Casa Branca, sinal vermelho: a jornalista Cynthia Garcia avalia a posição da moda no turbulento despertar da Era Trump

Estilistas se manifestam publicamente contra vestir a nova primeira-dama dos EUA na cerimônia de posse (dia 20 de janeiro): nossa colunista pondera sobre o tema e relembra um pouco da história…

  • 17 janeiro 2017
  • Por:Cynthia Garcia

A cerimônia de posse de Trump será a mais micada de celebridades A+ da história dos EUA. Com isso, as especulações se voltaram ao vestido de gala do baile da posse, que será exibido pela 45ª Flotus. É o horrendo título oficial da primeira dama com as iniciais “First Lady Of The United States”. Não, Melania não será a primeira modelo da Casa Branca, antes dela houve Betty Ford e Pat Nixon que não enfeitaram muito os salões do casarão. E que fique claro: sou democrata.

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Registro da primeira-dama Melania Trump

A estonteante estoniana de 46 anos e 1,80 m de altura entra para a história como a mais apetitosa primeira dama com que o velho tio Sam jamais sonhou. Será a primeira a exibir próteses de silicone nos peitos. A primeira a ter posado nua. A primeira a constar uma duvidosa profissão no CV. A primeira a dominar cinco línguas… A primeira Flotus nascida comunista – seu país natal, a Estônia (where?) ficou independente da Rússia em 1991, ela tinha 21 anos, só aterrissou em NY cinco anos depois, como Melania K, seu nome de guerra. Também será a primeira Flotus com passado de imigrante ilegal – há contratos de trabalho na ordem de US$ 20 mil com sua assinatura antes de obter o Green Card, em 2001. E outra, “estonian” soa “stoned” de doidão em inglês. O fantasma de George Washington vai arrepiar a Casa Branca! Mas rolam rumores que o pai da nação era gay…

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Outros tempos, outro estilo, Melania com Donald num gala beneficiente no Costume Institute do Metropolitan, NY, 2012

Após a gala, o vestido de baile segue para o acervo do The National Museum of American History, em Washington. Ficará exposto junto aos longos das posses anteriores, trajados pelas 44 Flotus precedentes como o de Michelle, um bonito modelo branco bordado de Jason Wu usado com sapatos Jimmy Choo. Por mais que Ivanka surja na celebração de gala cravejada de brilhantes será o look da madrasta, a deusa do leste, e não o da primeira filha, que entrará para a História. No entanto, foi estabelecido que no mandato de Trump o papel feminino mais importante caberá à primeira filha. Melania fará figuração em foto. Quem dará as cartas será a voraz Ivanka.

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Michelle Obama com o estilista Jason Wu, autor de seu vestido de baile da posse, em 2008, agora no acervo do The National Museum of American History, Washington

A celeuma também é turbinada pelo caráter simbólico em torno da new Flotus. Calada por receio de falar besteira, que ninguém se engane com sua suavidade. A bela com olhos de raposa russa tem no sangue toda truculência de Trump, que orgulha-se: “Nunca discutimos, pensamos igual”. Melania compartilha o preconceito que o futuro presidente dos EUA externou na corrida presidencial contra muçulmanos, mexicanos, negros, deficientes, gordos, gays e imigrantes como ela, um dia, foi. Aceita tudo por interesse, alheia às obscenidades com as quais o marido agrediu todas nós, mulheres, ela incluída. Contra esta violência sócio-política jamais vista, os estilistas formaram uma mobilização: rejeitam ter suas marcas, seus nomes, associados a ela. Palmas para a Moda! Doce e dissimulada, Melania é 100% Trump. Oposto de Michelle que abraçou a bandeira do bem e da nova moda americana, assumiu a função com garra e determinação, semeando esperança, alegria, exemplo. Sentiremos falta.

Flotus é o horrendo título oficial da primeira dama com as iniciais de First Lady Of The United States. Melania Trump é a nova Flotus.

O boicote ficou viral com a carta à imprensa da estilista francesa Sophie Theallet, que trabalha em Nova York e vestiu Michelle. Theallet acusou a retórica de Trump de “racista, sexista e xenofóbica”. Marc Jacobs e Tom Ford encamparam. Ford disse “ela não é a minha imagem”, referindo-se ao fato de Melania não emprestar estilo algum à roupa nenhuma. Para não escorregar no tomate, ela adotou o total look (cor única), cabelo comprido e olhos puxados pelo bisturi carregados de make. Parece uma impecável e plastificada personagem de “Dinasty”, novela americana, sucesso nos anos 80, sobre a saga de uma família bilionária, poderosa e podre…  Já se aposta na volta do estilo vintage “Dinasty”. Em breve no Netflix e nas vitrines.

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Melania K, nome de guerra da futura primeira dama em fotos reveladoras, antes de se tornar Mrs. Trump

Entre as grifes que adorariam vestir a Barbie de Trump, Dolce & Gabbana. Romper a tradição logo na estreia com marca estrangeira, a disgrace! Desgraça, palavra do parco glossário Trump. Ralph Lauren, amigo de Hillary, não se pronunciou – mas fecha qualquer negócio. Quem se ofereceu? Zac Posen, B Michael America, Thom Browne, Zang Toi, Victor de Souza, Marcus Wainwright da Rag & Bone, Cynthia Rowley, nomes mais casuais como Tommy Hilfiger e elegantes como Diane von Furstenberg, Calvin Klein, Carolina Herrera e Vera Wang. Minha aposta? As quatro últimas numa das cores da bandeira: red, white, blue. São grifes caras que Melania veste normalmente, representam o “bom gosto” dos americanos poderosos. Foi de Vera Wang o bonito vestido de corte helênico com o qual ela desfilou no casório nababesco após se livrar do tomara-que-caia de tafetá da cerimônia em janeiro de 2005. Digno de Maria Antonieta, o pesado vestido Christian Dior Couture criado por Galliano custou 100 mil dólares, foi bordado com 1.500 cristais, acumulou 550 horas de costura manual e ainda puxava uma cauda de cinco metros e um véu de oito. Mas o esforço foi triplamente compensado. Embolsou um marido bilionário, uma aliança de esmeralda de 12 quilates de dois milhões de dólares da Graff e, no mês seguinte, a capa da Vogue América. A menina de mãe costureira e pai motorista estava na capa da revista mais famosa do mundo, fotografada por Mario Testino, trajada com a opulência de uma rainha rococó. No entanto, a imagem, lembro bem, não veiculava nada o estilo contemporâneo propagado pela Vogue… E ainda tinha o rosto da noiva coberto pelo véu. Por que? Vergonha de exibir na capa a mulher de Donald Trump, o cafona?

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Melania com o exagerado vestido de casamento Christian Dior Couture por Galliano, na capa da Vogue América, fevereiro 2005, mês seguinte ao casamento nababesco com Trump

Com aval de Anna Wintour, o feito promocional foi articulado pelo editor André Leon Talley, bicha best friend de Melania. O noivo pagou uma baba para ter Talley de babá da futura mulher, em Paris, para aconselha-la na escolha da beca bolo de noiva que elevou o status do futuro presidente da nação mais rica do planeta. Quem diria…? Desde que Trump vociferou contra gays, negros e mulheres, Talley anda de mal com o casal. Não por muito tempo. Melania está prestes a ganhar sua segunda capa na revista. Ivanka emplacará sua primeira na Vogue (ela foi capa da concorrente, a Harper’s Bazaar, em 2007). Semana passada, a primeira filha foi vista costurando com a Wintour que, claro, virou a casaca de seda bordada. Tudo lindo em La La Land!

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