Miami White Hotel: Guilherme Torres revela sua tela em branco na primeira edição norte-americana da Casa Cor

Construindo vazios que organizam a arquitetura em efeitos cênicos que não estão no mapa, projeto de Guilherme Torres para a estreia da Casa Cor Miami se apropria do branco para reinventar a volumetria do espaço

  • 30 novembro 2017

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“O poema não é feito das letras que eu espeto como pregos, mas do branco que fica no papel”. O discurso do literato francês Paul Claudel define com precisão o Miami White Hotel, projeto de Guilherme Torres para a primeira edição da franquia Casa Cor no sul dos Estados Unidos. “A ideia era construir o vazio e não o preenchido”, diz o arquiteto sobre o espaço que, à primeira vista, desponta como o mais monástico da sua carreira. Ledo engano. De aspecto aparentemente simples e asséptico, extremamente purista, a suíte do 43º andar, com pouco mais de 60 metros quadrados com extensão de varanda, tão típica dos edifícios que brotam na região do Brickell, vai se revelando à medida em que o visitante interage com o entorno, mas de um jeito completamente orgânico, sem nenhum recurso virtual.

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Uma solução de rigor técnico estratégico e alto efeito emocional. Ao idealizar o ambiente, a primeira e mais intransponível das adversidades seria, pelas normas do edifício, não poder realizar ali uma única adaptação estrutural sequer, fosse uma remoção de paredes, fosse a substituição dos acabamentos despadronizados. Para compensar enquadramentos assimétricos, portas fora de escala e afins, o arquiteto recorreu às soluções cênicas de modo a redesenhar sua própria geografia de interiores. O perímetro foi totalmente reconfigurado, ora se apropriando do entorno com imensas cortinas de linho que correm por trilhos e encapsulam todas as paredes, ora postando uma segunda pele de treliças móveis com grandes aberturas g eométricas, espécie de muxarabi superdimensionado – e em folhas volantes, tipo camarão, o que garante ainda mais mobilidade à suíte.

Não defendo o discurso do branco – ainda mais num destino quente, tropical – e nem de qualquer outro matiz especificamente. Nunca linkei meu trabalho à zona de conforto do ‘color blocking’. Mas, aqui a narrativa faz sentido para destacar a volumetria

A circulação também se dá de forma nada ortodoxa, sem obstáculos, com os próprios móveis delineando caminhos, sem nada encostado nas paredes. Entre mesas laterais, de jantar, bancos e apoios, mais de duas toneladas de mobiliário e acessórios cruzaram o Atlântico especialmente para o evento – tudo com o selo NOS Furniture, marca da qual Torres é diretor criativo e que, portanto, acentua ainda mais a qualidade altamente autoral do projeto, em composição com as peças de design internacional cujos até os fios das luminárias foram encapados de branco.
Como elemento central, uma enorme cama de shape ligeiramente tétrico ganhou ares de móvel híbrido com prolongamentos e encostos componíveis para situações de dormir, repousar, sentar, trabalhar ou fazer uma refeição – com a mesa anexa, por exemplo.

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O tecido das cortinas, caindo em curvas levemente sinuosas para humanizar ainda mais a atmosfera, invariavelmente convida ao toque. E quando as cortinas se abrem, além de revelar áreas mais íntimas tipo o closet, desvendam-se obras de arte como as quatro fotografias imensas da série exclusiva que Gabriel Wickbold realizou para este projeto, a pedido de Torres – em p&b, é claro.

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“Não defendo o discurso do branco – ainda mais num destino quente, tropical – e nem de qualquer outro matiz especificamente. Nunca linkei meu trabalho à zona de conforto do ‘color blocking’. Mas, aqui a narrativa faz sentido para destacar a volumetria. Tratamos o branco como um estudo da massa arquitetônica, da forma, do volume, sem entregar uma plástica totalmente pronta. A ideia é que as pessoas enxerguem as linhas e pintem com os olhos”, instiga. Um ensaio sobre o preenchimento, uma valorização do vazio, como reza a métrica da melhor arquitetura contemporânea.

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Sobre Guilherme Torres
Guilherme Torres, brasileiro do Paraná, 44 anos, fez seu entrée em Miami em 2013, quando surpreendeu o circuito com sua instalação Mangue Groove, parceria com a Swarovski que sacudiu a Art Basel. Citado por importantes revistas como a inglesa Coveted e AD España como único latino-americano entre os 100 na lista dos melhores do mundo, acaba de inaugurar seu escritório em Nova York e vem arrebatando importantes prêmios internacionais.
CASACOR MIAMI
De 1º a 18 de dezembro de 2017
Brickell City Centre – 88 SW 7th Street Miami FL 33130
Entrada inteira: US$ 25 e Meia-entrada: US$ 15
casacor.com.br

Studio Guilherme Torres
studioguilhermetorres.com

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