Casa própria: apê paulistano de Ari Lyra traz cores calmas, arte contemporânea e vanguarda de sobra

Mesclas de estilos usadas na casa do estrelado decorador Ari Lyra revelam a rica, diversificada e elegante personalidade do profissional

  • 22 fevereiro 2017

Os acordes estéticos de Ari Lyra compõem operetas afinadas – e inimitáveis – que o colocaram num lugar privilegiado do décor brasileiro. O  novo visual de seu apartamento paulistano é uma  ode ao estilo que é só dele – e de ninguém mais.

Em constante evolução, o apartamento paulistano de Ari Lyra já teve várias encarnações – a penúltima delas tingiu as paredes de verde, “mas eu acabei me cansando”, conta o profissional conhecido, entre outras facetas, pelo uso destemido da cor. Na versão atual, a tinta ainda fresca é uma espécie de nude – “na verdade é uma cor chamada ‘meia-calça’, da Suvinil” –, que reflete os novos tempos do decorador: contenção e calmaria. Se é que isso é possível no caso desse gaúcho irrequieto, colecionador da melhor arte contemporânea e mestre na difícil arte de mixar, sem notas dissonantes, diferentes épocas, estilos e referências em efeito retrovanguardista, como denunciam os pequenos acúmulos (de arte, de design, de livros e traquitanas) que se organizam em cantinhos cheios de estilo que dariam para preencher as páginas de uma revista inteira – ou melhor, de um art book em alguns volumes. Também é um festeiro que recebe como ninguém, “mas ultimamente ando preguiçoso para grandes jantares”, diz enquanto bisbilhoto as louças e pratarias que saltam de seus armários – e que fariam inveja ao placement da corte de Maria Antonieta.

O tal matiz “naked” foi inspirado em outra aquisição recente, o sofá italiano Flexform (Casual), do designer Antonio Citterio, que parece brotar da parede. Só não mimetiza com ela por conta das telas superdimensionadas – dois retratos a óleo de efeito “pixelado” do muso do pedaço, pintados por Julio Ghiorzi. Em frente a ele, os pufes de couro trançado (também by Citterio) reforçam a composição, interrompidos por três peças da Bauhaus: duas poltronas e uma mesinha Le Corbusier, todas originais e seriadas. As esculturas douradas do premiado artista paulistano Sidney Amaral pontuam a área social em três momentos: um ralo com sandália de dedo sobre a mesa, um falo sobre uma parede lateral e o curioso balão de festa. O piso de ripões de madeira corre livre e solto pelos trezentos metros do apê, cujas janelas desembocam um pouco acima da altura das copas das árvores. Tapete, por ali, nem pensar. Por que? “Porque não gosto, oras.” Elementar, como o cabinet-bar de vidro desenhado por Lyra, que guarda taças, garrafas e ostenta um quê setentista, reforçado pelo soldado bonitão com pintura camuflada tipo Guerra do Vietnã, clicada por Miro, legendário fotógrafo de moda e grande amigo do decorador.

Numa das laterais do engenhoso móvel (há dois suportes nas extremidades que podem fazer as vezes de vasos ou baldes de gelo), os galhos altos de uma florida Sakura (a cerejeira que simboliza a fertilidade no Japão) evocam uma certa poesia lúdica, o charme da primavera e a versatilidade dos móveis híbridos, último grito entre os designers escandinavos. Mas a cereja do bolo, em si, está fora da Sakura: a poltrona vintage de Lina Bo Bardi, escalada especialmente para a nossa capa, assim como o hot dog Zé Carioca, um exótico saluki, raça persa considerada a única pura pelos muçulmanos (nada a ver com os credos de Ari, que fique claro, já que ele adora uma provocação: “Não curto nada careta”).

O composé é uma metáfora de que tudo por ali é muito exclusivo e customizado, como o dono da casa o é. Um dos nomes mais respeitados do high décor brasileiro, disputado por mostras e publicações, ele não tem trajetória blockbuster – e nem poderia ter. Opera como um alfaiate cuidadoso que pesquisa minuciosamente a melhor fazenda antes de começar seu mouláge haute couture. Dedica-se meses a um único cliente e isso faz com que seu portfólio seja recheado de trabalhos com figurões da alta sociedade que, chiques de verdade, preferem o anonimato – e Lyra, não menos elegante, fica de bico calado acerca deles e de suas respectivas histórias. Natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, estudou um pouco de jornalismo, outro tanto de engenharia e tentou arquitetura. Não chegou a pegar o diploma em nenhum dos cursos, mas deu vazão ao talento natural de decorar e ao olhar crítico quase irascível, que converte em curadoria impecável.

Tanto que, nos anos 1990, já era o nome mais expressivo do décor em Porto Alegre e sua fama começou a transbordar do Sul – foi exatamente nessa época que o conheci, apresentado por Clarissa Schneider, minha diretora nos tempos da Casa Vogue. Começaram ali a minha admiração e respeito por esse sujeito moderno, divertido e de bossa singular na arquitetura de interiores. Ari não segue nenhum estilo que não o dele próprio e o dos moradores para quem desenha. Tem uma cultura rara da história social do móvel e um raciocínio inteligentíssimo do espaço enquanto hábitat humano, o que não faz dele um erudito inatingível que só lida com mobília de custos estratosféricos, muito ao contrário.

“As pessoas não se dão conta do quão decorativos podem ser objetos ordinários, como uma garrafa de água Evian, uma pilha de revistas arranjadas sob um tampo que pode servir de mesa, um vaso simples com uma flor humilde ou um jogo americano bordado por comunidades ribeirinhas do Nordeste”, ensina.

Também ousa ao misturar talentos ascendentes com nomes incensados das artes contemporâneas. Em sua galeria privé com acento erótico (falos, nus e obras com mensagens subliminares se espalham pela casa), Iberê Camargo encontra Kátia Prates; Luciano Zanette encontra Washington Silvera e Leonardo; Renato Manta encontra Félix Bressan e Otto Sulzbach. E a métrica do mélange segue nas cadeiras de John Graz (Dpot), na mesinha Saarinen que customizou com tampo em padrão de bola de futebol, na mesinha xadrez da Moooi (MiCasa) e por aí vai. Da sala íntima à suíte, do escritório ao quarto de hóspedes, dos lavabos aos banheiros, do hall às coleções – ele arregimenta de CDs a óculos de sol –, a verdade de Ari está no ar. Feito música para os olhos. Bravo, maestro!

Ari Lyra 
Instagram: @arilyraoficial

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