Sérvulo Esmeraldo (1929-2017): Cynthia Garcia em tributo a um dos artistas mais importantes do Brasil

A jornalista Cynthia Garcia relembra a trajetória de Sérvulo Esmeraldo (1929-2017) – um dos mais expressivos do panorama brasileiro

  • 9 fevereiro 2017
  • Por:Cynthia Garcia

Em 1957, ao ganhar uma bolsa de estudos de artes plásticas do governo francês, o cearense Sérvulo Esmeraldo (1929-2017), que sempre pensou sua arte como a substituição da operação lógica pela invenção poética e sonhava viver dela, embarcou para a Europa, onde morou em Paris e na Suíça até 1980, firmando seu nome nas artes plásticas internacionais. Quatro anos depois tive a honra de conhecê-lo e sua mulher e musa, Dodora Guimarães, nossa Nefertiti do Acre e das Artes, devotada à obra do companheiro do Crato. Ao voltar, Sérvulo trocou o frio pelo sol, o Citroën pelo buggy, o manteau pela camiseta, a calça pela bermuda.

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Retrato de Sérvulo Esmeraldo (1929-2017)

Fincou suas raízes em seu amado estado natal para se estabelecer como um dos notáveis no panorama da arte brasileira. Seus Excitáveis, para citar apenas uma fase, são tão significativos quanto os Parangolés de Oiticica, os Bichos de Lygia Clark e os Cinecromáticos de Palatnik. Só o perímetro urbano da capital cearense exibe cerca de 40 obras públicas assinadas por ele, incluindo a escultura na Praia de Iracema, com mais de 40 metros lineares, um dos maiores monumentos modernos do País.

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Sérvulo Esmeraldo, Prisma (relevo plano), 2001, aço trefilado pintado, preto, 258,5 x 150 cm. Foto Gentil Barreira. Cortesia Instituto Sérvulo Esmeraldo

Sua obra se encontra em coleções privadas de peso na França, Itália, Suíça, Suécia, Alemanha, nos Estados Unidos e no Brasil. Faz parte, entre outros, dos acervos da Pinacoteca, do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e do Museu de Arte de Curitiba. No exterior, para citar alguns, está presente no Espaço de Arte Concreta, em Mouans-Sartoux, França, no Museu de Arte do Chile, em Santiago, e nas mais importantes instituições norte-americanas especializadas em arte latino-americana: o Museu de Arte de Cincinnati (Ohio) e o Museu de Arte de Houston (Texas).

Sérvulo é adulado pela intelectualidade latino americana e se tornou referência estética e teórica de inúmeros artistas contemporâneos.

De uma gentileza sem fim, esse grand seigneur, dono de invejável currículo e de impecável linguajar em português e francês, era senhorio de humor fino, amo de ágil ironia, sábio da cultura popular à erudita e detentor de um raciocínio lúdico imantado em sua extensa obra. Artista estelar, humanista singular, estimulou nossa sensibilidade ao presentear o olhar com sua obra afiada, elegante. Faleceu em Fortaleza no primeiro dia do mês às vésperas de completar 88 anos em 27 de fevereiro, deixando Dodora e as filhas Luana, Sabrina e Camila. Nos EUA, sua obra é representada pela Sicardi Gallery, em Houston, na França pela Galerie Denise René, em Paris, e no Brasil pela Galeria Raquel Arnaud, em São Paulo, e a Pinakotheque, no Rio e em Fortaleza.

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Sérvulo Esmeraldo, Prisma, 2015, aço corten, pintado de verde místico, 61 x 67 x 90,5 cm. Foto Gentil Barreira. Cortesia Instituto Sérvulo Esmeraldo

Nas muitas  homenagens prestadas a ele, ressalta Dodora: “Tem sido divulgado que a última exposição que Sérvulo fez foi na sua cidade natal do Crato. Não, não foi, essa foi a penúltima. A última aconteceu na Basiléia, Suíça, de 29 de novembro a 16 de dezembro de 2016, na casa Beurret & Bailly. Foi uma retrospectiva de 80 peças criadas por ele de 1957 a 1975, quando ainda vivia na Europa. Haviam pinturas, obras cinéticas, gravuras, esculturas – foi emocionante”.

Assim como as obras de Lygia Clark, Oiticica e Palatnik, o trabalho de Sérvulo Esmeraldo é de amplo espectro e muito bem sucedido nas inúmeras experiências em vários suportes e materiais nos quais se aventurou. “Artistas como ele não deveriam ser explicados apenas por um período da produção”, pontua ela. No entanto, como muitas linhas “confusas” foram escritas sobre os Excitáveis nos últimas dias, Dodora me lembrou de uma entrevista que fiz em Fortaleza no atelier-casa (nessa ordem) do casal. Foi a última vez em que meu filho Pedro e eu nos hospedamos no aconchego daquele universo tão especial, com a melhor conversa do mundo, brisa de mar, carinho, amizade e um chuveiro único: uma sala de banho misto de viveiro de plantas sem teto, sem telhado, apenas o céu cearense!

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Sérvulo Esmeraldo, Prismas, 1981-2015, Aço corten, pintado, vermelho nobre, face quadrado preto, – 87 x 145 x 42,5 cm, II – 107 x 185 x 42,5 cm. Foto Gentil Barreira. Cortesia Instituto Sérvulo Esmeraldo

Baseado nas pesquisas da eletricidade, o Excitavel é a união do lúdico com a ciência.  Composta de 250 obras, esta série pioneira da arte cinética é feita a partir de materiais simples como madeira, papel, linha e o acrílico, com a função dupla de revestir a caixa e produzir cargas eletrostáticas. Com dimensões variáveis de 10 cm x 10 cm a 100 cm x 140 cm, o interior da caixa compreende hastes, fios ou confetes que oscilam e interagem conforme o movimento do observador. Um de seus últimos Excitáveis, batizado To Spin, Span, Spun, foi produzido pela galeria carioca Pinakotheque em edição limitada de dez para a 6ª edição da SP-Arte, em 2010.

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Sérvulo Esmeraldo, Torção cônica (tridimensional), 2015, aço trefilado, pintado de preto, com chapa nas 2 extremidades pintadas (vermelho e azul), Medidas: 250 x 50 x 50 cm. Foto Gentil Barreira. Cortesia Instituto Sérvulo Esmeraldo

Segue a entrevista feita, em Fortaleza, na casa de Sérvulo e Dodora após um gostoso jantar de salada e carne de sol feito por ela. Na época, ele acabara de expor no museu da capital francesa conhecido como La MEP (Maison Européenne de la Photographie), dirigido por nosso amigo, Jean-Luc Monterosso (a quem já entrevistei), fã de sua obra e do Brasil, com curadoria do historiador Jean-Luc Soret, e providencial ajuda de sua filha Sabrina, restauradora e conservadora de fotografias, que vive em Paris.

A série de Excitáveis compreende quantas obras e em que período foi produzida?
Os primeiros Excitables datam de 1966/67. Do período europeu os últimos datam de 1979. No Brasil, voltei a pensar e a produzir algumas obras do gênero a partir de 1999.

Como você nomeia a série? Excitável I, II, etc.?
Os Excitables não têm títulos. Mas todos são registrados com a indicação de “E” de excitável, 00N (número de série) e data. Ex: E0078.

E como surgiu a ideia?
Recebi um convite para participar da 1ª Exposição do livro Objeto de Nice, em 1966. Escolhi três poemas: um de Apollinaire, outro de Pablo Neruda e Anunciação de Vinícius de Moraes. Para o poema de Vinícius, recordei uma brincadeira de infância que consistia em atrair partículas de papel com um pente eletrificado. Toda vez que eu viajava de avião, observava como os materiais se comportavam em uma atmosfera de baixa umidade. Com isso em mente, voltei-me para a pesquisa da eletricidade estática e, assim, nasceu o Excitable, assim em francês, já que nasceu na França. Os primeiros eram feitos de pequenas bandejas de alimento de supermercado revestidas com filme plástico transparente, alguns destes exemplares foram expostos na MEP, em Paris.

Sérvulo, afinal o que é o Excitável?
O Excitável é um híbrido entre o brinquedo e a arte, entre a pintura e o objeto, que reage com a participação do espectador. Todos ficam surpresos com a reação dessa obra. O Excitável é antes de tudo um quadro, embora seja, inegavelmente, também uma máquina eletrostática de modelo muito simples. São experiências para verificar os materiais e o seu comportamento. Sua magia é contagiante.

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Sérvulo Esmeraldo, E0702, 2007, madeira pintada, acrílico, papel, alfinete de metal, linha de algodão e papel cartão, 54,7 x 64,5 x 5,7 cm. Foto Gentil Barreira. Cortesia Instituto Sérvulo Esmeraldo

Em tempo, hoje, antes de enviar essas linhas ao nosso diretor Allex Colontonio, querido Sérvulo, lá de cima, me levou a esse texto, arquivado no meu Mac, de seu próprio punho nos tempos da França:

“… Aparentemente estáticos, estes quadros são, como tudo na natureza, fervilhantes de vida. Não apenas no nível da matéria . Refiro-me sobretudo ao poder infinito das cargas elétricas que provocam, dando-lhes movimento e mistério. As cargas desprendidas que afloram e desaparecem, anulando-se e modificando a estrutura da composição. As cargas acomodam-se na superfície isolante do plexiglass. Às vezes, eles se agitam sem nenhum estímulo aparente. Movimentam-se. A composição se modifica acusando novas condições atmosféricas. Nos aproximamos deles, bem perto e com as pontas dos dedos, tateamos sua superfície, sentimos sua fluidez. Eu os chamo de ‘Excitáveis’.”
Assinado: Sérvulo Esmeraldo, Neuilly-Plaisance, 1970.

GALERIA RAQUEL ARNAUD

INSTITUTO DE ARTE CONTEMPORÂNEA (IAC)

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