. “A matemática seria uma forma de obter um atestado de que o mundo possui uma ordem e, portanto, uma beleza intrínseca.” (Mario Miranda Filho, professor de Filosofia Grega da USP). Para Platão, belo seria tudo aquilo em que as partes se agrupam de um modo coerente para compor a harmonia do conjunto. E Aristóteles, pouco tempo depois deste conceito de Platão, introduziu uma ideia nova – a da simetria, que poderia ser entendida quando os lados opostos de uma figura, dividida por um eixo central, seriam exatamente iguais.
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O fotógrafo pernambucano Yuri Seródio, em seu mais recente trabalho – “Compassos Paralelos” –  faz uso dos conceitos aristotélicos e das discussões sobre simetria para fotografar espaços de arquitetura solene e harmônica, perfeitos, em silenciosas imagens que causam estranheza tanto por sua simetria quanto pela absoluta falta da presença humana. Yuri pretende, através destas fotografias reveladas em grandes formatos, “aprofundar o olhar do público por meio da geometria do belo, criando interfaces entre tempo, o elemento e o espaço”. E tem êxito nesta empreitada, propondo que a excessiva simetria da maioria de suas fotos seja o agent provocateur, induzindo o espectador a procurar minúcias e outras interpretações, ou até a tentar descobrir a imperfeição, o “erro”, transmitindo esta quase obsessão do artista pela ordem para o usuário. E aproveita para reverenciar suas origens, fotografando um belíssimo exemplar remanescente da arquitetura de cinemas do Brasil – o Cine São Luiz, em Recife, com suas poltronas de veludo bordô (originalmente verdes, segundo alguns documentos) e ornamentos que transitam entre o art déco e o art nouveau, imponente registro de uma época agora eternizado pelas lentes de um fotógrafo contemporâneo.

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Suas fotos acabam, de certa forma, exigindo do espectador uma concentração para maior compreensão do espaço fotografado. Seja o Gran Teatro Del Liceu catalão, seja a magnífica biblioteca Riccardiana de Florença, ou o acima citado cinema pernambucano, Yuri Seródio constrói imagens congeladas no tempo, como que para reforçar o conceito aristotélico  de suas composições – nenhuma imperfeição, nenhuma irregularidade. Talvez por isso a completa ausência do fator humano nestas imagens : o homem é imperfeito, irregular, assimétrico em sua grande maioria. E, assim como pode construir estes espaços de incontestável beleza, também é capaz de promover seu oposto. E o tempo, este silencioso administrador das finitudes, desaparece destas fotos, afinal a Beleza é atemporal. E eterna.

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Nascido de pai arquiteto e engenheiro, o interesse pelo desenho, pela construção e pela organização dos espaços era quase que intrínseco a Yuri. Chegou a prestar o primeiro vestibular para Arquitetura, mas, por força das circunstâncias, postergou o mergulho no assunto enquanto circulava pelos caminhos da Administração. A pós-graduação em Padronização de Gestão, apesar de aparentar nada ter a ver com o que faz hoje, já denunciava o quanto agradavam o jovem metodismo e simetria. E foi à frente do controle de empresas com que o hoje fotógrafo trabalhou a vida inteira, no Pernambuco, onde nasceu, e ainda mais um pouco em São Paulo, para onde se mudou há oito anos.

 

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O interesse pela fotografia, apesar de comido pelas beiradas, sempre foi presente. “Quando criança, usava meu dinheiro de mesada ou para comprar planta, ou para adquirir câmeras fotográficas”, conta. “Na época, fotogravafa com uma máquina descartável.” Depois de mais de oito anos no setor de gestão de qualidade e padronização da rede de supermercados Walmart, numa época em que Recife lhe ficou pequeno — Yuri diz adorar buzina, barulho e o agito urbano -, se mudou de mala e cuia para a terra da garoa, onde encontrou mais território a se explorar. “Não vim fugido de nada (risos), mas ou a vida mudava, ou eu ficaria estagnado.” Já em São Paulo, trabalhou por mais um tempo neste mercado que o formara e foi então apenas há seis anos que resolveu se dedicar a fundo à antiga paixão. Profissionalizou-se por meio de cursos, workshops e expedições para tornar a atividade, o principal ganha-pão. Isso o embarcou em diversas experiências como viagens fotográficas com Christian Cravo e com o fotógrafo da National Geographic David Alan Harvey.
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A disciplina exigida na experiência adminsitrativa se pronuncia ainda e também nas imagens. “Isso me dá uma questão de organização profissional muito boa.” Yuri exercita um tipo de fotografia que diz 100% traduzi-lo. “Primeiro pela questão da arquitetura, em que fui influenciado por meu pai. E também pela questão da simetria, do perfeccionismo, de luz… vem muito de minha personalidade”, diz. O fato de sempre retratar espaços tão vazios é bastante reflexo de sua timidez. “Eu uso a câmera como uma forma de me expressar, mas de não aparecer.” O fato de os espaços estarem inabitados também o conforta porque, deste modo, não se sente intimidado ou apressado pelos outros. “Aquele é um momento meu. Preciso ficar sozinho, senão a coisa não rola.”giz-yuri-serodio-Compassos-Paralelos-7
A aparição dos lugares retratados em “Compassos Paralelos” ele deposita sobre a paixão por viajar. A diversidade de opções, no entanto, não basta: Yuri busca também lugares que possuam uma forte história própria, como cinemas, teatros e palácios. “Como são ambientes muito antigos, a arquitetura é mais trabalhada e rebuscada. Apesar de amar o modernismo, sou apaixonado pela coisa mais clássica.” Por isto, pela possibilidade de pesquisas e de abrangência de conteúdo, muitos dos lugares são tombados, o que põe o fotórafo em contato direto com organizações responsáveis pelos patrimônios. Fora do Brasil, ele diz, o processo de conseguir fotografar ambientes assim — que precisam estar fechados ao público e possibilitem autorização de venda das imagens, por exemplo – é menos burocrático do que nos País. “Tem lugares para os quais já cheguei a estipular uma programação de até um ano antes para conseguir registrar”, conta.
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Pelo teor das imagens, pela escolha dos lugares e, sobretudo, pelo modo como as materializa, Yuri diz não querer ser tachado como fotógrafo de arquitetura. “Quero trazer a história do local. Não que a pessoa olhe e pense ‘que prédio bonito’, mas que se enxergue dentro do contexto do espaço.” É por isto que produz imagens que menos se pareçam como registros arquitetônicos do que como pinturas. A expo ficará em cartaz de 06 a 31 de julho.

LUIS MALUF ART GALLERY
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