Originalidade: o ingrediente vital da indústria do design

Numa época em que todas as formas, volumes e texturas já foram inventados e reinventados à exaustão, a matéria-prima mais infalível – e rara – de todas continua sendo o bom e velho desenho autoral. Apesar das cópias representarem um perigo real e imediato, alguns criativos ainda estimulam (e impulsionam) o crescimento do setor no País

  • 21 julho 2017
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Objetos da coleção Paleae Brasilis, desenvolvida por meio de parceria entre Brunno Jahara (designer) e Ana Voss (estilista)

A edição 2017 da semana de design mais disputada do mundo – o Salão do Móvel de Milão, que movimenta, a cada abril, as cifras mais expressivas do setor –, já deixou mais do que claro: estamos vivendo um dos piores colapsos da história recente da movelaria. Um crash muito mais criativo do que econômico e um sintoma de que o desenho autoral, em tempos de tantas cópias (e, muito pior, de tantas vistas grossas às cópias), passa a ser o grande x-factor para driblar o déjà-vu e voltar a impulsionar a roda. Mas, como apostar no novo?

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Arandela Bola e pendentes Gramofone – ambas as peças são de autoria da designer Bianca Barbato

Com protótipos que chegam a custar 500 mil Euros (entre estudos de novas tecnologias e matérias-primas), a máquina mundial prefere apostar em formas já consagradas, com tiro certeiro no consumo, o que movimenta “tendências” em pseudo-evoluções mais baratas. Velhas linhas são revisitadas em novas cores e acabamentos, por exemplo, gerando um ciclo vicioso que se traduz em muitos produtos com cara de “mais do mesmo” e poucas novidades tangíveis em si. E, nesta métrica, replicar se transformou num dos verbos mais conjugados do setor.

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Luminária de piso Distorção e luminária de mesa Bola, design Carol Gay

Não é de hoje. Numa explicação simplista, as cifras tem sido bastante movimentadas pela reprodução quase irresponsável de clássicos como a legendária mesa Saarinen Tulip (projeto do designer escandinavo Eero Saarinen, de 1957 e moderna para sempre), ou as cadeiras Bertoia (de Harry Bertoia, produzidas pela primeira vez em 1952). Tecnicamente, toda peça de mobília assinada por designers que morreram há mais de 50 ou 70 anos (dependendo do País) cai em domínio público, o que não torna sua reprodução necessariamente um crime.

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Luminária pendente Corda + mesa de apoio Adobe e poltrona Tela – tudo assinado pelo designer Guilherme Wentz

“Numa época em que todas as formas, volumes e texturas já foram inventados e reinventados à exaustão, a matéria-prima mais infalível – e rara – de todas continua sendo o bom e velho desenho autoral”

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Detalhe do banco Iaiá e a poltrona Eva, do designer carioca Gustavo Bittencourt

Mas, algumas empresas usam matéria-prima tão ordinária e descaracterizam tanto as medidas originais que chegam a escandalizar a cartilha básica do bom design com proporções fora de escala, ergonomia zero e formas com pouca (ou nenhuma) função, engrossando o coro de que o barato pode custar caro. Até gabaritos eternizados pela história estão ao alcance de um clique nesses tempos de globalização. Em uma navegada rápida pelo Google, por exemplo, é possível encontrar tutoriais de marcenaria que ensinam a fazer a sua própria cadeira Red and Blue (clássico de 1917 cunhado por Gerrit Rietveld) em casa.

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Poltrona Move (vermelha) e Ninfa (azul), de autoria do top designer Rodrigo Almeida – único brasileiro com peças no acervo permanente do Centro Georges Pompidou, em Paris

Em pesquisa encomendada pela agência Reuters (e publicada pela revista Exame, em 2013), a associação de design de luxo Altagamma afirmou que quase 2 bilhões de Euros em cópias são vendidos no mundo ao ano. A Federação de Comércio do Rio de Janeiro confirmou, recentemente a triste suspeita: cerca de 40% dos consumidores brasileiros compram produtos piratas.

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Cadeira Bakairi (esquerda) e Ticuna, ambas de autoria do designer Sergio J. Matos, que tem sua identidade criativa enraizada nos saberes artesanais dos povos indígenas

A boa notícia é que players expressivos do setor ainda apostam na originalidade como combustível básico de seus business. Confira a seleção e lembre-se: a novidade está nos olhos de quem vê.

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Cadeira Velvet e poltrona Savana, do designer Tiago Curioni

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