Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

Décor puro sangue (azul, é claro): Lord Fabrizio Rollo, um manual vivo de elegância, bom gosto e estilo

Se você não acredita no personagem, siga adiante. Ele acredita, óbvio – e eu também. Lorde para alguns, plebeu para outros tantos e talentosíssimo gostem ou não, Fabrizio Rollo apresenta em segunda mão (a primeira foi para uma prestigiada revista gringa, é claro) um de seus projetos mais recentes: o apartamento paulistano high décor milimetricamente customizado para um hair stylist. “Banana is not my business!”, proclama

  • Por:Allex Colontonio
  • Entrevista:André Rodrigues
  • Fotos:Christian Maldonado
  • 7 novembro 2017
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Geral do estar que leva parede espelhada em retângulos; pufe Koishi de fiberglass como mesa de centro, design Naoto Fukasawa, potiche Optical Fabrizio Rollo Collection e obra de John Grant

A pé ou a bordo de sua inseparável motorino (motocicleta italiana com carinha de scooter retrô), essa figura jamais passaria despercebida. Com rosto de traços marcantes emoldurado por uma barba clássica de portrait renascentista, impecável e incondicionalmente bem vestido, seja a caminho de uma consulta médica às 9h da manhã, seja sentado à mesa com jet-setters que respondem por um bom naco do PIB do País, Fabrizio Rollo é praticamente um manual vivo de elegância, bom gosto e estilo, 24 horas por dia, sete dias na semana, sem truques. O português impecável na ponta da língua é daqueles que jamais trocam um “para” por um “pra”. Também é fluente em inglês, francês, italiano, espanhol e conhece verbetes de etiqueta que não estão no dicionário. Verborrágico e eloquente, divertido e generoso, tagarela com as mãos em diálogos que são quase um convite para dançar com o interlocutor – invariavelmente cativado pela conversa muito afiada e nada fiada, ilustrada pelo brilho vivo dos olhos muito grandes, amendoados “cor canela”, segundo ele.

Há alguns anos convertido ao judaísmo, o espiritualizado Fabrizio Rollo, tido como uma das figuras mais vultosas da rota do décor, está em fase aparentemente mais zen. “Não quero falar nada polêmico”, condicionou ao aceitar mostrar, diante da minha súplica, esse projeto nas páginas da GIZ – inédito mesmo, só no Brasil, já que acaba de ser publicado por um dos alcorões mundiais do universo dos interiores, a revista Elle Décor americana. Então, nada de rebobinar episódios babadeiros como aquele em que desceu do salto para se engalfinhar com a supermodelo inglesa Naomi Campbell no meio da pista – dessa vez terei que ficar de boca fechada (e dedos atados).

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Saleta íntima integrada ao social leva par de espelhos, de couro, reeditados por empresa escandinava – o original foi criado por Jacques Adnet, nos anos 1950; tapete Berber marroquino, poltrona Jean Prouvé reeditada pela Vitra; par de luminárias de mesa compradas em Firenze e pôster optical da artista inglesa Bridget Riley

O fato é que Fabrizio é mesmo internacionalíssimo na casca e no conteúdo. A exemplo do que aconteceu neste caso, seus trabalhos sempre são apresentados primeiro nas revistas gringas, uma vez que ele, por si só, é uma das personas brasileiras mais prestigiadas em veículos trendies, como o renomado americano The Sartorialist, que o classificou como um dos homens mais classudos do planeta. Uma imagem construída tijolinho por tijolinho, às custas de muita autenticidade. “Lá fora existe a cultura do belo e a cultura específica sobre o universo da decoração. Meu trabalho é muito mais internacional por ser genuinamente criativo e não meramente reproduzido, como muitos por aqui. Por isso o reconhecimento e a admiração são imediatos. Para se ter uma ideia, através das redes sociais, alcanço um público internacional espetacular que mesmo nos tempos de editor de um título respeitado não atingia, porque a revista não era vendida no exterior. Sou seguido por grandes decoradores e galerias de arte e antiquários mundo afora. Não sou visto como ‘brasileiro’. Meu estilo não é local”, conta, imodesto.

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Detalhes dos interiores

Quando conheci esse paulista de Tupã, há 20 anos, Fabrizio ainda assinava Fabricio. Talvez a mudança de nome tenha vindo justamente para facilitar sua projeção gringa, já que viveu anos em Milão. Mas com C ou com Z, ele já era profissional prestigiado no circuito duas décadas atrás. Menino prodígio, começou cedo na Vogue e teve seu talento reconhecido e estimulado pelo publisher Andrea Carta (1959-2003). Foi editor de estilo de quase todas as revistas da Carta Editorial e já dominava as ciências da moda e do décor com precisão cirúrgica (tanto que foi parar na Vogue Itália). O título da nobreza, Fabrizio também só assumiria anos depois, o que levanta suspeitas na desconfiada tribo do décor, que adora fazer troça com seu suposto sangue-azul. “Sou descendente, por parte de pai, de um viking nobre da Noruega, condecorado Duque Rollo da Normandia, cujo sucessor seguiu conquistando terras na Grã-Bretanha e na Itália. Na Escócia estão o castelo e o clã Rollo, e sua linhagem recebeu o título de Lord”, conta. “O mais interessante é que todos os astrólogos, tarólogos e videntes aos quais já fui são unânimes em dizer que tive muitas vidas na França e na Bretanha. E minha barba é naturalmente cor de alazão (mix de norueguês com escocês).” Alguém aí duvida? Eu, não. Embora não sejamos amigos íntimos, Fabrizio e eu temos uma relação mútua de carinho e respeito e, por um bom período, estivemos muito próximos fisicamente: durante quase dez anos dividi uma bancada de trabalho com ele, lado a lado. Lá nos rincões da Casa Vogue, como Lord Rollo nunca se bicou com nossa diretora na época, cabia a mim (que sempre tive ótimo relacionamento com ambos) exercer o papel de marisco entre a rocha e o mar no quebrar das ondas, mas sem precisar, graças a Deus, apartar barracos (apesar das diferenças, tanto um quanto outro eram/são chiques demais para bate-bocas).

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Os destaques do canto do estar são o biombo anos 1940 Dinucci e o par de banquetas Jansen. À direita, vista da sala de almoço que foi delimitada por cortinas de ikat em tons acinzentados

Nesse processo, fui testemunha ocular das suas qualidades, para muito além do enorme talento para composição de cenas, que ele teve a oportunidade de sagrar em tantas produções, capas, projetos e mostras. Enciclopédico e com memória impressionante, Fabrizio sabe tudo e mais um pouco sobre a arte que abraçou. No combo do conhecimento entram culturas, épocas, panoramas sociais, estilos, nomes, datas, escolas, mestres, aspirantes. Devo uma boa fatia daquilo que escrevi sobre design naquela fase a ele, que me socorria com precisão barsaniana na era pré-Google.
“Sou fascinado por mobiliário muito mais do que por arte. Desde cedo pesquisava enciclopédias de estilo. Quando comecei como editor, aos 21 anos, surpreendi pela bagagem que trazia, ao contrário dos jornalistas de formação que trabalhavam ali, mas não eram experts no assunto ‘artes decorativas’. Leio, pesquiso, observo, coleciono livros e algumas publicações importadas e, claro, viajo o tempo todo, na maior parte das vezes para pesquisar tecidos, tendências e moda masculina. Enquanto as pessoas aqui no Brasil ainda estão naquela dobradinha Gucci com Prada, dou risada.

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O espaço embaixo da escada foi aproveitado com o móvel bar da Established & Sons

Como diz uma amiga italiana: ‘isso não preenche meus canones estéticos’.”, lança com o carisma zombeteiro que lhe é peculiar. Uma parte disso tudo está no recém-publicado Manual do Lord (não perca a entrevista concedida a André Rodrigues no final dessa matéria). “Hoje meu cliente está em primeiro lugar, o que me ocupa a maior parte do tempo, uma vez que atendo com a exclusividade de um atelier de couture. Em segundo lugar me dedico às minhas mídias sociais, que têm como objetivo levar o selo #approvedbylordrollo como garantia de bom gosto e qualidade – credibilidade é minha assinatura. Outros livros virão na hora certa mas, no momento, estou focado em divulgar o Manual do Lord e uní-lo a um talk sobre os assuntos que abordo no book.”

“Lá fora existe a cultura do belo e a cultura específica sobre o universo da decoração. Meu trabalho é muito mais internacional por ser genuinamente criativo e não meramente reproduzido, como muitos por aqui”

Então, vamos ao projeto! O dono do apartamento high décor absolutamente customizado que salta aos olhos nessas páginas é um hair stylist que sabe das coisas. Segundo Fabrizio, seu desejo era uma morada que o fizesse sonhar de olhos abertos sempre que chegasse em casa. Encomendou ao arquiteto um décor que tivesse muito azul e que fosse “rico sem ser metido”.

Assim, o duplex gira em torno de apenas 150 metros quadrados, com a área social concentrada no primeiro pavimento e a parte íntima no andar de cima. Na planta original, havia uma saleta de tevê/quarto de hóspedes no térreo. Fabrizio trouxe paredes abaixo e aumentou o living consideravelmente. Manteve o banheiro de hóspedes, agora convertido em toilette social. A cozinha atrás do living era minúscula, então ele ampliou a área do terraço e a levou para fora.

“Não aproveitei nem um grampo de cabelo. Quando o cliente tem peças boas sou o primeiro a querer introduzir, mas nem sempre acontece. Trouxemos muitas coisas que garimpei em Firenze, Milão, Paris e outros lugares. O par de poltronas italianas Zanuzo anos 1950, encontrei em Miami. Eram 2 pares: compramos um e a Nilufar (grande galeria milanesa) arrematou o outro para, obviamente, revender por cifras estratosféricas”, alfineta.

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Também se destacam o biombo e o sofá Dinucci revestido de veludo Rubelli, e as poltronas francesas estilo Luis XV com adamascado cor de… damasco. “O cliente visitou meu apartamento no início do processo e ficou fascinado com os meus biombos (tenho um em cada ambiente). Fomos a um determinado antiquário e o dono orçou errado o biombo Dinucci. Mas, em consideração a nós, fez questão de manter o valor inferior que havia passado. Acabamos levando a peça pela metade do preço.”

E como a astúcia de Fabrizio também se manifesta no design de mobiliário, o acento autoral fica ainda mais evidente. “A estante toda em fitas de aço e fundo em tom de azul levemente mais escuro que as paredes desenhei especialmente para este projeto. Amo elaborar peças, mas tenho feito com exclusividade para meus clientes. Criar para uma empresa no Brasil só funciona se a mesma falar diretamente com o meu público, caso contrário é jogar pérolas aos porcos. O brasileiro em geral tem um delay muito grande para assimilar novas propostas e tendências. Quanto mais do mesmo, mais vende. Banana is not my business!”

Fabrizio conta que o décor do living começou com a mesa/pufe de centro do designer Naoto Fukasawa, que lembra um grande seixo rolado branco. “A partir dela fui definindo as outras formas e o tapete em elipses de diversos tons de azul.”

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O sofisticado dormitório de hóspedes com papel de parede padronagem Paisley, da Schumacher; abajures de cristal de rocha Juliana Benfatti; roupa de cama bordada ao gosto dos anos 1940, Victorial Mill; ikat antigo do Paquistão e fotografia Sony Angels

Pelas paredes, inclusive as de espelhos, obras como a imensa flor do artista John Grant sobre o sofá do living têm grande impacto, “mas também amo as fotos das bonequinhas Sony que usei no dormitório de hóspedes, em contraste com o papel de parede Schumacher”.

Além dos dez anos de parceria profissional, meu caminho se cruzaria com o de Fabrizio outras vezes. Pouco depois que eu deixei a Casa Vogue para assumir a direção da Wish Report (e, posteriormente, criar a Wish Casa), a Carta Editorial perderia sua concessão para publicar os títulos Vogue no Brasil. Na transição para a Globo Condé Nast, Lord Rollo ficou de fora, mas não perdeu o rebolado. Juntos, tão logo deixei a Wish (muito voluntariamente, aliás, ao contrário do que uns abutres especulam e sob pedidos inflamados de “fica”, do dono da boiada, o querido Neneto Camargo), fizemos o projeto da Bazaar Interiors para a Carta Editorial, que acabou não acontecendo. Eu assumi a Kaza com K (onde tivemos a oportunidade de fazer duas capas juntos) e ele foi bombar ainda mais seu brasão além das fronteiras, o que ainda o deixaria mais exigente.

“No décor, admiro alguns novos nomes fora do Brasil bien sur. Por aqui, nenhum. Temos faculdades de arquitetura muito boas e as novas gerações têm revelado trabalhos interessantes. Mas no quesito interiores é tudo muito fraco, sem consistência, sem personalidade e sem qualidade estética.”

Para fechar o papo, a pergunta que não quer calar: a crise afetou o seu trabalho? “Meu cliente não passa por isso.” Haja sangue azul – e tesouro real! God save the Lord!

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Retratos de Rollo para seu livro “Manual do Lord”

QUEM QUER SER UM LORDE?

Manual do Lord, do consultor de estilo Fabrizio Rollo, reúne dicas de socialização e conduta acerca de preceitos sobre elegância, refinamento e luxo. Com muito bom humor, é claro
Por André Rodrigues   Retratos Gleeson Paulino

Para materializar seu Manual do Lord, Fabrizio não buscou nenhum patrocínio. “Eu que banquei, eu que fiz. É meu presente para as pessoas”, revela o consultor de estilo que, entre suas tantas idiossincrasias, posou para a capa da própria obra dando as costas para o leitor. “Em termos editoriais, ficar de costas em uma foto é considerado esnobe, metido, até falta de educação. Mas, quando montaram essa opção, falei na hora: ‘Vai ser a capa’.” Ao que segue a explicação: “O belo não tem frente”. Um dos títulos nobiliárquicos britânicos mais populares que há, lorde equivale ao “dom” ou “senhor” de Portugal e, originalmente, corresponde à autoridade feudal. Em sua etimologia, derivada do inglês arcaico hlafweard (“guardião do pão”), o termo traduz o costume tribal germânico de que um membro do escalão superior fornecesse comida aos seus subordinados. O lorde seria, tão logo, uma figura de proa – um provedor, um tutor, um líder. Neste caso, os provisionamentos de Fabrizio passam por pérolas curiosas do tipo:

• “Gente linda é linda até fazendo coisa feia. Já os feios… É bom que tenham educação para não ficarem insuportáveis!”

• “E a palavra lavabo? Dá para ser mais horrível? Soa como “lavar o rabo”! Aí a visita pergunta: Onde é o “lavar o rabo”? Não, não dá”

• “Sabe aquelas coisas que são consideradas feias de fazer, mas são deliciosas? Por exemplo, atolar o pão de queijo no café e nhaaaaacc! Às vezes bate essa vontade… Se não resistir, que seja uma vez ao ano… E sozinho!

• “Mulher que sai de casa com cabelo molhado, exalando cheiro de shampoo, ou não tem classe, ou é operária, ou corre o risco de ser chamada de rapariga com alguma intenção embutida!”

O seu livro começou a ser “feito” 25 anos atrás – fale sobre isso.
No fim de 2016, reuni 33 Moleskines antigos, reli todos e fui anotando e editando o que deveria ou não entrar. Durante o processo, também criei novos conteúdos. Tem uma boa parte do livro que é mais recente. O mais interessante é que quando reli esses Moleskines vi que muitas coisas que estavam escritas ali são eternas.

Com o livro, você então apresenta um recorte de um recorte que você já havia feito?
Pode-se dizer que sim, mas, ao mesmo tempo, nesses Moleskines eu criei frases. Criei dicas. Na verdade, não são apenas coisas que li e aprendi. O conteúdo é composto por meus momentos de inspiração.

Sua linguagem é leve, de fácil assimilação e, ao mesmo tempo, com senso de humor. Esses são traços da sua personalidade?
100%! Nunca me preocupei em escrever corretamente as anotações porque o que me interessava era a ideia. Não tem, em momento algum no livro, uma palavra que eu não use na minha vida cotidiana. É uma maneira minha de escrever. Eu tenho esse humor.

Qual o limite do humor?
Não quis, de maneira nenhuma, que o humor passasse de um limite. É um pouco diferente quando faço um post no Instagram, que é um catalisador e onde acelero mais. Um livro é uma coisa que fica por mais tempo. Está impresso. Instintivamente, ao longo desses anos todos, e dei uma dosada para não ficar uma coisa escrachada e as pessoas levarem mais a sério.

Nada é piada?
Nada é piada. É sério para os estetas que consideram que a estética é algo fundamental. Eu, por exemplo, considero. Tem gente que acha que estética é uma besteira – e tudo bem. Isso vai da visão de cada um. A minha visão não é fazer com que quem acha que isso é besteira, passe a achar que não é. Não tenho essa pretensão. Tenho, simplesmente, o desejo de passar adiante o que eu acho que devo passar.

Como que você define o luxo: pelo consumo de produtos ou pelas vivências?
Essa história é controversa. Há pouco tempo, entrou na moda dizer que as coisas, ou determinadas coisas, são de luxo. Hoje, parece que o tema luxo está fora de moda, inclusive a palavra. Até entendo esses novos conceitos que defendem que “luxo é ter tempo”, mas eles são, no fundo, definições contemporâneas para desmistificar algo que é inacessível. A gente vai modificando ou deturpando certos conceitos, mas luxo é um só.

Ter tempo de sobra não é luxo?
Luxo é uma coisa única. Não que eu não acredite que ter tempo seja luxo, claro que é. Mas, é preciso entender do que estamos falando, se é do material ou não, porque, senão, tudo pode virar luxo.

Exemplifique.
Uma pessoa que não é 100% saudável vai dizer que luxo é quando ela está saudável. No fundo, é isso que acaba acontecendo. Eu acho que luxo é algo que é exclusivo, algo que não é todo mundo que tem acesso. Luxo é para uma camada distinta, senão ele deixa de ser luxo. Essa história do tal do luxo acessível, do luxo democrático… Isso não é luxo, é sub luxo.

Novos tempos, novos conceitos…
Luxo é algo muito complexo. Supercomplexo! É importante deixá-lo dentro de uma redoma. Talvez, eu esteja sendo muito enérgico, ferrenho em relação ao luxo, mas é porque eu trabalho com produtos de luxo. Sei que aquele luxo não é acessível a todo mundo. Por exemplo, eu estou aqui com você e, na bolsa, tenho guardadas algumas amostras de tecido que eu levei para apresentar a uma cliente. Entre eles, um veludo que custa dois mil euros o metro, sendo que deste metro de tecido só se tecem cinco centímetros por dia em um tear manual do século 18. É o luxo do luxo. Existe? Sim! Mas, não é para todo mundo.

Então luxo, na sua avaliação, é consumo.
São coisas exclusivas. A humanidade cresceu de tal forma, tem tanta gente vivendo no planeta… O verdadeiro luxo é para uma parcela pequena.

Mas se o planeta é compartilhado por todos nós, porque há coisas que são só para alguns?
As pessoas têm o direito de usufruir o que quiserem – só que nem todo mundo pode bancar. As grandes marcas começaram a popularizar o conceito de luxo porque elas não querem mais vender só para a camada AAA. É uma jogada mercadológica. Tudo é uma estratégia para enganar, vender mais e alguém embolsar mais. Isso não muda.

Na prática, na decoração, o que você considera luxo?
Luxo… Eu nem gosto mais de usar esse termo. Não é uma palavra com a qual eu me identifique, porque ela foi muito banalizada! E tudo que é muito banalizado acaba virando o oposto do que realmente é.

Você tem outra palavra para sugerir?
Eu prefiro dizer que algo é refinado ou exclusivo. O termo luxo foi muito explorado, das maneiras mais diversas. Agora, na decoração, sem dúvida, posso falar do universo dos tecidos, porque eu sou absolutamente aficionado por tecidos. A nossa indústria brasileira, nesta área, é um atraso gigante.

E como você se vira aqui?
Eu não me viro aqui. Só compro fora. Não me viro com tecido nacional, a não ser uma cambraia de linho, algo do gênero. Fora isso, só trabalho com tecidos importados. Há pouco tempo, por exemplo, descobri uma empresa francesa que ainda produz uma seda chamalote, que foi originalmente criada para a Duquesa de Windsor.

Há luxo no Brasil?
No Brasil, tudo entra em moda e sai de moda muito rápido. Me lembro quando explodiu a tal da tendência China. Todas as lojas tinham produtos fazendo o look China e, depois de um tempo, ninguém aguentava mais. Então, quer dizer que China saiu de moda? Não é isso. É que no Brasil as coisas entram e saem de moda com muita rapidez.

E qual seria o oposto do luxo?
O gosto americano. Tudo o que existe de estilo nos Estados Unidos no século 19, ou mesmo antes, foi copiado da Europa.

Os norte-americanos eram, originalmente, europeus…
A Europa é o berço de muitas coisas. Em termos de tecidos para decoração, os tecidos europeus são os mais significativos. Isso não tem no Brasil, e também não é todo brasileiro que entende.

Em uma escala maior, que é a da arquitetura, o que você considera de mais refinado ou de mais exclusivo?
Os novos materiais. Isso não significa que você deve eliminar materiais já superconhecidos ou supertrabalhados ou superexplorados. Eu acho, até, que você pode mesclá-los. As pessoas têm o costume de dizer que eu sou barroco. Eu não sou barroco. Eu gosto de diversos estilos e me identifico com vários. Tenho uma visão e um gosto arquitetônico extremamente geométrico.

Você é declaradamente fã de Yves Saint Laurent.
Acho que tudo o que ele fez estava dentro de um momento histórico. Ele foi abençoado com “ene” talentos estéticos. A minha relação com o que ele fez vem muito antes de poder olhar alguma coisa dele e me inspirar profissionalmente. Quando eu tinha 11 ou 12 anos de idade, li uma biografia sobre o Yves Saint Laurent e me identifiquei com várias passagens. Ele revela que, durante o intervalo, no colégio, se escondia no banheiro porque era extremamente tímido. YSL morria de vergonha de estar com outras pessoas e, por isso, ele era alvo de chacota.

Você vivenciou algo parecido?
Também vivi isso aos 7, 8, 9, 10 anos de idade. Eu me escondia no banheiro. Não todos os dias, mas várias vezes na semana. Eu me escondia porque eu era chacota de algumas das pessoas. Por isso, me identifiquei com várias coisas da vida pessoal do YSL.

Vocês chegaram a se conhecer?
A minha identificação com o Saint Laurent foi acontecendo em diversas etapas e, um dia, eu o conheci por acaso. Não fiquei amigo dele. Não ficamos íntimos e nem nada. Apenas jantamos uma determinada vez e ele segurou na minha mão, era um homem muito frágil, doce. Realmente refinado. YSL não tinha a pretensão de querer ser o maior, como muitos estilistas têm – e até eu tenho. Ele era o maior. Ele sabia disso, e sempre soube.

Você me parece ter essa vontade de lidar com a estética como o artista lida com sua obra. Você tem foco, disciplina, trajetória consistente. Você se apresenta como um artista?
Totalmente. Eu me considero um artista. O artista é a pessoa que faz as coisas absolutamente vindas da alma. Em algum momento pode passar (ou não) pelo cérebro, mas o verdadeiro artista sente – ele não pensa. Você pode juntar essas duas coisas. O sentir e o pensar em o realizar. Eu digo o sentir porque ele está isento de julgamentos, está isento de inseguranças. Eu me identifico, sim.

Vão dizer por aí que é pretensão sua…
Não é uma pretensão porque eu não acho que essas características que eu tenho sejam minhas. Já achei que fossem minhas, mas hoje sei que elas passam por mim e vão para o outro. E, se elas vão para o outro, elas não são minhas. Sou apenas um canal.

E o que mais do livro?
O fato de ter escrito esse livro não significa que eu pratique tudo o que está ali como se eu, Fabrizio, fosse um modelo a ser seguido. Claro que eu tenho a vontade de ser seguido em alguns comportamentos, mas apresentar tudo aquilo que eu considero o máximo é muito mais uma maneira que encontrei para as pessoas despertarem para isso. Não acho que sou um exemplo. Eu não vivo exatamente como me apresento no livro, nenhum escritor vive exatamente como se apresenta numa obra deste gênero.

Seriam todos personagens?
Todos são personagens, mas isso não significa que eles não se achem reais.

Você se considera um cara real?
Sim. Eu cometo erros. Mas sei que passo uma imagem absolutamente inacessível – e não posso fazer nada com relação a isso. Isso não é problema meu, é problema de quem tem medo de chegar até mim. Eu não posso resolver o medo dos outros. Embora eu pareça um personagem, sei até que ponto esse personagem é o verdadeiro Fabrizio ou não. Eu não tenho a pretensão de criar uma imagem que não seja a minha a verdadeira. Isso é difícil de explicar.

 

Fabrizio Rollo
fabriziorollo.com | @fabriziorollo