Arte Anti-Trump: comunidade artística americana se mobiliza contra Donald Trump

A jornalista e historiadora da arte Cynthia Garcia discorre sobre a comoção da comunidade artística estadunidense contra a era Trump

  • 1 fevereiro 2017
  • Por:Cynthia Garcia

Sobre os EUA dos tempos atuais, a escritora negra Toni Morrison, prêmio Nobel de literatura, prega: “Em tempos de medo, o artista não deve se silenciar”. A súplica está em sintonia com o que preconizava o dramaturgo russo do século 19, Anton Chekhov: “O papel do artista não é responder, é questionar”.  Não é só a turma da música e do cinema que tem protestado contra o presidente Donald Trump. Mais de 400 nomes do olimpo americano das artes plásticas, entre eles, Richard Serra, Cindy Sherman e Marilyn Minter, fizeram um abaixo-assinado contra o corte de verba federal na área das artes que Trump pretende implementar.

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A escultura “Emperor Has No Balls” do Coletivo Indecline pipocou em várias cidades americanas, Washignton Square, NY, 2017

Inicialmente, a comunidade artística tentou sensibilizar Ivanka, única da dinastia que tem status de facto de colecionadora de arte. Dan Colen, Alex Israel, Nate Lowman e Christopher Wool, que possuem trabalhos seus no apartamento dela na Park Ave, em NY, tentaram apelar para o bom senso da primeira filha ao ponto de Richard Prince devolver os US$ 36 mil da obra que ela havia comprado dele em 2014. Em novembro último, girou em torno da primeira filha o movimento “Dear Ivanka”, um protesto na forma de cartões de Barbie cor de rosa decorados com perolinhas e firulins endereçados a ela nos quais o pessoal das artes escreveu toda sorte de temeridades prometidas pelo pai na hedionda campanha. Um dos mais acessados no Instagram: “Dear Ivanka, você vai ajudar quem não se parece com você?” O magnata da mídia, Barry Diller, casado com a estilista Diane Von Fürstenberg, fez negócios com Jared Kushner, marido de Ivanka e assessor de Trump na Casa Branca, é da seguinte opinião: “Está totalmente iludido quem imagina que os filhos pensam diferente do pai. Eles tiveram chance para rever seus valores e não mudaram”.

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Protesto “Dear Ivanka” de artistas Nova York, 2017. Cada participante escreveu nesses cartões o que mais o atemoriza no governo Trump. Este, Dear Ivanka, você vai ajudar quem não se parece com você?

Foi o espanhol Goya quem primeiro percebeu o poder político panfletário da arte. Na série “Los desastres de la guerra”, composta de 82 gravuras realizadas de 1810 a 1815, Goya retratou as atrocidades cometidas contra seu povo pelo exército francês durante a Guerra de Independência Espanhola durante as Guerras Napoleônicas (razão da fuga da corte portuguesa ao Brasil colônia em 1808). Em 1937, seu compatriota, Pablo Picasso, denunciou a chacina nazista-fascista – com consentimento dos espanhóis nacionalistas -, em “Guernica”, que destruiu o vilarejo basco do mesmo nome. O óleo com proporção de mural tornou-se símbolo do holocausto da Segunda Grande Guerra. Foi exposto na 2ª Bienal de São Paulo, em 1953 (quando nossa bienal era um evento relevante…). Nos anos 1960, parodiando o consumismo frenético celebrado pela Pop arte, o italiano Piero Manzoni produziu 90 latas de 30 gramas cada, etiquetadas “Merda do Artista”. Sim, isso mesmo… (Em 2015, uma lata foi arrematada no leilão da Christie’s por US$ 230 mil).

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Coletivo Digital Crowd, ” The Shining”, inspirado nas gêmeas do filme de terror “O Iluminado” de Kubrick

 

 

Nas últimas duas décadas, a obra mais comprometida com denúncias políticas tem sido, sem dúvida, a do chinês Ai Wei Wei, que sofre as consequências por sua luta pela liberdade. Sua arte-manifesto reúne a tradição milenar de seu país com conceitos contemporâneos. “Dropping a Han Dynasty Urn” (1995) é uma série de fotografias em preto e banco onde o artista estilhaça urnas de barro de cerca 5.000-3.000 a.C., demonstrando a falta de respeito à história ancestral de seus governantes.  “Surveillance Camera” (2010) reproduz ipsis litteris em mármore branco a câmera de vigilância que o governo chinês instalou para monitorar a entrada do atelier do artista em Shanghai.

Como disse em 1979 um dos pioneiros da instalação e da vídeo-arte, o alemão Wolf Vostell (1932-1998) do grupo Fluxus: “Declaro a Paz a maior obra de arte”.  Esta é a 5ª crônica que escrevo na GIZ contra tudo que Trump representa. Seguem algumas obras de artistas americanos anti-Trump.

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