O design que cura: ideias convertidas em projetos para melhorar a vida de todos

A quarta reportagem da série O lado social do design mostra que além de projetar espaços, produtos e serviços, o design e a arquitetura contribuem para a melhora e recuperação de pacientes com iniciativas que proporcionam qualidade de vida, bem estar e auxiliam nos tratamentos médicos recomendados.

  • Por:Iara Aurora
  • 21 novembro 2016
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Eatclip, talher criado pelo designer Domenico Justo, para pessoas com dificuldades motoras nos membros superiores

Há mais de duas décadas o professor de arquitetura da saúde e também pesquisador de design Roger Ulrich divulgou pesquisa no Texas, EUA, em que discute o poder do desenho de interiores na recuperação de pacientes. Intitulado “View Through a Window May Influence Recovery from Surgery” ou em tradução livre “Ver através de uma janela pode influenciar a recuperação da cirurgia”, o estudo compara as diferenças na melhora entre pacientes colocados em quartos com vistas para natureza e enfermos hospedados em dormitórios com janela de frente para o concreto de um edifício.

De acordo com a análise, os pacientes hospedados com vista para áreas com verde apresentaram curtas estadias hospitalares no pós-operatório além de positivas avaliações e consumo de analgésicos menos potentes para ajudar no processo de recuperação em comparação com os que estavam nas acomodações com vista para os cinzas do edifício. Mudar um ambiente qualquer em um espaço recheado de experiências positivas, boas vibrações e bem estar é um dos papéis do design e da arquitetura.

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Carolina Botelho, arquiteta e diretora executiva da Kahn do Brasil, diz que os hospitais investem no design para promover sensações novas aos pacientes

No mundo hospitalar não seria diferente, como explica Carolina Botelho, arquiteta e diretora executiva da Kahn do Brasil. “Tudo é relacionado a experiência de vida e o design, por sua vez, promove sensações e experiências nas pessoas tão boas que fazem com que elas sempre busquem essa vivência positiva. Se você reparar pelos lugares que passa hoje em dia, vai notar que o design e a experiência projetada pelo ambiente que tem design sempre o fazem voltar para lá ou preferir estar lá do que em outro lugar que não tenha o desenho de interiores bem pensado e construído. Baseado nisso, os hospitais estão buscando usar o design a seu favor para tirar a cara de hospital padrão e promover experiências novas aos pacientes”, pontua ela.

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Clínica Hospitalar Baum, projetada pela Kahn do Brasil em Blumenau,SC´, com entrega prevista para 2018. Render: Visualize

Escritório de arquitetura e engenharia especializado no desenvolvimento de projetos de alta complexidade e multinacional americana, o Kahn é responsável por uma série de trabalhos que projetam design com foco no paciente, como as unidades assinadas para o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. As criações da Kahn para hospitais é inclusive certificada pela Planetree, organização que tem o objetivo de humanizar e desmistificar a vivência e os cuidados de saúde propondo sempre o uso, além da aplicação do design centrado no paciente.

O professor e dr. Siegbert Zanettini, titular na FAU-USP e profissional que comanda a Zanettini Arquitetura em São Paulo, também acredita nas melhorias da arquitetura hospitalar para a recuperação de pacientes. “O design e a arquitetura são auxiliares que podem tanto contribuir para a reabilitação de pacientes, como também no rendimento do trabalho das equipes médicas, de enfermagem e de serviços”, diz o experiente profissional que desde a década de 60 desenvolve projetos de arquitetura hospitalar.

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Hospital e Maternidade São Luiz Anália Franco, em SP, assinado pela Zanettini Arquitetura

Um dos trabalhos pontuados por Zanettini realizados ao longo de sua trajetória é o do Hospital e Maternidade São Luiz Anália Franco, na capital de São Paulo. “A praça colocada em volta das edificações do entorno foi uma solução encontrada para disciplinar acessos e criar um envoltório verde em torno de todo o pavimento térreo” explica ele.

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“É muito comum o design não só de arquitetura como de interiores e mobiliários interferir beneficamente à saúde dos pacientes”, diz a arquiteta brasiliense Fabianna Cavalcante

Pensar estrategicamente em como transformar a rotina de hospitalizados ou doentes em um processo doloroso para uma vivência mais tranquila e confortável é uma das tarefas da também arquiteta brasiliense Fabianna Cavalcante, que comanda estúdio próprio na capital do Brasil especializado em construções e trabalhos hospitalares. “É muito comum o design não só de arquitetura como de interiores e mobiliários interferir beneficamente à saúde dos pacientes. Casos como camas ou cadeiras projetadas para facilitar a locomoção de pacientes e promover recursos para o uso em fisioterapia são referências de design de resultados”, diz a jovem profissional, de 27 anos, ao comentar a importância do design para a arquitetura hospitalar.

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Hospital em Águas Claras, DF, projetado pela arquiteta Fernanda Sá Guimarães com consultoria de Fabianna Cavalcante

Além da criação de espaços, produtos específicos para a reabilitação de pacientes também são amostras de trabalhos que ajudam a curar, recuperar e tratar enfermos ou portadores de necessidades especiais. É nesse nicho que se encaixa o Eatclip, talher projetado pelo designer Domenico Justo para sua monografia de pós graduação em Design de Produto pela FAAP, em Sampa. Desenvolvida em 2015, a criação busca atender pessoas de todas as idades com dificuldades motoras nos membros superiores, que apresentam pouca destreza e sofrem com falta de firmeza para pegar objetos.”Muitos brasileiros mal conseguem se alimentar sozinhos por causa de diversas doenças como artrites, síndrome do túnel do carpo e até mesmo deficiências intelectuais. Foi então que surgiu a ideia de criar utensílios para que quem sofre com problemas motores nos membros superiores pudesse ser autossuficiente”, explica Justo ao contar um pouco sobre como surgiu a ideia de projetar o talher. Não há dados oficiais, mas a doença do túnel de carpo citada por Domenico, causadora de fortes formigamentos e dores nas mãos, atinge entre três e cinco por cento da população mundial.

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“O design pode ajudar e muito os pacientes com alguma debilidade a serem mais aceitos socialmente”, defende Domenico Justo

Para desenvolver o talher especial, o designer se aprofundou por quase um ano nas doenças clínicas que acometem os membros superiores, realizou pesquisas sobre biodinâmica e também anatomia. “Estudei como criar um encaixe e equilíbrio, depois usei alguns conceitos de design e estética para desenvolver o produto. Me inspirei muito nas criações feitas para crianças em desenvolvimento motor, perfeitamente adaptáveis para adultos, e na história de vida da minha mãe, que sofria de artrite e muitas vezes ficava com as mãos deformadas e doloridas”, relembra Domenico.

Feito de plástico e borracha, o talher assistivo conta com um clipe desenvolvido especialmente para ser preso na palma da mão do usuário e garantir assim facilidade para sua alimentação sem o tremor do membro. Disponível no acervo permanente da biblioteca da FAAP, o projeto do Eatclip desenvolvido por Domenico Justo também foi exposto em 2015 no Prêmio Salão Design, grande premiação de design de produtos da América Latina, além de ter entrado para o catálogo desta celebração. “Sempre acreditei que nós designers temos um importante papel social, o que sempre me inspirou a tentar contribuir de alguma forma para a sociedade. O design pode ajudar e muito os pacientes com alguma debilidade a serem mais aceitos socialmente”, finaliza ele.