Fica, mas não vai ter bolo: a crítica, seus muitos formatos e sua incontestável importância (inclusive na arquitetura!)

De como preferimos assumir uma postura absolutamente honesta do que recorrer ao cada vez mais doce (e enjoativo) lobby mercadológico numa época de tantas transformações na comunicação

Nós, da GIZ e, por tabela, os Decornautas, simplesmente a-m-a-m-o-s arquitetura e defendemos a classe como fundamental, mesmo em tempos de vetos ao supérfluo – já que se trata da mais humana de todas as artes (e do combustível motriz da nossa máquina, em qualquer uma das nossas plataformas). Mas, alguns profissionais buscam reconhecimento sem ter que lidar com a cultura da crítica. Para muito além das polêmicas, nosso intuito é informar e valorizar ainda mais o ofício e suas respectivas responsabilidades, como acontece com a moda, com as artes plásticas, com a música, com o cinema e com qualquer outra manifestação sensorial de grande expressão. Concordar ou discordar é um direito coletivo, incluindo seu e nosso.

Se você quiser, posso publicar uma receita de bolo de cenoura no lugar desse texto”, retribuiu, serenamente, uma amiga jornalista quando confrontada pelo nosso então chefe num respeitadíssimo veículo de moda. Ele exigira, vorazmente, que uma crítica sobre o desfile apresentado por um de seus amigos fosse retirada do ar, tal e qual acontecia nos tempos da Ditadura Militar. “O trabalho dele é péssimo, eu sei, mas não podemos dizer isso”, censurou, embaraçosa e incoerentemente, à época.

A conversa poderia ter acontecido em 1967 – tempos de uma imprensa não-livre, quando alguns de nossos antecessores eram obrigados a escrever receitas de bolo no lugar de reportar, para não acordar com a boca cheia de formigas. Mas, rolou praticamente ontem (cinco anos atrás, para ser mais preciso) na sala de imprensa, durante uma fashion week. Enquanto estilistas acendiam questões como representatividade racial e empoderamento feminino, o retrocesso galopava nos bastidores. Minha colega, a jornalista, manteve sua ética, o empresário retrocedeu (com um bico maior do que o do Tio Patinhas) e a crítica ficou no ar. O profissional criticado se contorcia no backstage: “Investi um dinheiro pesado nessa coleção! Quem essas pessoas pensam que são pra criticar o meu trabalho?”, berrava em seu rompante capitalista exacerbado, enquanto a legião de lambe-botas lhe serviam Coca-Cola Zero com gelo + limão e concordavam, hipnótica e freneticamente, como se fossem Minions. Pensando melhor, poderíamos estar na Roma Antiga.

GIZ_Jose Marton_Casa Cor SP 2017

Sempre bem-humorado (e vanguardista), o designer José Marton desenha as linhas do seu pensamento crítico por meio do “Jardim e Entrada da Luxúria”, logo na entrada da Casa Cor. Espelhos labirínticos convidam os visitantes a (re)pensarem sua postura na era digital. A frase adesivada “É proibido fazer selfie” faz parte do processo crítico e provocativo sobre o comportamento contemporâneo das pessoas quando se deparam com seus reflexos. Foto: maisq3d/Casa Cor

Essa semana, Allex e eu publicamos nas redes sociais @decornauta e @gizbrasil nosso recorte editorial sobre a Casa Cor São Paulo, principal evento de arquitetura, decoração e paisagismo da América Latina. Aqui, vale o parêntesis: sob o guarda-chuva da gigantesca editora Abril (que, entre outras publicações, imprime a revista Veja), a Casa Cor é um evento comercial aberto à imprensa. Naturalmente, a turma da casa assume uma abordagem informativa/elogiosa, sem corpo crítico – faz parte do jogo deles. A galera da Globo, outra grande editora, mal cobre a Casa Cor por enquadrá-los como “concorrentes” – ou seja, no final do dia, só falam sobre eles, eles próprios e eles mesmos (risos). No Estadão, único jornal de grande circulação que se presta a esse tipo de cobertura, nosso honey Marcelo Lima (o principal profissional e talvez o único realmente gabaritado do segmento) faz sua cobertura jornalística imparcial, aciona um júri de experts e terceiriza o ônus do voto final ao público internético (e, portanto, difuso) por meio de uma votação aberta do tipo “ganha quem ganhar mais likes”. E tem as influencers, que a gente ama de paixão, e que trazem um olhar sem juízo de edição (e superválido!), de fora para dentro, em esquema vida real, conectando o métier às grandes massas populacionais que seguem seus passos no Instagram (atenção especial para as lindas e fofas do @amearquitetura, + @lardocecasa + @decorechic + @apartamento_203 + @conteudo_).

Nessa equação, entramos para somar com o saber editorial de 20 anos de riscado do Allex Colontonio, meu jornalistão predileto, dono de texto simplesmente avassalador (seja sobre a crise migratória na Grécia, seja sobre o novo álbum da Aretha Franklin, seja sobre a vida secreta das almofadas – que, não bastasse, ainda tem as melhores receitas de bolo), com olhar de lince e toque de Midas (se vocês soubessem o que o Allex já ajudou de arquitetões nessa vida a virarem o que são hoje, chamariam o escritório dele de “tenda dos milagres”). E mais: se você está com preguiça de jogar o nome no Google, anota aí – o cara foi editor-chefe da Casa Vogue nos tempos áureos da publicação e revelou vários jovens talentos por lá (hoje nomes consagrados), numa época em que a entrada no mercado era muito mais truncada; além dos livros que escreveu, de Sig Bergamin a José Marton, passando pela colaboração em grandes projetos internacionais para a Phaidon ou por curadorias de mostras. Teve também a Wish Casa (que ele mesmo criou, estabelecendo uma nova linguagem editorial no mercado) e o reposicionamento da KAZA (foi ele quem converteu bravamente a publicação, à época considerada “C“, em um impresso cool, isso antes de escolher passar o bastão ao colega Ricardo Gaioso) até desembocar na GIZ: revista trimestral com performance de art book, conteúdo vultoso, entrevistas sem papas na língua, fotografias acachapantes, narrativas atuais, ensaios e capas icônicas.

Isso tudo para responder à uma pergunta que tem sido feita exaustivamente nos bastidores do evento e que reverbera de hora em hora nos nossos ouvidos: “Quem o Allex pensa que é?”. A resposta dele é bem mais polida do que a minha: “Não sou dono de nenhuma verdade que não seja a minha e respeito toda e qualquer opinião, favorável ou não aos meus pareceres. Fazemos tudo muito positivamente, com muito carinho e respeito pelas pessoas, porque sabemos da dificuldade que é participar de uma mostra, dos esforços hercúleos e do investimento financeiro que cada profissional injeta ali. Críticas destrutivas não me interessam, não fazem parte de mim – e não quero essa energia ruim de volta. Mas também não vale deixar de apontar eventuais equívocos, já que também somos difusores da arte e consideramos arquitetos grandes formadores de opinião – ou seja, uma ideia inadequada pode se alastrar feito erva daninha entre outros arquitetos, entre aspirantes a arquitetos e, muito pior, entre pessoas que não são formadas em arquitetura mas que seguem os ditames de quem está na vitrine posando de exemplo. Não dá para aceitar taxidermia, cópias vulgares, ambientes sintéticos e flores de plástico, por exemplo”, pondera Allex.

Mas não tem só o Allex. Tem a minha história (também comecei na Casa Vogue e desemboquei na direção da Modo de Vida, da Joyce Pascowitch); a da Ana Paula (outra jornalistona com anos de Casa Vogue e de KAZA); a da Giovanna (que antes daqui passou pela AU); a do Wair de Paula, uma das personas mais respeitadas do métier, que já foi dono de antiquário e galeria de arte referências. E a da Talita De Nardo, a outra metade da GIZ que, antes de ser tudo, inclusive publisher do projeto, é arquiteta.

Diferentemente de todas as outras “encarnações” editoriais (vidas passadas não movem moinhos – e olhamos para a frente, sempre), a GIZ é nossa. Quem comanda o negócio é um jornalista, diretor criativo, e escritor super do bem, dos mais queridos do mercado justamente por nunca fazer de conta ser aquilo que não é, generoso (ele ajuda todo mundo, seja com um palpite, seja com a mão na massa mesmo), mas que também tem envergadura para apontar pisadas na jaca de ordem ética ou estética, mesmo quando cometidas por alguns dos mais intocáveis do setor.

GIZ_Ricardo B Dias_Casa Cor SP 2017

O pensamento crítico pode se manifestar de diversas maneiras. Logo na entrada da Casa Cor, por exemplo, a instalação do arquiteto Ricardo Bello Dias evoca ideias do escritor Italo Calvino (1923-1985), um dos principais nomes da resistência italiana contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Em suas “Seis Propostas para o Próximo Milênio”, Calvino reflete sobre o fazer literário. “Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão”, “Visibilidade” e “Multiplicidade” são cinco conferências que ele havia preparado para a Universidade de Harvard e que, devido à sua morte súbita, nunca foram proferidas. O objetivo em vista: dedicar estas conferências a alguns valores, qualidades ou especificidades da literatura que lhe eram estimados. São também cinco das qualidades da escrita (uma sexta, a “Consistência”, seria o tema da última conferência, jamais escrita) que Calvino teria desejado transmitir à humanidade do próximo milênio.

Assim como o estilista mimado, que quase morreu engasgado com os elogios de boca própria, os melindrados podem espernear avontz nos bastidores. Podem gritar, podem chorar, podem xingar, podem fazer bonequinho de vodu com nossas fotos (tem várias lindas lá no Decornauta!). Podem até ligar para o amigo-prefeito João Doria e pedir pra ele apagar nossas críticas (risos). Quem quiser, pode também substituir a crítica por uma receita de bolo. Seguiremos em frente porque acreditamos e sabemos – por experiência, tentativa, erros e acertos – que se trata de uma etapa saudável e fundamental em qualquer processo de criação. A opinião é nossa e você pode não concordar com ela (como discordamos, tantas vezes, entre nós mesmos). Mas, nos qualificamos para escrever o que escrevemos: nosso trabalho diário, há décadas, é (in)formar opiniões. Somos, por exemplo, contra o uso de chifres, taxidermias e atrocidades que tais, mas não porque seguimos uma filosofia de vida alheia ao mundo. Ao contrário. Conhecimento é empoderamento: em veto firmado pelo Ibama, o artigo 29 da lei 9605/28 estabelece formas de controle sobre a posse e circulação de peças elaboradas com partes de corpos de animais silvestres. Não vai demorar até que as novas gerações abandonem por completo esse tipo de prática: a vida como a conhecemos é um fenômeno raro no universo e não deve, nunca, estar condicionada a um certificado de papel que garante sua exploração para fins estéticos. O documento legal não torna sua escolha inteligente – apenas torna sua escolha legalizada (tão legalizada quanto a violência contra homossexuais e mulheres em determinados países ou, para descer um pouco mais a ladeira da memória, tão legalizada quanto foi a escravidão ou o nazismo). Ser legal, nesses casos, pode não ser legal.

Alô, alô, planeta décor: a imprensa é livre! Se você acha que sempre está certo sem nunca consultar qualquer base que não esteja vivendo dentro dessa caixinha onde você, só você e mais ninguém dita as regras, então como exatamente você garante estar certo? Você não garante. E fica um vazio. O texto crítico preenche essa lacuna e força o pensamento de quem cria em novas direções. Ouvir é preciso. Ler é fundamental.

Somos autoconscientes e, portanto, devemos total respeito à toda forma de vida. Entendemos a carga afetiva que uma taxidermia possa vir a ter em sua trajetória, sendo ela uma herança de algum antepassado que caçava para se alimentar e piriri e pororó, mas, vamos falar sobre o dia depois de amanhã: é esse tipo de noção pré-científica que você quer transmitir às próximas gerações? Toda forma de vida no planeta Terra compartilha a mesma origem evolutiva – somos retalhos de uma colcha que ainda não está completamente tramada. A cada recurso não-renovável utilizado, a cada gesto de soberania desmedida, a cada fio arrancado a força, enfraquecemos mais o tecido da existência. Por isso, nós criticamos duramente o uso de determinados recursos. E isso é apenas um entre tantos casos que poderíamos citar aqui e que fervilham no caldeirão que é o nosso pensamento crítico. Tomem como exemplo o cinema brasileiro: sem a crítica especializada, a indústria nacional estaria totalmente depreciada, em um looping sem-fim de chanchadas.

A crítica busca desenhar uma ponte entre a expectativa e a realidade, e se propõe, também, a sugerir outros caminhos, alternativas que podem ser mais dignas, melhores – para todos. Devemos questionar, sempre: é um fundamento básico do pensamento científico. A crítica é uma janela que se abre ao questionamento, um exercício mais que saudável.

Quem critica sempre tem algo a acrescentar que, certamente, será mais construtivo do que a adulação daqueles que constam em sua folha de pagamento e/ou têm o rabo preso à qualquer interesse que seja. Alô, alô, planeta décor: a imprensa é livre! Exatamente por isso toda crítica é fortalecedora. Oras, se você acha que sempre está certo sem nunca consultar qualquer base que não esteja vivendo dentro dessa caixinha onde você, só você e mais ninguém dita as regras, então como exatamente você garante estar certo? A verdade é curta, simples e pode ser inconveniente aos que vivem de conveniências: você não garante. E fica um vazio. O texto crítico preenche essa lacuna e força o pensamento de quem cria em novas direções. Ouvir é preciso. Ler é fundamental.

Na arquitetura, no design e na decoração, isso é ainda mais embrionário. Em uma linha do tempo do jornalismo brasileiro, o mercado editorial para essa cobertura específica existe há poucas décadas, período no qual não soube e/ou não pretendeu assumir uma postura crítica. O resultado? O arquiteto, que muitas vezes já é envaidecido pela própria natureza grandiosa de seu ofício (abrigar a vida humana e seus fluxos), rejeita a crítica pelo fato de considerar sua obra soberana. A escala com que lida a arquitetura também pode, facilmente, gerar essa ilusão de grandeza. Mas, trocando em miúdos, seria como abrir as portas de um restaurante e não tolerar críticas acerca do sabor dos pratos. O paladar do crítico gastronômico é mais apurado pelo treino, sem que ele saiba necessariamente cozinhar, sem precisar de um diploma da Cordon Bleu; assim como o nosso olhar é mais exigente, também pela prática. Temos o conhecimento do exercício diário do jornalismo e da pesquisa incansável daquilo que é feito por todos, buscando um olhar mais panorâmico mesmo, compartilhando esses saberes acumulados em um outro nível de profundidade”, finaliza o Allex.

Não estamos na Roma Antiga e nem em 1967. É 2017 e o nosso apetite por conteúdo é voraz. Você já sabe onde vai encontrar o próximo bolo de cenoura, e não é aqui. Então, só resta a pergunta: você tem fome de quê?

GIZ_Leo Romano_Casa Cor SP 2017

A “Casa Brasil”, de Leo Romano, propõe uma crítica no nível artístico/estético: sobre a mesa, em vez de pratos e alimentos convencionais, Leo aciona obras da artista plástica Iêda Jardim, que encapsulou moedas de diversos países do mundo para falar sobre a ganância humana. É como se Romano perguntasse aos comensais: “E aí, vocês têm fome de quê?”. A gente aqui, Leo, tem fome de conhecimento! Foto: Salvador Cordaro/Casa Cor

André Rodrigues (@r_andreh) é diretor de redação da GIZ, atuou como editor das revistas mag!, Modo de Vida por Joyce Pascowitch, KAZA e três títulos L’Officiel no Brasil (moda, Hommes e Voyage), além de somar colaborações para Elle, Vogue e Casa Vogue, entre outras revistas do segmento. É o criador do projeto editorial do portal FFW, no qual também atuou como editor-chefe e crítico de moda.

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