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Memórias de uma Gueixa: Michel Safatle e sua verve fashion em apê de São Paulo

Discípulo dos grandes décorateurs da história, o arquiteto traz no olhar – e na pesquisa – o gosto pela narrativa de cada objeto, seus credos, seus signos e mitos. Para apresentar o apê paulistano que leva sua assinatura, Giz desfilou por lá um ensaio à moda da casa, repleto de orientalismos, erotismos, fetichismos, misticismos, etnicismos e outros exotismos

  • 13 Abril 2017
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No estar, sofá Paschoal Ambrósio com tapeçaria Artefacto, almofada Pierre Frey. Ao centro, sobre o espelho, estudo original feito em nanquim para o quadro A Negra, de Tarsila do Amaral (Paris, 1923). Mesas de centro Montenapoleone, mesa de apoio Saarinen com pés em latão dourado e tampos em laca baunilha, Empório Vermeil. Destaque também para a poltrona Dinucci estofada em seda ouro, acervo Michel Safatle + Rubelli para Safira Sedas. Debora veste avental Eliana Cho, anel Camila Klein, colar Paula Marques e sapatos Louboutin. Alex veste camisa Ellus e sapatos Ricardo Almeida

“A moda que me interessa não é um sistema de renovação sazonal. Me interesso pela moda enquanto representação das nossas vivências e reflexo de nossas essências. Procuro traduzir isso no meu próprio vestir e no vestir das casas que aparecem pelo meu caminho”, diz Michel Safatle, enfant terrible do décor brasilis que ganhou a alcunha de dândi tanto por seu trabalho racée quanto pela silhueta esguia e bem embalada – geralmente em um par de calças dobradas na altura das canelas, quase sempre acompanhadas por camisa branca monogramada e um cardigã pendurado nas costas. Look autêntico desde o bico fino de seus sapatos com cadarços amarrados nos tornozelos à última voluta de seus cabelos ligeiramente geométricos. Plugado na indústria fashion apenas na voltagem necessária para conduzir o melhor dela sem se tornar uma fashion victim, passou parte de seus trinta anos em Paris, cidade que faz seu eletrocardiograma se desenhar na cadência de uma boiserie.

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Debora posa com blusa Pucci, saia Chilli Beans, harness Seteh por Sergio Ferreira e sapatos Corello em frente ao biombo japonês século 19, sobre poltrona Dinucci em animal print; ao lado, o stool assinado pelo estilista André Lima

Se já era apaixonado pelo italiano Valentino, pelo americano Tom Ford e pelo britânico Hedi Slimane, foi lá que Monsieur Safatle atestou sua adoração máxima por Yves Saint Laurent, um de seus primeiros – e definitivos – heróis. E foi lá também que lapidou o gosto pela mélange de padrões, referências, reverências, escolas, etnias, épocas e estilos. “Nenhuma outra cultura assumiu tanto o exotismo como liberdade estética na arquitetura de interiores quanto a francesa, que se apropriou com muita plasticidade das maravilhas da África e da China, por exemplo”, conta.

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Alex veste óculos Hugo Boss, calça de látex Marcio Banfi para Igor Dadona e sapatos Ricardo Almeida, sobre poltrona Biedermeier com braços em formato de cisne entalhado, Europa, século 19, acervo MS. Poltrona art déco, Juliana Benfatti, pequeno biombo japonês, século 20, usado como protetor da lareira. Sobre o espelho acima da lareira, díptico de Ana Maria Tavares, Galeria Vermelho. Débora veste tailleur Gianni Versace

Filho de uma artista plástica e de um empresário libanês, aos 15 anos o menino prodígio deu seu grito de independência e foi morar sozinho em um apartamento projetado pelo classudo João Mansur, antes de botar os dois pés no mundo. De um lado, traz no sangue a vanguarda da mãe; do outro, a exuberância tradicional das Arábias no DNA do pai. Junto com as peregrinações vieram as pesquisas, as análises e, é claro, os arremates. O resultado é um acervo de maturidade espantosa para alguém tão jovem, mix de antiquariato, modernariato e arte contemporânea da melhor qualidade, que disputa cada centímetro quadrado com o seu escritório – um gabinete de curiosidades que, diga-se de passagem, só atende poucos e bons com hora marcada, já que o lugar não tem cara, estrutura e tampouco vocação de loja.

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lustre Oh Mei Ma, de Ingo Maurer para FAS Iluminação. Mesa de jantar Bonte, Forma e cadeiras Renée Behar. Debora veste blusa e saia Isadora Alvarenga, biquíni Jo de Mer, colar Isabella Blanco e sandálias Capodarte. Alex veste terno, camisa e gravata Ricardo Almeida, relógio de pulso Orient, óculos Hugo Boss e sapatos Crawford

O endereço paulistano de perfume asiático que ilustra essas páginas, recém-projetado por ele, diz muito sobre essa vibe, no mínimo, exclusiva – não há, nem nessa geração, nem na anterior, nenhum outro profissional fazendo o que Safatle faz.
A cliente em questão é uma mulher quarentona, chic, solteira, sem filhos, que já tinha um acervo relevante de arte e convocou Safatle para (re)arranjar tudo em sua nova morada, um apartamento de proporções generosas em bairro nobre paulistano. “Optamos por manter as características originais da arquitetura. Sempre que possível, prefiro reconfigurar sem descaracterizar. O imóvel já sugeria uma atmosfera intimista e potencializamos isso, porém, de um jeito jovem, buscando sofisticação sem formalidades”, explica.

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Debora veste body de látex Marcio Banfi, calça Pucci, choker e colar Verachi Joias, anéis Camila Klein e sapatos Victor Dzenk. Mesa Érea; poltronas De Direction, Jean Prouvé, Vitra; porcelanas Imari, Japão, século 18, Michel Safatle. Ao centro da mesa, obra de Gustavo Von Ha; na parede, grafite inspirado em Jean-Michel Basquiat

O primeiro ato foi redimensionar o perímetro sem economizar nos espelhos, propondo jogos de amplitude com uma paginação que ajuda a rejuvenescer o entorno. O segundo foi a iluminação desenhada sob medida em aço inox, de novo, propondo jovialidade. “Trata-se da casa de uma mulher independente, moderna, entusiasta das artes, da cultura e da moda, com muitos passaportes carimbados, que adora se deslocar. Coleciona arte e amigos, todos avessos a grandes exposições, discretíssimos como ela”, explica Safatle.

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Par de poltronas Dinucci, Michel Safatle + Rubelli para Safira Sedas; encimadas pela pintura Paisagem com Touro, Tarsila do Amaral (1925. Ao lado, Alex usa harness Seteh por Sergio Ferreira, calça João Pimenta e sapatos Ricardo Almeida

O terceiro – e definitivo – ato foi o high décor, tratado por ele como um grande alfaiate alinhava sua alta-costura. É ergonômico, confortável, acolhedor, sem não-me-toques. Decorações maximalistas, com tantas traquitanas, embora encham os olhos, geralmente inibem o convívio. Nesse caso, com circulações amplas e cenas absolutamente contextualizadas, o efeito é o oposto. “Gosto do rigor sem rigidez. Aquilo que é muito coordenado é chato. Casa tem que ter movimento, ritmo.” Essa tem e deixa tudo muito às claras desde o hall de entrada “pixelado”, um trabalho de pintura artesanal com elementos como folha de prata e outros que tais que imprimem um mood geométrico interessantíssimo.

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Debora segura escultura de Toyota, década de 1970, acervo Michel Safatle. Ela veste blusa e saia Isadora Alvarenga, biquini Jo de Mer, colar Isabella Blanco e sandálias Capodarte

“Sou apaixonado pelo mobiliário de época, mas aquele sem grandes linhas decorativas, mais reto, mais puro. Aqui revestimos poltronas Dinucci com tecido bordado à mão, combinamos mobília italiana baixa, poltrona art déco original com biombo de chinoiserie e outras de Jean Prouvé, meu artista-fetiche. Também temos composições assimétricas de potiches, luminárias Ingo Maurer de papel e mobiliários chineses e japoneses que anunciam todo o orientalismo branchée do projeto.”
Descrita pelo arquiteto como uma cliente cabeça-aberta, a proprietária é receptiva a coisas novas. Já tinha Picassos, Tarsilas, Bonadeis e muitas obras do grupo italiano Santa Helena.

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Debora usa vestido Nanna Martinez para White Hall, colar Swarovski, brinco e anel Verachi Joias e scarpins Corello. Alex veste calça, camisa e gravata Ricardo Almeida, calça de látex Marcio Banfi para Igor Dadona e sapatos Crawford. Ao lado, escultura Maggi, Artur Lescher, Galeria Nara Roesler

“Foi interessante poder misturar a isso tudo desde uma escultura de Arthur Lescher a reproduções de talheres que trouxe de Paris. O Basquiat choroso, com lágrimas que transbordam a moldura para formar um desenho na parede e outro no chão, também adiciona um aspecto divertido à coleção”, conta. De novo, neste caso, ele trabalhou com as tais “ressignificâncias”. O raríssimo nanquim de Tarsila do Amaral, por exemplo (único estudo feito para a emblemática obra A Negra, de 1923), em vez de moldura, ganhou uma caixa de acrílico, com foco absoluto no desenho. Proposta nada convencional.

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Alex posa no banheiro da suíte principal entre metais e louças Deca, arandelas cromadas art déco, Juliana Benfatti, poltrona estilo Napoleão III e imagem Naomi, de Guido Mocafico

 

O ensaio de moda que o überstylist Marcio Banfi formatou para contracenar com esse enredo todo partiu, basicamente, da inspiração nipônica dos interiores, em que a modelo nissei Debora Wagatsuma sensualiza looks apimentados em clima gueixa (mulher japonesa treinada desde jovem nas tradições milenares das artes, da dança e do canto para entreter e servir, e que o Ocidente costuma associar, muito equivocadamente, à prostituição). Mas como os tempos são outros, a gueixa aqui, neste caso, é soberana e dominatrix, como sugerem os retratos do modelo Alex Rossi, seu antagonista. Pura licença poética. Banfi, aliás, poderia ter feito uso do “figurino” real do apartamento. No quarto da moradora, as roupas estão expostas em araras, sem portas nos armários. Peças de Issey Miyake, Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo, a santa trindade da indústria fashion japonista, atestam que entre a moda e o décor existem muito menos coisas do que supõe a nossa vã filosofia.

Michel Safatle
michelsafatle.com