Revista Giz

01 Out 2016 - Dez 2016

#1 | Edição de Estreia

Curta- metragem

Curta-metragem: Kwartet

Composto por uma trinca afinada da neogeração, o Kwartet Arquitetura é uma das apostas da GIZ. Batizado de “Traço”, este apê de curta-metragem na Pauliceia revela um novo olhar absolutamente adaptado às demandas da arquitetura residencial urbana

  • 9 novembro 2016

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A especulação imobiliária de São Paulo, o gigante que nunca adormece (e que não deixa a gente dormir, já que escrevo este texto às três da madruga de uma segunda-feira insone) parece, finalmente, ter acordado para uma realidade cada vez mais tangível: os novos hábitos da vida urbana. Enquanto assistimos ao boom dos foodtrucks, aos restaurantes se estenderem em parklets nas calçadas, aos eco-cools trocarem os automóveis pelas bikes – ou pelo metrô –, à modinha dos home offices e às moradias cada vez menores assumirem funções múltiplas ao subverter cômodos formais, o mercado da arquitetura de alto padrão mira em apartamentos de curta-metragem – vide as mostras do mainstream, como a edição 2016 da Casa Cor SP, que desafiou profissionais acostumados a desenhar “alqueires e mais alqueires” de high décor a exercitarem sua verve em espaços mais compactos, com uma média de 50 m2 cada.

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Neste apê de 115 m2, cravado numa das alamedas mais disputadas de Sampa, o discurso é exatamente a integração, os espaços híbridos, a ergonomia e as portas abertas para o novo. A assinatura é de um dos estúdios em que eu, particularmente, mais aposto as minhas fichas entre os nomes da novíssima geração quando se trata de arquitetura de interiores: o Kwartet, testado, aprovado e recomendado por Roberto Migotto (de quem foram pupilo e pupilas, em épocas diferentes). Originalmente mais do que um trio (Kwartet, em africâner, significa “quarteto”, mas uma das sócias preferiu se dedicar a outra área), os jovens e talentosos Iraima Castro, Melina Moraes e Bruno Batistela exibem excelente maturidade aos trinta e poucos (bem poucos) anos.
“Quando começamos, nos procuravam ou porque havíamos trabalhado em um escritório com notoriedade ou porque só queriam alguém para pensar nos problemas que uma obra pode gerar. Ainda há muita confusão em relação ao papel do arquiteto. A expectativa é somente em relação às soluções técnicas, desconhecem a veia artística do profissional. Hoje, nosso cliente se identifica com o trabalho que desenvolvemos e nos dá mais liberdade para realizar um trabalho autoral”, conta Iraima. Foi exatamente o caso neste endereço. O morador, publicitário, procurou a trinca para desencaretar o layout da construtora e fazer a coisa fluir. “A planta original era mais fragmentada, havia um quarto a mais e nenhuma suíte. O proprietário, jovem paulistano que morava no Rio de Janeiro e foi transferido de volta à sua SP natal, não estava lá muito entusiasmado em viver novamente na selva de pedra.

 “A reforma foi radical, incluindo o desenho de toda a marcenaria. A arquitetura limpa e simples, com mobiliário contemporâneo, foi aquecida com painéis de madeira lustrada”

Ao nos contratar, esperava transformar o apartamento antigo em um local convidativo, aberto e luminoso para lembrá-lo da cidade que deixou”, continua Melina. Paredes vieram abaixo e os acabamentos e não-acabamentos (considerando o concreto que evoca os brutalismos da Escola Paulista), foram pinçados a dedo para traçar esta métrica. “A reforma foi radical, incluindo o desenho de toda a marcenaria. A arquitetura limpa e simples, com mobiliário contemporâneo, foi aquecida com painéis de madeira lustrada. Recuperamos o piso original (em taco de madeira) e, ao quebrar a parede que fazia divisa com a sala, descobrimos uma viga invertida. Foi aí que pensamos em um sofá que pudesse ser voltado tanto para o living quanto para o home theater e, ao mesmo tempo, escondesse a viga no piso”, conta Bruno.

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“Como tivemos que camuflar a viga invertida com o sofá duplo, os espaços e layout foram definidos a partir dele. Por ser volumoso, pensamos em um modelo mais neutro e de linhas retas. Fizemos um mix de diferentes nacionalidades e períodos. Esse jogo de móveis imprimiu uma estética mais solta, dando um ar mais descontraído e ao mesmo tempo sofisticado”, continua. O mélange plasma clássicos do design, como as cadeiras de jantar de Sergio Rodrigues e a poltrona de Hans Wegner, com peças contemporâneas, tipo a cadeira do Maarten Baas e o biombo de Isabela Vecci. Nos detalhes, o toque subversivo, como a escultura de latão de um escorpião que, de cara, borrifa o veneno antimonotonia de um trio com nome de quarteto que vale por uma dúzia.

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