Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

A rosa púrpura do Calio: por fora toda branca, morada-escritório do arquiteto e designer de interiores não teme os tons arroxeados

Colorista destemido da aquarela brasiliana do décor, Francisco Calio borrifa matizes lilases na nova encarnação do seu retiro paulistano. Um grande cubo modernista que é palco de festanças, gossips, superproduções e carrega uma divertidíssima pimenta mediterrânea como bandeira de um lifestyle despojado, bem resolvido e erotizado – sem deferir a moral e os bons costumes de ninguém

  • 18 outubro 2017

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A Vila Madalena, logradouro oficial da neo-boemia paulistana, nunca esteve tão sossegada quanto naquela manhã ensolarada de sábado. Olho para cima e reconheço algumas maritacas barulhentas que vão beliscar o mamão nosso de cada dia na minha varanda. Apesar da ligeira ciumeira, não é de se estranhar a debandada dos passarinhos que considero praticamente meus pets de estimação: apenas uma ladeira curta separa o meu apê da casa do nosso personagem – sim, somos vizinhos desses que, além de ouvir o gorjeio das mesmas aves, se trombam na quitanda de vez em quando. E é sempre constrangedor. Do meu carrinho de gordo metido à Dona Benta sempre transbordam pilhas voluptuosas de manteiga, farinha de trigo, açúcar de confeiteiro, chocolate e outras ogivas calóricas que só de mencionar já fazem o meu índice glicêmico romper a ionosfera (de saudável mesmo, só o papaia das jandaias).

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Francisco Calio com Floco; sob a escada, escultura de madeira da Mônica Cintra

Já na cestinha minimal-fitness-good-life dele só entram frutas, verduras, aveia e, no máximo, um peito de frango bem magrinho, daqueles sem hormônio. Não à toa, o sujeito que atende à porta está de barriga trincada, com seus relevos aparentes na camisa polo Ralph Lauren roxa, justíssima no corpo. Paulista de Ariranha (cidade de pouco menos de 10 mil habitantes nas cercanias de São José de Rio Preto), Francisco Calio tem inacreditáveis 60 anos (que alguns colegas juram, de pés juntos, que são 64). Seja qual for, ele aparenta, por baixo, uns quinze a menos. “E é tudo natural, baby. Só fiz nariz, pálpebra e nada mais. O resto é muita dieta alimentar e ralação”, conta orgulhoso diante do meu olhar desconfiado.

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Recorte do estar, que leva par de poltronas Micasa; tapete By Kamy. luminária e pendentes, Dimlux; quadros das galerias Arte Própria e Moldura Minuto e cadeiras da mesa Softshell, Vitra, Micasa

O casarão branco de muros altíssimos feito fortaleza se encaixa na esquina toda e se abre em duas faces. Numa delas, funciona seu escritório, como pregava a logística dos profissionais liberais de antigamente, fosse o dentista ou o alfaiate. Na outra, está a entrada social e, ao lado, a garagem. Olhando da rua, é tudo branco. Calio cálido? Ledo engano. Porta adentro, cores pontuais fazem uma sinfonia harmônica coreografada sobre as bases neutras. A última encarnação, tinindo de nova, faz bom uso dos matizes de roxo, uma das cores mais temidas do high décor, mas que o cara sabe domesticar como poucos. “É o meu tom preferido.” O arquiteto que nem é arquiteto formou-se em psicologia antes de estudar design de interiores, história da arte e um punhado de outras cadeiras que validariam algo ainda mais essencial em seu ofício: radiografar a vida alheia e materializá-la em espaços físicos feitos para abraçar, sonhar, produzir, se inspirar.

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Retrato de Francisco Calio

Foi assim que, três décadas atrás, começou a ganhar prestígio e a escrever seu nome entre os dos grandes decoradores. Ganhou prêmios, emplacou mostras badaladíssimas e chegou a entregar mais de 100 projetos por ano. E justiça seja feita: embora pouco se comente, Calio foi pioneiro em muitas técnicas decorex por essas bandas – nos insights mais moderninhos do começo dos anos 1990, na mistura pontual de cores pronunciadas, na introdução de elementos divertidos, como toy art e objetos de plástico, na retomada do retrô, na sobreposição de quadros, entre outros maneirismos que ele não inventou, mas que começou a bolar bem antes dos modismos entrarem na ordem do dia. Tudo registrado nos dois livros que publicou, o segundo deles, em 2012, pela Ciranda Cultural. Talvez por isso o homem que torneia os músculos na academia diariamente (inclusive sábados, domingos e feriados) tenha tanta segurança em proclamar a idade, na contramão dos estetas de sua tribo. “Tem arquitetos que eu via bem crescidinhos na finada revista Viver Bem quando ainda estava na faculdade, quarenta anos atrás. Hoje eu tenho 60 anos e eles ainda nem completaram 50”, alfineta com seu característico humor ácido (o mesmo que faz chiste com o meu sobrepeso quando ele me flagra compondo a minha “cesta básica” no empório da esquina).

“Tem arquitetos que eu via bem crescidinhos na finada revista Viver Bem quando ainda estava na faculdade, quarenta anos atrás. Hoje eu tenho 60 anos e eles ainda nem completaram 50”

A essa altura, Calio já está recebendo a equipe da GIZ no segundo dos quatro pavilhões de sua morada-escritório (que se acessa por uma “passagem secreta”, sem que um interfira no ritmo do outro). Ali fica o hall de entrada que também opera como home-theater. À esquerda, a charmosa sala de jantar, conectada à cozinha; e, à direita, a suíte principal, com closet. Um lance de escadas acima e encontramos um lounge desses de cinema, milimetricamente esculpido para receber, deitar e rolar, todo avarandado no melhor estilo mediterrâneo, como o convés de um navio de muitos pés. A varanda desemboca numa espaçosa área de churrasco e, para os dias de maior ferveção – ele recebe muito por lá –, há uma imenso solário na cobertura. “Sou baladeiro mesmo. Isso vem da minha família italiana, que tocava sanfona em cantorias que varavam a madrugada. Como estou num bairro jovem e alto astral, não tenho problemas com vizinhos. Evento aqui reúne 100 pessoas fácil, fácil, com DJ e tudo o mais”, conta enquanto estoura uma garrafa de Dom Pérignon e tagarela sobre sua paixão por receber e cozinhar. “Herdei da minha mãe tanto o gosto pela boa gastronomia quanto algumas receitas fantásticas.” E, inevitavelmente, chora de saudades da dona Genoveva, nome que homenageia a Santa Padroeira de Paris.

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Living com estofado e mesa redonda, ambas desenho Calio; ao fundo, gravura Amilcar de Castro

Calio, cujos pais eram donos de uma fábrica de móveis, comprou a residência dez anos atrás, de um médico que conjugava casa+consultório no mesmo CEP, tal e qual ele imaginou para si. Reconfigurou a arquitetura totalmente, desenhando cada escada, eliminando todas as paredes e rabiscando cada fenda e círculo que dão a pausa nas linhas retas dominantes. O look muda constantemente: já foi concretista, p&b, óptico e agora ganhou o lilás como fio condutor. Na receita de Calio (um dos primeiros clientes da Micasa, por exemplo), o design assinado é ponto de partida. Peças como a poltrona Florence Knoll em couro lilás, a mesa de centro de Jader Almeida, as poltronas de Fabricio Laser, luminárias Flos e o abajur-coelho do estúdio holandês Front para a Moooi, se unem à cadeira fabulosa que resgatou de uma caçamba mais de duas décadas atrás. Pelas paredes ou sobre o piso de madeira de demolição, muitas obras gráficas. Tem Hércules Barsotti, Amilcar de Castro, Andrey Neto e por aí vai.

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Registros da ala externa

Amigo de infância de grandes artistas plásticos, como Paulo Pasta e Luiz Rodrigues Lopreto, Calio também contratou Arthur De Camargo, o mesmo tatuador que riscou uma asa junto ao refrão beatlemaníaco “All we need is love” entre suas costelas esquerdas, para fazer uma pintura artística na cabeceira de sua cama.

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Dormitório com tattoo de parede by Arthur de Camargo, abajur Dimlux e roupa de cama da Trousseau

Nesse climão meio Eros, as visitas do bem também são uma constante por lá. Quem deu o ar da graça e deixou nossa produção ainda mais lúdica foi o Floco, pastor suíço com cara de lobo albino, da família Kamy, referência em tapetes, em bom gosto e em alto astral. “Faço questão de manter essa energia positiva vibrando à minha volta”, encerra. Saio de lá me sentindo mais saudável depois de almoçar arroz integral, salada de alface e uma deliciosa almôndega de frango orgânico. Quero levar as minhas maritacas de volta, mas elas insistem em ficar com o Calio – pelo menos até o mamão da manhã seguinte.

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Poltrona roxa, acervo Calio; quadro da Galeria Arte Própria; tapete Phenicia; e o cão Floco, da família Kamy, majestosamente registrado na escada que dá acesso ao pavimento superior

Francisco Calio
calio.com.br | @franciscocalio