Revista Giz

03 Mai 2017 - Jul 2017

#3 | Água Viva

Casa Galeria: a toca artsy e cheia de estilo do artista plástico suíço-brasileiro Maurizio Mancioli

Prenda a respiração e mergulhe sem pressa na cápsula gestacional do tempo e do espaço de Maurizio Mancioli, o artista plástico suíço-brasileiro que transformou sua casa-laboratório num dos endereços mais curiosos, criativos e tresloucados de uma Pauliceia já Desvairada por natureza

  • 28 junho 2017
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Detalhe do jantar e do living que ganhou mesa lateral by Suite Arquitetos; e as poltronas FDC1, design Flavio de Carvalho, e Paulistano, com malha de aço, desenho Paulo Mendes da Rocha, ambas Futon Company

Quem é esse senhor estranho, mamãe?”, disse a criança aterrorizada ao abraçar a artista plástica Maria Carolina Marinotti. Era a Nova York dos anos 1970, canal nevrálgico da contra cultura instantânea que se convencionaria chamar mais tarde Pop Art. O menino era Maurizio Mancioli, e o amigo esquisitão que assustou-o, ninguém menos que Andy Warhol (1928-1987), na porta de sua Factory.

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Maurizio Mancioli submerso dentro do seu Acquabox, cápsula de acrílico espesso que mede três metros de altura por um de diâmetro e comporta 2.500 litros d’água com mais de duas toneladas. Ela abarca atividades diversas, como terapias corporais, técnicas de regressão e performances artísticas

De ascendência italiana, nascido na Suíça, Maurizio cresceu com as vantagens e os perrengues caros a uma família de artistas. Sua tia, Marialuisa de Romans, é um dos nomes mais expressivos da pintura moderna italiana atuantes entre as décadas de 60 e 70, com tantas biografias e coletâneas acerca de sua obra que dariam para preencher uma biblioteca a metro. “Seria inevitável percorrer o mesmo caminho. Mas havia também o outro lado: meus pais artistas não sabiam gerenciar os bens da família e vi tudo indo para o buraco na adolescência. Daí fui estudar administração”, conta o sujeito boa-pinta com pose de surfista (só pose), dragão tatuado no braço, fala cadenciada pelo sotaque francês, que aportou no Brasil há quase 20 anos para montar uma escola de negócios “que considero o primeiro MBA de São Paulo”.

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Detalhes da sala de jantar na Para Haus

Nas paralelas, não deu as costas para o DNA e exercitou a verve criativa nas mais distintas plataformas. “Houve um momento em que trabalhava como artista e empresário e vi que as coisas eram sinérgicas. Sinto-me um pouco embaixador nessa conexão entre o mundo dos negócios e o universo das artes”, conta ele, assumidamente artista visual multimídia, que flerta inclusive com o cinema, gerencia a própria obra e exerce o papel de agitador cultural no endereço nada convencional que encontrou para chamar de seu – e que ilustra essas páginas, sob a alcunha de Para Haus.

“É um grande casulo, quase um útero que remete à memória mais primordial. A primeira vez que experimentei tive a nítida sensação de déjà-vu e passei a explorar mais essas lembranças que só se acessam quando vivenciadas novamente”

A história começa pouco mais de dez anos atrás, quando os negócios naufragaram e Mancioli mergulhou de cabeça nas artes visuais, com uma produção consistente que se vale principalmente da fotografia com intervenções que exploram, em layers conceituais, os mais diferentes aspectos da memória. “É como se fosse uma membrana que envolve questões como presença, ausência, solidão, realidade e ficção, entre outras expressões sensoriais”, explica. Desde então arrebatou prêmios como o da Funarte, expôs em galerias internacionais e nacionais, da Vermelho à Mônica Filgueiras. Mas radicalizou o discurso mesmo ao inventar – e patentear – o projeto Acquabox, cápsula de acrílico ultra-espesso, medindo três metros de altura por um de diâmetro, que comporta dois mil e quinhentos litros d’água, com mais de duas toneladas, cravada no meio da sua sala de visitas, e que abarca as mais distintas atividades: de terapias corporais a técnicas de regressão, mas que arrasa mesmo como plataforma para performances, mais uma das facetas do intrépido morador.

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Detalhes da morada, à esquerda, o concreto aparente está presente na morada, ao lado, detalhe da entrada do Acquabox

“É um grande casulo, quase um útero que remete à memória mais primordial. A primeira vez que experimentei tive a nítida sensação de déjà-vu e passei a explorar mais essas lembranças que só se acessam quando vivenciadas novamente”, conta ele, que já exportou sua invenção até para spas dos Emirados Árabes.
A epifania se deu “metade de forma inconsciente, metade de ideia objetiva”. Quando assistiu Altered States, longa de 1980 dirigido por Ken Russell, ficou fascinado pela câmara flutuante em que o cientista tresloucado vivido por William Hurt se isolava enquanto testava experimentos alucinantes em si próprio. Imagine você que o antes tranquilão Maurizio, natural da pacata Lausanne, cidade-bandeira da paz e calmaria em rincões europeus, às margens do Lago Genebra, a essa altura já andava à beira de um ataque de nervos com o caos paulistano e atormentado por problemas de toda sorte somatizados em pinçadas lancinantes em sua coluna cervical. Logo, para cuidar do corpo cansado e da mente irrequieta, uniu o útil ao agradável, sem nenhum medo do absurdo.

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Cadeira Bolas, Lina Bo Bardi, Etel Interiores

“No filme, a situação era um tubo fechado. Fiz minha versão transparente, porque queria enxergar o mundo em volta da gravidade zero, como uma espécie de astronauta no meu próprio living. Ao fechar os olhos, fazemos uma viagem interna. Ao abri-los, embarcamos na vista. É simbiótico: uma catarse sensorial para quem está dentro, e uma visual para quem está do lado de fora tomando o seu dry Martini.”
O casarão que emerge numa das regiões mais arborizadas da cidade – o Alto de Pinheiros – foi um achado e tanto para comportar sua ideia: uma construção modernista-industrial que estava praticamente só no osso, assinada pelo designer-diretor de arte Alexandre Toro, antigo proprietário. Ao arrematar o imóvel, Maurizio convocou então o escritório Ximenes Leite, tocado por um casal-simpatia dos mais queridos do métier. Abre parênteses: parceiros na vida e nas pranchetas, Bruna Ximenes e André Leite fundaram, em 2001, o escritório que leva seus sobrenomes e que atua em projetos residenciais e comerciais de alto padrão. A belo-horizont