Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

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Atriz Alice Braga protagoniza ensaio exclusivo de cadeiras para a revista GIZ

O dia em que a bela, inteligente, talentosa, internacional e indomável Alice Braga, atualmente a atriz brasileira mais bombada na gringa, posou para ensaio de cadeiras na GIZ

  • 27 março 2017

Com talento avassalador que cruzou o Atlântico feito um meteoro e carimbou um quase inatingível green card em Hollywood, até se tornar fetiche para toda sorte de publicações, Alice Braga é um dos orgulhos nacionais mais legítimos numa era de crepúsculos ufanistas, em que nosso filme quase tostou lá fora entre escândalos políticos e decapitações democráticas. Nascida em 15 de abril de 1983, em São Paulo, a “menina da Vila Madalena” deu de cara com a indústria do entretenimento na primeira infância. Cresceu em sets de filmagens com a mãe, a assistente de direção Ana Maria Braga (nada a ver com a loira e seu inseparável Louro José). O pai, o jornalista Nico Moraes, apoiava. E ela correu atrás. Contracenou com Wagner Moura (Cidade Baixa, 2005), Will Smith (Eu Sou a Lenda, 2007), Julianne Moore (Ensaio Sobre a Cegueira, 2008), Harrison Ford (Território Restrito, 2009), Adrien Brody (Predadores, 2010), Jude Law (Repo Men, 2010), Anthony Hopkins (O Ritual, 2011), Gael García Bernal (O Ardor, 2014) – só para citar alguns.

Abocanhou prêmios importantíssimos e teve um número incontável de indicações nesta e em outras terras. É também a segunda brasileira (a primeira é a pouco falada Morena Baccarin, no ar em Gotham) a protagonizar uma série de TV norte-americana: Queen of the South, onde interpreta uma chefe latina do tráfico nos EUA. Nas paralelas, é uma das três cabeças por trás da Los Bragas, produtora bacanuda que toca ao lado da irmã e do cunhado. Alice nunca se debruçou à sombra da tia famosa que ajudou a pavimentar a estrada para ela (e para todos que viriam depois de O Beijo da Mulher-Aranha, longa de Hector Babenco que funcionou como coiote para a carreira de Sonia Braga passar facinho pela imigração, em 1985).

Conquistou, sozinha, seu lugar ao sol. E, duas semanas antes do Natal, apertamos o play numa operação de guerra para fotografá-la. A oferta para a nossa capa partiu de sua própria entourage e, mais do que instantaneamente, furamos a fila para eles. Apesar disso, as tratativas foram desgastantes, calcadas por lombadas, loopings, bifurcações, conflitos de interesses entre equipes e cancelamentos que, por muito pouco, não me causaram um AVC.

Tamanha foi a blindagem em torno da atriz, com mandos e desmandos impublicáveis que, no dia do shooting, esperava receber uma prima donna intratável. Errei feio. Poucos minutos depois, a Alice que desponta no estúdio reluz feito um raio de sol.

Veste blusa azul de alcinhas, uma pantalona fresh e rasteirinhas. Parece pronta para a foto: cabelos soltos, olhões expressivos, sorrisão farto. Linda, cativante, absolutamente easygoing. Cumprimenta um por um com beijinhos e me abraça como se fôssemos velhos amigos. Transita pelo backstage interessadíssima nos móveis (curadoria feita a partir das formas mais voluptuosas da história do desenho industrial, que compunham o moodboard “mobília para vestir”, conceito deste ensaio que se conecta ao tema Nenhuma Nudez Será Castigada). Reconhece algumas peças, quer saber sobre outras. “Essa é do Sergio Rodrigues, né? Amo! Aquela é do Philippe Starck?”.

Christian Gaul, uma das lentes mais incensadas da fotografia nacional, se senta na poltrona Cone Heart Chair e mostra a pose que imaginou para a capa. A entourage acha aquilo muito vulgar, que não tem nada a ver com ela. Todos contestam e o pseudo-veto é voto vencido. Ela comemora ao ver o take no monitor: “Wow! Diz que essa vai ser a capa, por favor?”. É claro que foi. “Na próxima encarnação, quero voltar pelo menos dez centímetros mais alta”, brinca enquanto a stylist tenta ajustar as barras de alguns vestidos. Alguém diz que não precisa de nem um milímetro a mais. Concordo: tal e qual a Marina Morena da canção do Caymmi, ela é linda com o que Deus lhe deu. Do alto de seus 1,63 metro, tem uma pele imaculada à prova de qualquer Fresnel ou high resolution, e um sorriso que desata qualquer nó. Olha sempre no olho da gente, sem desviar e sem fazer média. Inteligente e articulada, também é leve, zen. Aparenta ter menos de um porcento de gordura no corpo e cada músculo delineado escultoricamente reflete um estilo de vida saudável de alguém que se cuida de dentro pra fora e de fora pra dentro. Hora de fotografar na poltrona Bowl de Lina Bo Bardi. Alice corre descalça pelo estúdio: “Só aguento o saltão na hora da foto, fiz agachamento ontem e tá tudo dolorido”.

Como na Roma Antiga, àquela altura, a entourage e o crew de GIZ estão se digladiando na arena – ambos em busca da foto perfeita, cada qual com seus argumentos e paranauês. Alice, profissionalíssima, dá o melhor de si e estrela uma sequência espetacular de caras, bocas, dentes e músculos – ainda que em apenas quatro ou cinco das dezenas de móveis espetaculares que pinçamos a dedo para ela, e que a entourage vetou ao classificar como “catálogo de cadeirinhas”, apesar das negociações prévias. Alice posa para selfies com todo mundo. Se despede e agradece, diz que adorou e nos deixa, pontualmente, às 16h daquela terça-feira quente de dezembro, quatro dias antes da visita de Santa Claus. Não tive direito à entrevista cara-a-cara pré-acordada (ela responderia dias depois, por e-mail, via entourage) e 288 fotos das 301 clicadas foram sumariamente gongadas pela turma. Mas Alice, por si só, segura a onda e estampa essas páginas com graça, categoria e boas vibrações. O resto são miudezas.