27ª Casa Cor RJ: Entre boas ideias, espaços mais conscientes, equilíbrio, contenção, pé no chão e soluções batutas, a melhor lição que fica vem do bom e velho clichê “a união faz a força”

No Rio de Janeiro, mais do que nunca, os fracos não têm vez. E a corajosa edição da Casa Cor 2017, que começa hoje e vai até 30 de novembro, sobe ao topo de um dos neo-arranha-céus mais poderosos do País – único projeto do inglês Norman Foster no Brasil – para mostrar que, com vontade, criatividade e, principalmente, novos formatos – dá para seguir adiante

  • 24 outubro 2017

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Dizem as más línguas que o Rio tá quebrado – mas que ele continua lindo, ah, isso continua. O encosto que conjurou na Cidade Maravilhosa tá duro de desaquendar: depois de amargar escândalos como envolvimento governamental com propina em desvio de verba para grandes obras públicas, a população do Estado vem enfrentando seus dias mais nebulosos no que diz respeito à segurança, saúde e afins. A retração no consumo e a queda do valor do barril de petróleo no cenário mundial colaboraram, neste contexto já desmoralizado, para cavar um buraco ainda mais fundo. A polícia com recursos vexatórios – paralelamente às intervenções das Forças Armadas e à belicosa política antidrogas intensificada com truculência – pulsa em letras garrafais a elevação dos índices de criminalidade recordista em números de mortes violentas nos últimos anos. Em meio a balas perdidas em uma via que opõe pacificação e confronto, a população é atingida, ainda, pelo desemprego crescente que já chega a mais de 15% da parcela economicamente ativa (1,3 milhão de pessoas), enquanto outros milhares de servidores públicos e pensionistas seguem sem receber os salários atrasados. O sucateamento de universidades e hospitais, sustentados às custas dos esforços já pessoais de quem se comprometeu com a entrega de serviços básicos à população, é apenas uma das consequências.

Os primeiros triscos da luz no fim do túnel despontam na forma do Regime de Recuperação Fiscal assinado com o Governo Federal e, mais recentemente, com a autorização por parte do Conselho Monetário Nacional de buscar crédito com instituições financeiras até o fim deste ano.

Todo esse intróito fatalista para fazer você entender que realizar qualquer coisa no Rio, hoje, não é para os fracos. Ardendo um inferno astral de lascar, a economia por lá rebola mais do que o contingente popozudo dos bailes funk – ouvi dizer até que estrelas da música pop que estão na boca do povo e esgotam a bilheteria de qualquer casa de espetáculos com capacidade para mais de 2 mil pagantes andaram baixando o cachê dras-ti-ca-men-te esse ano, sobretudo na Cidade Maravilhosa – uma certa diva que não saía de casa por menos de 400 mil pratas em 2015 anda se apresentando por “módicos” 100 mil temers, enquanto, paradoxalmente, sua popularidade só faz crescer.

Se não tá fácil pra ninguém, no negócio da construção civil, então, as notas andam mais dissonantes. “Estamos quase fechando nossa operação no Rio e focando no mercado paulista”, comentou, em off, uma arquiteta próxima que já enxugou seu escritório em 30% nos últimos meses. Outro colega confidenciou ter mais de seis projetos “embargados” pelas mais exóticas circunstâncias. “Alguns clientes faliram, outros estão com medo de falir, e há aqueles que foram ‘tornozelados’ pela Lava-Jato”, brinca. Ledo engano: lamento informá-los que, na minha seca e cimentada Sampa, coitada, que nem lambida pela enseada é, o mar também não está para peixe. O segredo é não esmorecer e tirar, com cuidado, um pé da jaca sem enfiar o outro na lama.

A boa notícia é que o carioca, como todo bom brasileiro, não desiste nunca, não espera sentado, arregaça as mangas da camisa e as barras das calças, vai à luta e surpreende pela bossa e criatividade. E, no final das contas, não há crise que ofusque o Rio. Para muito além da natureza apoteótica, o valor arquitetônico da urbe é notável desde outros carnavais, começando pelo casario pós-colonial que despenca das montanhas em cascata, pelo Art Déco do Lido até o apogeu da sinuosidade Niemeyriana. Como novidade, margeando uma das topografias mais cantadas do planeta, do Leme ao Pontal a metrópole vai se turbinando com portentosos prédios gringos que vão brotando – do lagostão de Calatrava no Museu do Amanhã ao Museu da Imagem e do Som, de Diller Scofidio + Renfro, passando pela espinha de peixe de Zaha Hadid (o meu futuro mais novo edifício predileto, que ainda não está pronto, mas que já arranca suspiros).

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Patricia Quentel e Patricia Mayer, que, embora chiquérrimas, estão mais para gladiadoras de aço do que para Patricinhas de Berverly Hills, decidiram desta vez hospedar o evento num desses empreendimentos catárticos, o Edifício Aqwa Corporate, assinado pelo escritório Foster + Partners, capitaneado pelo legendário arquiteto inglês Norman Foster, 82 anos e 800 prêmios na estante, incluindo o Pritzker Prize, Oscar da Arquitetura.

Não que a gente não esperasse originalidade delas. Primeiríssima franquia da grife Casa Cor, a edição carioca, tocada desde sempre (leia-se 1991) pelas Patys-fighters, chega ao seu 27º verão acumulando receptáculos sui generis. Já se apropriou de casarão histórico com cotias e pacas no quintal (para delírio deste grandalhão que não pode ver um bicho fofo que já sai correndo atrás), de condomínio de luxo, de edifícios, de palacetes, de hotéis e de shopping centers. Desta vez, na minha mais modesta opinião, abarca seu coté mais modernex (e, simultaneamente, pé no chão, em tempos de contenção em que parcerias são vitais).

Erigido como um monolito moderníssimo que vai atingindo a forma diagonal à medida em que quase alcança a estratosfera com seus 21 andares a 85 metros do chão, o prédio de aço e vidro – inclinado para se reduzir a incidência solar causticante em até 60% – descortina a vista em 360 graus. Dá pra ver a Guanabara, o Cristo Redentor, a Favela da Gamboa e afins (o que garante um espetáculo visual vivo em cada vitrine proposta pelos 71 profissionais que ocupam cerca de 10 mil metros quadrados do empreendimento, em 42 ambientes).

Construído a um custo estimado de 800 milhões de reais, cravado na ainda quase fantasma zona portuária do Rio, o Aqwa já nasce com status de marco – urbanisticamente revitalizado por conta das Olimpíadas, mas com 90% de ocupação disponível, ganhou uma série de incentivos fiscais para estimular negócios na área de inovação e anda meio micado, mas tem tudo para crescer, aparecer e acontecer nos próximos anos.

“O porto do Rio foi pensado para ser um mix de trabalho, moradia e cultura e, na sua missão de ser o reflexo da ocupação urbana da cidade e estilo de vida de seus moradores, a Casa Cor Rio 2017 valoriza o movimento de revitalização da Zona Portuária que se iniciou há sete anos, a exemplo do que já aconteceu em grandes metrópoles mundo afora”, diz Patricia Mayer.

A estrutura do edifício com circulações descarnadas, revelando a rigidez dos materiais, propõe um passeio meio work in progress, com os projetos operando tipo caixas de joias. “Quando a incorporadora do Aqwa [Tishman Speyer] nos convidou para sediar a Casa Cor, queriam enaltecer o uso corporativo do edifício. Em duas reuniões, os convenci do contrário. A Casa Cor fala do morar. Trazer o pensamento do morar para dentro de um projeto corporativo é muito importante, até porque a região portuária do Rio precisa disso. As pessoas precisam entender que é possível morar no Porto. Aqui tem mobilidade urbana, bares, lugares que estão sendo vivenciados pela garotada. A Casa Cor vir pra cá é uma forma de desmistificar esse lado ‘podrão’ do Porto. Isso é o Rio: vivemos juntos e misturados o tempo todo”, me contou a Patricia Quentel.

Foto: Mario-Grisolli/Divulgação

Foto: Mario-Grisolli/Divulgação

E tem ainda o lance da democratização, que começa a sair do discurso. “Ocupamos quatro andares do prédio – um deles é o térreo, que deveria ser um espaço friendly. Pela primeira vez, as pessoas vão poder degustar a Casa Cor Rio sem precisar pagar. Estamos mostrando que é possível viver bem na região portuária. A estética mais industrial que assumimos [tubulações à mostra, concreto aparente etc] tem tudo a ver com o Porto, que é composto por balcões e fábricas antigas”, arremata.

Entre boas ideias, espaços mais conscientes, equilíbrio, contenção, pé no chão e soluções batutas que se encaixam perfeitamente no tema proposto pela mostra esse ano (“Foco no Essencial”), a melhor lição que fica vem do bom e velho clichê “a união faz a força”. Explico: para viabilizar sua participação e expor seu trabalho, escritórios independentes se uniram em parcerias inéditas. André Piva se juntou a Vanessa Borges; Bianca da Hora uniu forças com Jacira Pinheiro; Paula Neder encontrou Nando Grabowsky; Caco Borges projetou com Mauricio Prochnik; Claudia Pimenta com Patricia Franco; Fabio Bouillet e Rodrigo Jorge fizeram dobradinha com Rodrigo Portual e Karyne Lima. Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto…

Casa Cor Rio de Janeiro 2017
Período: de 24 de outubro a 30 de novembro de 2017/de terça a domingo, das 12h às 21h
Local: AQWA Corporate – Via Binário do Porto, 299, Porto Maravilha. T (21) 2512 2411/964 322 494
casacor.abril.com.br/mostras/rio-de-janeiro | @casacorrio_oficial