Estrela da capa: apartamento dos diretores de GIZ estampa a front cover da Architektur & Wohnen, alcorão europeu do estilo

As texturas, as cores e as peças lúdicas assinadas por brasileiros que preenchem o cenário do “sonhar acordado” de Allex Colontonio e de André Rodrigues figuram na publicação alemã-referência como um modelo de morada vanguardista brasileira

  • Por:Cynthia Garcia
  • Foto:Christian Maldonado
  • 27 junho 2017
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Nas paredes, o tecido nórdico da Entreposto veste tanto a poltrona vintage de Jorge Zalszupin como os donos do pedaço, que posam com os coelhos Alice (branco) e Nippy

Estes amigos forever, mais fervidos, impossível. Allex Colontonio, quis o destino, é a estrela do jornalismo de design, arquitetura e decoração do Brasil, apesar do sonho inicial de ser repórter político ou de música; e o editor-chefe da revista, André Rodrigues, cursou Letras e enveredou pelo mesmo caminho depois de costurar carreira na moda. Essa exótica dupla A2, que tem como pets um par de coelhos (a Alice e o Nippy), compartilha há quase vinte anos um lifestyle que celebra a paixão por imagem, enaltece a boa arquitetura e festeja o bom design, em especial aquele com timbre made in Brazil. No apê de 200 metros quadrados dos anos 60 fincado na Vila Madalena, onde moram há dez anos, o ritmo é trepidante.

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Na estante da sala de estar, destaque para a coleção de cerâmicas Fornasetti e Jonathan Adler

“Temos a necessidade de renovar o visual porque é a bandeira do nosso trabalho, faz parte da nossa verdade”, fala Allex mencionando a curiosidade e a experimentação fincadas nos corações desses irrequietos. Seus faros certeiros e esforços sem limites vêm forjando o bom gosto dos antenados que leem a GIZ e todas as demais revistas da seara – de Casa Vogue à extinta Wish Casa, no caso do Allex, e da Modo de Vida a mag! e L’Officiel, no caso do André – onde ambos já imprimiram suas assinaturas sinônimas de estilo. “Somos muito amigos de alguns dos melhores profissionais do País, por isso eu seria incapaz de convidar um único arquiteto para projetar nossa casa – não por arrogância, mais pela saia-justa que provocaria”, diz Allex abrindo parênteses para admitir ter seguido algumas dicas de ouro de apenas três profissionais: Guilherme Torres, Ari Lyra e Aldi Flosi.

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A sala de jantar tem mesa Charles Eames, cadeiras Hans Wegner e lustres Tom Dixon

O resultado dessa hibridização doméstica, para quem como eu que conhece o Allex e o André, é um recorte das referências que povoam suas cabeças que pipocam de ideias e ideais. O mood é muito gráfico, colorido, autoral, étnico e vanguardista, mas principalmente very cool, very chic e, fundamental para ser feliz no lar, a cara de ambos. “Somos caixeiros-viajantes, gostamos de trazer coisas das nossas viagens, adoramos arte neoconcretista e design brasileiro. Não somos milionários, nem é um exercício de vaidade. O que fizemos foi validar nossa visão estética desse momento. Não há nada aqui que não saibamos a proveniência.

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Mistura de padrões em efeito óptico radical: a passadeira da By Kamy atravessa o social como uma passarela, com seus 14 metros. No chão, crânio cromado de Fernando Akasaka. Nas paredes, o tecido da Entreposto faz pano de fundo para a coleção de gravuras de Hércules Barsotti. Cadeira Jenette, dos Campana, Poeira

Mas não é uma coisa estática, o visual pode mudar de uma hora para outra, como já aconteceu muitas outras vezes”, assinala André, mais extravagante no vestir que no décor, o oposto de Allex, exuberante no décor, discreto no estilo pessoal. Na natureza, isso é o que se chama princípio da complementaridade. O vermelho chinês do batom Ruby Woo da Mac encarna todas as portas do apê e tinge toda a cozinha – paredes e equipamentos incluídos –, onde Allex reencarna after hours como piloto de fogão (de mão-cheia) nas disputadas confrarias que faz para sua tribo. Na dança das cores, o escarlate oriental das portas é atenuado pela discrição urbana do cinza grafite das paredes da parte íntima que matiza os dois quartos, o corredor e a sala de tevê dublê de hóspede.

 “Acreditamos que uma boa decoração precisa contar uma história. Esta casa fala da nossa, do prólogo ao epílogo”

É nela que o green finger boy André cultiva um pomar com jabuticabeira e outros frutos tropicais na sacada, em vasos assinados ou sky planters com orquídeas e plantas carnívoras que pendem do teto. Cada espaço, conectado por uma passarela gráfica de 14 metros que atravessa todo o social, é alinhavado por uma narrativa cenográfica bem amarrada, cheia de curiosas trouvailles (garimpo, em francês). O living exibe paredes inteiramente revestidas em tecido nórdico com desenhos que lembram runas (antigo alfabeto germânico) mas a sensação é a de entrar em um furoshiki, a milenar arte japonesa de embalar presentes em tecido.

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Foto de Yuri Seródio, banco prisma de Zanini de Zanine para a Mekal, vaso de Guilherme Wentz para a Decameron, mesa de acrílico da Érea

Por estar forrada no mesmo tecido étnico das paredes, a poltrona de Jorge Zalszupin, mimetizada no cenário, acrescenta tridimensionalidade teatral ao estar, que tem como prima-dona, o sofá Otto, capitonê de Guilherme Torres que domina a cena com seu gigantismo numa releitura de boudoir francês Art Nouveau. Na janela, o paisagismo de André já atinge o vizinho de cima e corta o barato dos curiosos. Perfiladas em uma prateleira baixa estão as coleções de cerâmica de Jonathan Adler e de Fornasetti com o icônico rosto da diva lírica Lina Cavalieri observando tudo que rola. Concentradas na sala de jantar veem-se as peças que serviram de ponto de partida da eclética coleção. Estão ali as cadeiras com shape tribalista CH24 Wishbone (1949) de Hans Wegner e a mesa Eiffel DSR (1948) do casal Eames.

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Móvel Bar Sotti, desenhado em corian, em parceria com Gui Torres, com execução do Estúdio Vitty, e as luminárias no mesmo material feitas com Rodrigo Almeida e executadas pela Infinita Surfaces. Na parede, parte da coleção de Hércules Barsotti

E algumas peças criadas pelo próprio Allex em coautoria com amigos designers famosos – como as luminárias em parceria com Rodrigo Almeida e o móvel-bar que desenhou com Guilherme Torres, ambos inspirados na arte de Hércules Barsotti (1914-2010), legendário colorista brasileiro que os meninos veneram – e colecionam – em suas paredes. Conhecido por revelar novos talentos brasileiros, Allex abre alas para gente jovem tanto nas revistas que assina quanto no décor de sua toca.

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Na sala de TV, os tapetes gráficos da By Kamy compõem as bases para o colorismo que faz a cabeça do duo. Livros de arte, arquitetura, design, música e gastronomia transbordam das prateleiras. Sofá Empório Vermeil, mantas Lu Home, mesas Decameron (centro) e Guilherme Torres para a NOS (lateral). Nas paredes, obras de Julio Plaza, Vasarely, Mavignier, Marton, Gustavo von Ha, Berezusky

Assim, clássicos de Flávio de Carvalho e Irmãos Campana dividem a cena com Rodrigo Almeida, Zanini, Sérgio J. Matos, Ana Neute, Guilherme Wentz, Brunno Jahara, e por aí vai. Diana Vreeland (1903-1989), lendária editora de moda, adoraria. Afinal, clichê aqui não entra. Por essas e outras, o apê em breve estampará as páginas da AD España, a versão ibérica da Architectural Digest, uma das balizadoras do mercado internacional de decoração e arquitetura. Mas antes, ei-lo aqui, como pedem as grandes despedidas. Au Revoir, meninos!

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A cozinha chapa-quente também ganhou passadeiras gráficas da By Kamy que correm pelo ladrilho vintage original do apê. Os armários foram revestidos com adesivos Fornasetti. Panelas Le Creuset se juntam a outros garimpos de estilo, como o baleiro retrô que virou porta-arroz/ feijão. O buffet é da Girona Design, a torneira DOC Chrome/Red, da Docol, a luminária é de Brunno Jahara. Destaque ainda para a fruteira de Gustavo Dias

* Cynthia Garcia é jornalista e historiadora de arte | cynthiagarcia@gmail.com | cynthiagarcia.biz