Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

“Sou eu que faço, sim!” — Leo Shehtman reafirma o sucesso de seu trabalho e diz que graça mesmo é poder se expressar espontaneamente

Fashionista dos pés (calçados em bons Louboutins) à cabeça platinada (que evoca o kaiser da moda Karl Lagerfeld, um dos seus ídolos), Monsieur “Leogerfeld” Shehtman surpreende pelo frescor da nova fase de sua carreira, não tá nem aí para quem desconfia de não ser realmente ele a traçar suas obras recentes e esfrega mais um projeto phodástico na cara da sociedade – em primeira mão para a GIZ

  • 27 outubro 2017
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Monsier “Leogerfeld” Shehtman registrado com a modelo Tainá Felix com turbante Boutique de Krioula

Modernex de plantão que me julguem: sou fã incondicional do Leo Shehtman em sua nova versão – revista, ampliada, rejuvenescida, ousada e bem resolvida. Não que eu falasse mal dele antes, muito ao contrário: por mais que esteticamente os projetos não batessem com as minhas idiossincrassias, sempre soube respeitar o estilo, a história e a estética desse sujeito simpático e bonachão, sem destilar recalque, como é tão comum nos cortiços úmidos, pegajosos e com excesso de contingente blasé do mondo decoracione, que ultimamente amarga sem inovação, sem emoção – e sem clientes. Publicar sua obra, coisa que só faço pela primeira vez agora, já era questão de não-encaixe nas seleções dos veículos que criei ou por onde andei – incompatibilidade de linguagem, diria. Os tempos mudam, os projetos evoluem e, dessa vez, quem correu atrás do Leo, com o rabinho entre as pernas, fui eu.

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O living ganhou poltronas com estampa Pucci e o Maracatu, design irmãos Campana, da linha Objets Nomades para Louis Vuitton

Andam dizendo por aí, à boca miúda, que não foi ele quem inventou os trabalhos recentes (que causaram furor nas últimas edições da Casa Cor, por exemplo). Mera intriga da oposição. Quando lhe pergunto a esse respeito, Shehtman não contrai um músculo sequer, e responde com a categoria que lhe é peculiar: “Más línguas tagarelam em todos os segmentos. Tenho 36 anos de carreira e cheguei até aqui equacionando uma série de fatores que começam com talento, envolvem muita garra, passam pela sorte e, é claro, dependem das bênçãos de Deus. Ninguém ficaria quase quatro décadas com uma carreira bem sucedida se dependesse de outras pessoas para fazer no seu lugar. Do meu escritório já saíram arquitetos que se deram muito bem, por exemplo, e reconhecem o quanto aprenderam. No mais, nada disso tem importância: se estão falando da gente, pelo menos estamos acontecendo”, diz.

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Sala de jantar com mesa de marcenaria; cadeira Vitra; cristaleira Casual

Leo também dá os ombros para quem o classifica como cafona. “Esse negócio de ser brega ou chique é muito subjetivo. A graça mesmo é poder se expressar espontaneamente. Ser brega é se reprimir. Ser chique é fazer aquilo que te dá vontade – com classe, é claro. Sempre fui maduro o suficiente para mostrar, por meio do trabalho, que esses rótulos negativos não fazem jus à minha pessoa”, defende.

Momento regressão: “Meu pai foi um grande arquiteto que acabou se dedicando à construção de habitações populares e edifícios. Embora o admirasse muito, não queria ser aquilo, pois não acreditava em um caminho tão fácil. Daí decidi ser médico”, conta. A rebeldia não durou seis meses. Quando o professor de anatomia lhe entregou um bisturi e ordenou que abrisse o braço de um defunto, ficou verde feito uma cerâmica celadon. “Quase desmaiei e vi que aquilo não era pra mim.” Abraçou a arquitetura com tudo, ganhou o coração – e as casas – de clientes famosos como Gugu Liberato, Claudia Raia e Edson Celulari. Pelas mãos do primeiro, aliás, teve direito a estrelar um quadro num programa líder de audiência na tevê aberta, o que fez o termômetro da popularidade – e talvez o da fama de old fashioned – baterem ainda mais alto.

Fast-forward. Em novíssima e arejada fase, se apresenta mais clean, mais design, mais artsy e mais fashion do que nunca. “Considero meu trabalho alta-costura em décor, mas também acessível, nada que se distancie do cliente”, diz o admirador fervoroso de Karl Lagerfeld, o kaiser da moda que revolucionou a Chanel e a Fendi com mãos de Midas a bordo de luvinhas de couro que cobrem parcialmente os dedos – modinha que Ana Maria Braga aderiu na época da transição Record-Globo, lembram? “Karl é um gênio”, se derrete Shehtman, mas também cita Vivienne Westwood, a inglesa tida como “mãe do punk”, como uma boa influência. Se apresenta um jovem senhor antenadíssimo sem forçar a barra em cada trecho do diálogo, de vez em quando cadenciado por um divertido “abafa o caso”, que usa como muleta verborrágica. Coleciona mais de 100 pares de sapatos em seu closet e sempre volta com excesso de bagagem de suas andanças pelo mundo, com foco em Milão e, principalmente, em Miami, para onde voa pelo menos a cada 40 dias, para cuidar dos negócios que ilustram bem o coté internacional da carreira. Com 60 anos declarados (pode ser um pouquinho mais, segundo seus contemporâneos linguarudos), Leo está com tudo em cima.

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Outro recorte da sala de jantar com poderosa tela do Di Cavalcanti em cena

“Antigamente falava-se muito em tendência. Mas acho fundamental mudar o vocabulário e pensar em estilo de vida, na personalidade de quem vai morar ali.” Neste projeto, um apartamento de generosos 580 metros quadrados em São Paulo, recebeu carta branca dos contratantes. “São clientes do tipo que todo mundo gostaria de ter, que me seguem há muitos anos. Os pais já me contrataram antes, faço as casas da família há algum tempo. Gente antenada, participativa, ligada em arte, que tem muitas obras boas que herdaram ou ganharam.” E bota boa nisso. Pelas paredes, Picassos, Di Cavalcantis (sim, no plural), dividem os queixos-caídos com arte contemporânea da crista da onda, tipo Thais Ueda e Gabriel Wickbold – nosso “comparsa” que anda reverberando lá fora e que caiu nas graças do Planeta Décor aqui dentro. O mobiliário quase todo é importado, “mas temos muitas coisas daqui, como os móveis do estúdio Micasa”, conta.

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A modelo Tainá Felix rouba a cena no balanço Coccoon, design irmãos Campana para Louis Vuitton

Além das lendas pictóricas, outros dois pontos de exclamação na ambientação são a mala de viagem Maracatu (espécie de baú, com prateleiras internas, aqui usada como instalação), e o balanço Cocoon, ambos objetos de desejo assinados pelos Big Brothers Campana para a Louis Vuitton, cujo custo médio, especula-se, orbita na casa dos 100 e 300 mil reais, respectivamente. “Casualmente, essa cliente é uma ótima compradora da Vuitton. O Cocoon e o Maracatu não foram importados por mim – ao contrário dos outros móveis.” Sobre as cifras, Leo, discreto que é, não dá muitas pistas. “Talvez tenha sido um bom budget, mas é menos absurdo do que você deve estar imaginando. Foi um orçamento bem administrado para viabilizar tudo o que fosse possível”, desconversa.

Localizado no quarto andar, com piscina e tudo, em prédio portentoso com um certo vizinho calçando tornezeleiras eletrônicas presenteadas pela operação Lava-Jato, o apê, a julgar pela cumplicidade com que descreve cada cantinho, leva não só a assinatura, como também a alma de Leo, para calar a boca dos fofoqueiros. “Claro que ninguém faz nada sozinho e conto com uma equipe fabulosa. Mas não sei delegar. Me encontro com o morador, analiso gostos, anseios, desejos, me sento com os arquitetos e todos participam, palpitam. Mas não sei tirar as mãos de cima. Quando estou viajando, graças às tecnologias, acompanho as obras passo a passo, milimetricamente.” Toca uma equipe jovem e vibrante como ele, com 18 pessoas, que produzem cerca de 50 a 60 projetos por ano. Engraçadíssimo, faz piada com quase tudo e, ainda assim, é um dos profissionais mais respeitados na tradicional comunidade judaica da qual faz parte (incluindo a ortodoxa) e que constitui uma das fatias mais expressivas de seu público. “Sempre fui irreverente, exagerado, inusitado. Nunca fui nem o melhor nem o pior da Casa Cor, mas sempre me destaquei por fazer algo diferente, já que lá não tem o cliente para dizer ‘não gosto ou não pago’. E, como tudo anda muito igual por conta da globalização, me reinventar era questão de vida ou morte. Achei melhor olhar para frente do que espiar o que todo mundo tá fazendo”, diz, modesto, sem mencionar que o seu espaço este ano na mostra de décor mais importante das Américas foi um dos pontos altos do evento (e um dos ambientes prediletos deste jornalista que vos escreve).

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No canto do estar, luminária Issey Miyake; ao lado, destaque para o pendente Corda e grafite, ambos da Micasa

Cirurgia plástica, pra ele, também não é tabu. “Nunca puxei o rosto, mas apelo a todos os recursos que a fabulosa dermatologia tem a oferecer. Uma lipo aqui e outra ali já fiz, porque ninguém é de ferro”. Pai de dois filhos, um rapaz de 33 anos que trabalha com representação de papéis de parede (e ainda mora com ele) e uma moça de 30 anos, casada, que cria cavalos de raça (e que mora há uma quadra da casa do pai), Leo é bem família. Também considera Brunete Fraccaroli, outra diva legendária do segmento, uma irmã. “A conheci na primeira Casa Cor, mais de 30 anos atrás, e nunca mais nos desgrudamos. Dividimos momentos bons e ruins.”

Queridíssimo por todo mundo (outra característica rara no meio), Leo reverencia os modernistas de seu tempo, como Marcio Kogan, Isay Weinfeld, Arthur Casas, e alguns expoentes da nova geração, incluindo Guilherme Torres e as trincas que compõem os estúdios da Suite Arquitetos e da Yamagata Arquitetura. Mas morre de amores mesmo é pela designer espanhola Patricia Urquiola, “um combo de inteligência, bom gosto e simplicidade, de quem já tive a oportunidade de estar próximo algumas vezes”, finaliza. Com tanta vivência, pesquisa e informação, natural que seja mesmo ele o autor da última safra de projetões bacanas. O resto, é intriga da oposição.

 

Leo Shetman Arquitetura e Design 
leoshehtman.com.br