Revista Giz

01 Out 2016 - Dez 2016

#1 | Edição de Estreia

A arquitetura em sua escala mais humana

A jornalista, consultora de moda e vanguardista Erika Palomino reflete sobre a escala da arquitetura, da moda e da vida

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Colagem/ilustração feita à mão e digitalizada pelo diretor de arte Romeu Silveira

A pele como fachada; cimento, areia, pedra e água vistos feito tecido; a roupa, uma segunda pele. Moda, arquitetura e arte se encontram, refletindo o cruzamento mais iluminado da contemporaneidade, onde o béton brut se contrapõe à humanidade do corpo material – o exercício diário da existência. A volumetria, por sua vez, se impõe soberana, cheia de vontades e com tanta personalidade sobre esse corpo, feminino, exposto e nu. O vazio na alma.

A proposta sugere a tentativa maior de compreensão do fazer artístico. Para onde vai o olhar? Na moda, temos um best-kept-secret, coisa para iniciados: a chave de tudo está nas proporções. São elas que determinam, por exemplo, a própria noção de temporalidade. Na lida com medidas de comprimentos, larguras, braços, pernas, ombros, reside o talento maior da criação. Mais, muito mais do que no desenho, muito além dos românticos croquis ou dos impessoais softwares de produção. É na forma, no jogo sutil desses movimentos de vaivém dos tecidos, na contração e relaxamento dos panos que acontece a Moda. Arquitetos da moda são aqueles que mais dominam esse vocabulário único. Estilistas da arquitetura, do outro lado, tratam paredes e concreto como superfícies dominadas, em que por vezes tijolos e massas se transformam num tricô plano e submisso.

A escala emerge desse discurso explicando e justificando a matemática da emoção, as equações da vida, materializadas pela arquitetura. Humana, é ela quem, por meio do corpo, transcende as dimensões do real, com suas relações que nossos olhos não enxergam. Na busca pelo conforto, pela proteção, pela felicidade, a arquitetura atinge esse momento corbusianamente mágico. E esse corpo, vestido ou despido, se reduz ou se agiganta, na prancheta do arquiteto, no modulor, nas calculadoras nervosas, no tamanho de um espaço.

As superfícies da arte são outras, mas também as mesmas paredes ou as mesmas matérias – tecidos, telas e que tais. Só que em seu ombrellone arquetípico e gigante abriga todos nós: arquitetos, estilistas, amantes e poetas das sarjetas encardidas e dos SUVs. Recebem de peito aberto mesmo o talento barato, as emoções vastas e forçadas ou os pensamentos imperfeitos. A arte, mãe, abraça e consegue dar sentido até aos piores sentimentos, faz valer a existência menos nobre. Principalmente ela, btw. Transportados para fora da caixinha branca, diante da Arte, esquecemos de nossa infame mediocridade e encontramos o Criador. Que, como se sabe, esconde-se nos detalhes. Mais comumente, também, em um para cinquenta.

Sendo a moda certo tipo de escalímetro do zeitgeist, a arquitetura surge poderosa, menos supérflua e, portanto, mais perene, confortando-nos diante do noticiário em banda larga que insiste em se fazer palpável, e existindo (ufa!) fora da bidimensionalidade do Instagram e da efemeridade de um snap.

Sob o pé-direito alto, respiramos. As gentes se movem em espacialidades generosas, livres, at last. A sensação pode não durar muito, prepare-se. Suficiente, entretanto, para querermos buscar de novo esse barato. Esse grande barato, vapor de poesia que se extravasa entre vigas e pilares, revelados pelos arquitetos à revelia do concreto cru, rude, ríspido. Por entre elas, e por entre as tramas de fios, sob a tinta, sob a cola – o amor. Este, quando de verdade, não tem medida nem tem proporção: é pedreira. É como diz aquele ditado de Michel Foucault: por que a vida não pode ser uma obra de arte?

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