Revista Giz

03 Mai 2017 - Jul 2017

#3 | Água Viva

ArteDesign

(Re)nascida em Vênus: linda, inteligente, engajada e empoderada, Mariana Ximenes posa para GIZ #3

Aos 36 anos, 20 deles dedicados às artes cênicas, Mariana Ximenes exibe fôlego e transpira inteligência, vitalidade, feminismo, cultura, engajamento e empoderamento numa época em que essas são as palavras-chave para abrir as portas do amanhã. Aqui, a diva-artsy que já posou de musa para Miguel Rio Branco, Delson Uchôa, Nelson Leirner e Adriana Varejão, dispara sua filosofia de vida em bate-papo + ensaio que representam, literalmente, um mergulho livre no que há de mais profundo em sua essência: “É preciso ter poesia e arte na vida para conseguir caminhar de uma forma mais gostosa, mais fluida, mais ampla”. E flutuar, na terra, no ar e no mar

  • direção e textos:allex colontonio + André Rodrigues
  • Edição de Moda:Caio Sobral + Rodolfo Beltrão
  • Produção de Moda:gabriela Chagas
  • Make/Hair:krisna carvalho
  • Locação:Genesis Ecossistemas
  • 3 julho 2017
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Mari Ximenes veste saia Gucci (gucci.com) e brincos Dior (dior.com)

Por que a vida não pode ser uma obra de arte? O coro do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) é engrossado pela personagem real e imediata que estampa a fabulesca, onírica, mitológica, sistina, venusiana e um tanto “Disney-design-cool” (por que não?) capa desta GIZ: Mariana Ximenes. Sabíamos exatamente o que queríamos quando convocamos esta que é uma das estrelas mais cintilantes dos folhetins brasucas: uma foto surreal debaixo d’água (mas tinha que ser submersa mesmo, não de mentirinha, com caras e bocas lindas, ainda que nossa divindade ficasse sem respirar, com sorriso farto e pose serena, até os pulmões craquelarem, sem cara de feto em vidro de formol na feira de ciências). Não era uma foto para qualquer um, óbvio. Era para Mariana. A sílfide perfeita para traduzir a natureza-tema da edição que resolvemos conduzir por vias fluviais, embarcando prosa, verso e imagens phodásticas. Mais uma das missões tresloucadas e nada fáceis de executar que inventamos por aqui (como costumam ser todas as superproduções da GIZ), e que nossa musa comprou com entusiasmo instantâneo – e tiraria de letra, sem respingar uma gotinha de estrelismo na gente. Repartimos o shooting, complexíssimo, em duas metades. Na primeira delas, embarcamos às cinco da manhã de uma quarta-feira numa van com uma equipe de 18 pessoas (entre stylists, cabelereiros, maquiadores, produtores, fotógrafo e assistentes) para Holambra, cidade no interior paulista conhecida pelo mercado de flores e que entrega no nome sua colonização holandesa. Mariana seguiu na sequência, com nosso motorista e sua assessora Juliana Mattoni, uma das mais transparentes, competentes – e éticas – do vaidosíssimo e afetado Planeta Celebridade (a gente encontra cada assombração nesse mercado que, quando surge uma Juliana, vale agradecer de joelhos e atirar oferendas no mar a Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Ynaê, Janaína e Iemanjá). Por lá, mesmerizada pelo visual paradisíaco, Mariana mergulhou com vasos, acessórios e vestidos deslumbrantes nas três piscinas biológicas naturais – um elemento em voga no paisagismo contemporâneo – da Genesis Ecossistemas, empresa-referência no assunto tocada por sujeito jovem, bonitão, e entusiasmado chamado Ricardo Rossi, que, entre outras comendas, já construiu até lago cenográfico para novelas no Projac. Sinergias globais!

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Mariana Ximenes usa vestido Reinaldo Lourenço (reinaldolourenco.com), brincos e anéis Jack Vartanian (br.jackvartanian.com). Cadeira de madeira, design Fernando da Ilha do Ferro, Galeria Estação (galeriaestacao.com.br)

Mari nadou com carpas cyprinius, hypophthalmichthys molitrix, aristichthys nobilis e outras raças mais cujos nomes só farão sentido se você for um criador. Mas, trocando em sardinhas, são mais mansas do que lulus de estimação. E metidas a besta também: imagine que esses projetos de sushi aquarelados podem chegar a custar R$ 35 mil reais! Estão mais bem cotados do que alguns dos figurinos grifados com os quais a atriz posou – e que a gente molhou sem dó nem piedade em nome da foto perfeita, para depois ficar secando no desespero, já que seria preciso devolver tudo intacto às grifes – alô, video-produtoras: os bastidores da GIZ dariam um reality show e tanto!). Foi um dia inteiro acompanhando os melindres solares daquele abafado mês de março, torcendo para que as águas do Jobim, aquelas que fecham o verão, não cortassem nossa brisa. São Pedro atendeu e nos presenteou com um céu de brigadeiro. Centrada, educadíssima, good vibes e linda feito uma deusa de Atlândida com sua ninfeia presa à trança, Mari manteve a ternura até quando percebeu que o protetor solar não segurara a onda e que tinha saído levemente estorricada do set improvisado. Se entregou às lentes de Salvador Cordaro com uma leveza difícil de escrever – mas muito fácil de perceber olhando essas fotos (esperamos que você, amado leitor, curta tanto quanto a gente, que faz de tudo um pouco e um pouco de tudo para arrancar um suspiro seu).

GIZ-mariana-ximenes-7A segunda sessão, exatamente um dia depois, sem direito a intervalinhos, foi em Sampa, na casa-ateliê de Maurizio Mancioli (o mesmo que você verá nas páginas adiante, com sua bolha de cientista maluco). Mariana, guria antenadinha da tribo das artes, já havia estado ali antes, é claro – ela tá por dentro de t-u-d-o quanto é bafón que rola no circuito. Claro que GIZ não facilitaria e optou pelo menos viável (que seria uma piscina com frontão de vidro, mais profundade e maior controle de cena). O desafio seria descer as mil léguas submarinas da cápsula (na verdade, eram só três metros, mas para quem está dentro, é quase um truque de escapismo do Grande Houdini), e brincar de instalação do Damien Hirst, mas sem bizarrices. Queríamos uma Mariana muito viva dentro dela, lúdica, quase uma fadinha flutuante da Dream Works. Armamos outro circo, forramos uma das faces da cápsula com um fundo azul da cor do mar e Mari mergulhou no tubo com a mesma propriedade – e graça – de uma sereia. Descia com o respirador, fazia a pose perfeita, prendia o fôlego, tirava a máscara e clec, clec, clec. No primeiro mergulho, deu com o nariz na parede superespessa de acrílico, tonteou, quase me causou um AVC – do lado de fora, a gente prendia o fôlego junto com ela –, mas seguiu brava, linda, loira e quase japonesa (abrir os olhos debaixo d’água não é lá muito fácil). Repetiu o mergulho 64 vezes (sim, nós contamos). Uma coreografia ensaiada à exaustão para que o melhor cabelo, o melhor caimento do vestido, o melhor movimento das mãos e a melhor expressão chegassem até você. Uma lição de profissionalismo e outra de respeito aos que a cercam. Dias intensos e gratificantes. Nas duas jornadas, foi aplaudida de pé pelo staff e por curiosos.

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Com quase 3 milhões de seguidores no Instagram, Mari parece carregar no DNA o código genético para a fonte da juventude e, atrás da orelha, uma pulga que aciona suas antenas para o que há de mais contemporâneo rolando no planeta: “Há uma censura velada. Acho que tem um ponto importante: educação. Se a gente tem uma educação consistente – e eu estou falando das massas populacionais –, você começa a ter um povo que reivindica mesmo, que se posiciona, que tem propriedade para isso”, defende, de modo que fica estabelecido que a mademoiselle está atenta aos sinais. No currículo, soma mais de uma dezena de filmes, entre eles o festejado “O Invasor”, de Beto Brant (que lhe garantiu quatro troféus de melhor atriz coadjuvante), e um sem-número de participações no horário nobre. Mari X subiu o volume de sua carreira profissional e virou produtora da peça em que atuou (“Os Altruístas”). Críticas favoráveis, bilheterias disputadas. O saldo, positivo. “Só me arrependo um pouco da peça não ter continuado, porque ela caberia tão bem agora! Era politizada. Era militante, no melhor sentido. Falava das feridas da sociedade de uma forma muito bem-humorada”, pondera. A proximidade de assuntos de ordem sociopolítica vão ao encontro da predileção que nutre pelas artes plásticas: “Meus pais sempre me acostumaram a ir à exposições e à Pinacoteca de São Paulo”, revela a jovem que já serviu de tema para trabalhos artísticos de pontos cardeais que acabaram se tornando seus amigos, gente como Adriana Varejão, Delson Uchôa, Miguel Rio Branco e Nelson Leirner. “A Varejão encapou três cadeiras com três formas diferentes de salgar a carne. Carne de sol, carne de charque e carne seca. E também tinha a carne humana deitada sobre as cadeiras – que era eu”, discorre sobre a performance à qual se submeteu sob a batuta da artista plástica carioca que é a mulher mais politizada (e influente) do métier no Brasil.

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Mariana com vestido Carina Duek (carinaduek.com.br) e brincos Gucci (gucci.com), vaso de cerâmica da coleção Uirapuru, design Alexandre Dal Fabbro e Marta Vaz (alexandredalfabbro.com), e banco de madeira design Fernando da Ilha do Ferro, Galeria Estação (galeriaestacao.com.br)

Mari come pastel, vai ao aniversário do amigo jornalista, conta para todo mundo que sua amiga Bel gosta de pão de queijo com farofa. Tá na rede. Mantém-se jovem – as fotos #semfiltro não mentem. Esteve no festival Coachella, foi ao show do Radiohead. Também foi ver o Sigur Rós – coisa de gente moderna. “Que combinação linda entre uma orquestra clássica com a banda islandesa de post-rock Sigur Rós! Um encontro acachapante nessa arquitetura de tirar o fôlego do Walt Disney Concert Hall!”, postou em seu insta @marixioficial, revelando publicamente seu interesse pela mais humana das artes – a arquitetura. Também se posicionou quando achou que devia, encarando de frente outra vênus: a platinada. “Toda e qualquer violência física e psicológica contra a mulher deve, sim, ser repudiada. Quando se fala em agressão, não devemos pensar apenas em socos, tapas e chutes. A agressão também se faz com palavras, atitudes e manipulações que ferem a nossa dignidade. Estar presa em um relacionamento abusivo é também não ter real dimensão da gravidade da situação. É preciso que fique claro aqui que as atitudes de Marcos Harter são de truculência e violência, principalmente psicológica, contra Emilly Araújo. Sempre é importante destacar: a lei Maria da Penha enquadra a tortura psicológica como violência doméstica. Para além dessa nossa fala, o protagonismo do público em denunciar e amplificar o caso é comovente. Que nossa voz ecoe e ajude a não deixar uma de nós só. Porque se mexeu com uma, mexeu com todas, SIM”, disparou acerca do ocorrido em rede nacional, no programa BBB. Se ela é feminista? “Totalmente. Eu sou mulher. Tenho, quero ter e quero que todas as mulheres tenham o livre arbítrio sobre o seu corpo. Eu acho que acima de tudo é igualdade”. Em uma inversão/reversão da máxima “a arte imita a vida”, Ximenes remete às palavras que publicamos em nossa GIZ #1, em texto da amiga/jornalista Erika Palomino (que, vejam só, é também querida de Mariana): “A arte, mãe, abraça e consegue dar sentido até aos piores sentimentos, faz valer a existência menos nobre. Principalmente ela, btw. Transportados para fora da caixinha branca, diante da Arte, esquecemos de nossa infame mediocridade e encontramos o Criador”. O resto, é blá-blá-blá, mas daqueles bons – a gente não queria desgrudar da Mari e você também não vai querer. Confira:

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Mariana usa body Intimissimi (intimissimi.com.br), vestido Emanuelle Junqueira (emannuellejunqueira.com.br), brincos Jack Vartanian (br.jackvartanian.com) e vaso da coleção Conterrâneos, design Brunno Jahara, Carbono Design (carbonodesign.com.br)

Invadi a sua casa uma vez, sem você saber e fiquei ainda mais curioso a seu respeito do que quando entrei…
(risos) Claro que eu soube! (nota: quando dirigia a Wish Casa, um grande amigo em comum, Antonio Ferreira Jr., me levou ao apartamento paulistano de Mariana e começamos ali uma negociação para publicá-lo, que não avançou. No dia da “invasão”, Mariana estava no Rio)

Pois é, você sempre foi reservada em relação à sua vida, mas sabemos que é muito interessada em arte. Quando entrei lá, encontrei a casa de alguém com muita personalidade, e muito conectada aos movimentos plásticos… Na época você tinha acabado de comprar uma chaise do Niemeyer.
É verdade. Nem sempre o que você quer, você pode. É aí que você foca, economiza e pode fazer algum arroubo consumista, como aquele. E que bom que você teve essa impressão porque não é nada estratégico. É simplesmente como me sinto. É engraçado, por exemplo, como o meu apartamento no Rio é completamente diferente do meu apê daqui de São Paulo. Eu acho que o meu olhar vagueia. Não sei te falar se eu gosto de uma coisa só, como também não sei te falar o meu gosto específico. Eu simplesmente olho, sinto e gosto. Ou não.

E como a sua relação com as artes plásticas começa? Imagino que seja um caminho natural para uma atriz, que é interessada na expressão humana… Você se lembra da primeira obra de arte que adquiriu, por exemplo?
Lembro. Na verdade, é engraçado porque vem tudo meio junto. Me lembro de uma exposição que fui aqui em São Paulo, chamada Arte/Cidade (projeto de intervenções urbanas, que acontece desde 1994). Peguei o metrô, descemos na Estação da Luz, um lugar que meu pai sempre adorou – ele é advogado, trabalha no Centro, passeava muito com a gente por lá, nos apresentando a melhor arquitetura. Nessa expo, eles botaram um trem, que ia até uma fábrica abandonada dos Matarazzo. Pelo caminho, colocaram uma interação. Quando o trem parava, você via que eram vários desenhos. Mas, quando o trem andava rápido, era uma animação. Fiquei fascinada pelo passeio, pela experiência. Gosto de vivenciar essas coisas. Além de ter o visual, você está em uma fábrica abandonada. É uma aventura que acho tocante, sensível. Tinha uma obra da Laura Vinci (Sem Título, 1997). Foi tão engraçado, porque a artista é conhecida da Camila Pitanga. Outro dia, faz um um tempinho já, fomos ao Arte Rio ou à SP Arte e ela falou “que linda a obra da minha amiga”. Aí, eu perguntei para o galerista se aquilo estava na Arte/Cidade 20 anos atrás. Ele confirmou.

Você lembrou do trabalho que tinha visto duas décadas antes…
Sim. Voltando à sua pergunta, várias coisas vêm na minha cabeça. Eu tinha entre 15 e 16 anos. Fui fazer um filme em Alagoas. Lá, conheci o Celso [Brandão] e o Delson [Uchôa]. Tive contato com a obra dos dois, com o olhar dos dois. O Celso tem uma incrível coleção de arte popular, e eu adoro. Ele me apresentou o artista que você tem uma cadeira e eu tenho uma namoradeira (Mari se refere à cadeira do Seu Fernando da Ilha do Ferro [1928-2009], que eu levei para este ensaio). Fiz um trabalho com o Delson e ficamos amigos. A gente sempre vivencia a experiência, e não só em Artes Plásticas. O Zé Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, por exemplo. Ficava louca com aquele teatro, projetado pela Lina Bo Bardi. Primeiro me interessei pelo teatro enquanto espaço físico e fui entender o que era aquela arquitetura. Depois, pelo Zé Celso e pela obra do Zé.

Você adora sentir de perto…
Amo. Tanto que fui para Canudos assistir “Os Sertões”. Imagina essa aventura de assistir a uma obra escrita por Euclides da Cunha (1866-1909), lá em Canudos. E imagina ver isso com o Zé Celso lá no local. Fui para Salvador, aluguei um carro, dirigi sete horas. Não tem hotel. Liguei para a Prefeitura e consegui um lugar para ficar. Então, eu me interesso, me jogo. Sou curiosa neste sentido. Não curiosa em relação à vida dos outros, mas em relação às pessoas. Gosto de gente. Sou curiosa mesmo. E observadora.

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Mariana clicada com vestido Marcelo Quadros (marceloquadros.squarespace.com), baleia e coelho de cerâmica Jonathan Adler (jonathanadler.com), brincos Herchcovitch; Alexandre (loja.herchcovitch.com.br), bracelete Jean Paul Gaultier para Swarovski (swarovski.com.br)

Você teve outras experiências mais intensas também com artes plásticas…
Sou muito fã do Miguel Rio Branco e propus a ele: “vamos fazer alguma coisa”. Fui para o seu sítio, onde fica o estúdio. Andando pelo jardim dele eu vi um pé de urucum e perguntei se podia pintar o meu corpo. As fotos vieram daí.

Você tem uma relação com a arte que vai além da estética, pelo que eu tô entendendo… Teve também a Varejão e o Leirner, né?
É isso! E das trocas. E a gente sempre fica amigo. Não sei te explicar, mas acontece. Sobre o Nelson Leirner, já tinha obras dele e ele foi convidado para fazer um trabalho no caderno Ela [do jornal O Globo], e eu topei fazer. Deu certo. Com a Varejão, fomos até o Inhotim. Ela encapou três cadeiras de diferentes formatos com carne. Três formas de salga: a carne de sol, a carne de charque e a carne seca. E também tinha a carne humana deitada sobre as cadeiras. Que era eu, no caso (risos).

São três artistas sócio e politicamente muito ativos. Isso te interessa nas artes? Esse engajamento sociopolítico, enquanto manifestação?
Muito! Inclusive, hoje acordei às seis horas da manhã para colocar a leitura em dia e vi o artigo do Wagner Moura na Folha de S. Paulo [“Quem tem medo de artista?”, publicado em 21 de março de 2017]. “Artistas são seres políticos. Pergunte aos gregos, a Shakespeare, a Brecht, a Ibsen, a Shaw e companhia – todos lhe dirão para não estranhar a participação de artistas na política”. Achei muito sensato colocá-lo assim. Ele escreve divinamente. E fala exatamente isso, porque o artista já é por si só uma pessoa engajada. Antigamente, pela censura, os próprios textos teatrais já continham toda posição e reivindicação política e socioeconômica nos textos, na dramaturgia. Nas músicas do Chico Buarque, por exemplo, a gente vê claramente uma resposta à ditadura, à censura.

Há uma censura velada. E tem um ponto importante: educação. Se a gente tem uma educação consistente – e eu estou falando das massas populacionais –, você começa a ter um povo que reivindica mesmo, que se posiciona, que tem propriedade para se posicionar.

Sei que você tem coisas do mainstream ao alternativo, de Patricia Urquiola aos artesãos ribeirinhos do interior do Brasil, por exemplo. Como fica por dentro de tudo isso?
De várias maneiras. Outro dia vi um documentário lindo do Niemeyer, “A vida é um sopro”. Adoro os Zanines, o pai e o filho. O Sergio Rodrigues, o Paulo Mendes da Rocha e sua cadeira Paulistano… Na minha casa do Rio, o Miguel Pinto Guimarães, grande amigo, por exemplo, me ajuda a beça. Como me interesso, procuro me informar. Também gosto muito do Marko Brajovic, do Guto Requena, do Marcio Kogan.

Você está buscando um modelo de vida um pouco mais frugal, que tem a ver com contenção, considerando a retração econômica… Pode falar um pouquinho sobre essa fase?
O momento agora é outro. É difícil. Aluguei meu apartamento de São Paulo porque tinha um custo alto com isso. É interessante você viver do seu tamanho porque começa a escolher melhor o que quer fazer, os seus trabalhos. É uma linha muito tênue. Amo o meu ofício. É muito recompensador quando você vive do seu ofício, mas, às vezes, você quer diminuir o ritmo, fazer menos coisas e se dedicar mais tempo. Estou mais nessa pegada. Me desapeguei desse apartamento, mas foi muito doloroso. Tirei algumas peças e aluguei.

Você acha a arte, enquanto consumo, quase inalcançável, na forma como se apresenta?
Acho que começou a diluir um pouco. E existem alternativas. Pode olhar artistas jovens, que estão começando, porque aí é um pouco mais barato. Então, você começa a desenvolver sua capacidade de investir em alguém jovem. Quem sabe, lá na frente, em uma projeção de futuro, comece a render. Às vezes, converso com alguns colecionadores e eles falam: “a gente comprou Lygia Clark (1920-1988), Hélio Oiticica (1937-1980), quando eles estavam no comecinho”. Não eram os nomes que são hoje. E volto de novo às experiências, à questão do viver, mais do que a do ter. Fui à Bienal de Veneza há uns quatro anos. Me lembro que tinha um barquinho que saía em horário determinado com uma orquestra dentro. Era uma performance.

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Mesa lateral Estrela, design Irmãos Campana, A Lot Of (alotofbrasil.com.br)

Você já foi performática com os trabalhos que mencionou, por exemplo…
Adoro a Marina Abramovic, a Sophie Calle. São nomes fortes. A própria Lygia Clark fazia algumas coisas. Eu não vi, infelizmente, mas leio sobre. O nosso próprio ensaio, pelo menos a parte que fizemos ontem, tem uma referência aos “Parangolés” do Hélio Oiticica, não tem?

Mostrei vários trabalhos do Oiticica aos stylists e ao Salvador Cordaro na reunião de briefing. Queria esse volume “parangoleano”…
Então. São coisas que a gente gosta e que servem de inspiração. Tem a galera jovem também, que está começando. Gosto muito do Eduardo Berliner, do Henrique Oliveira…

A julgar pelas citações, você gosta de obras apoteóticas…
Insisto: obra de arte deve ser uma experiência. O Henrique Oliveira fez uma buceta gigante. Você viu isso? Era uma buceta gigante e você entrava lá (risos). Era engraçado. Desculpa, falei assim meio rude. É melhor falar vagina? O que se encaixa melhor?

(risos). Aqui você pode falar o que você quiser. Você tem algum sonho de consumo em arte?
Adoro as coisas do Ernesto Neto, por exemplo. E o Cildo Meireles, que tem essa coisa de você pisar nos cacos de vidro, ou de penetrar no “Desvio para o Vermelho”. Mas acho que a gente pode tentar discutir mais sobre a arte democrática para todos. Tem um projeto que estou fazendo que chama “A arte salva”, dentro do lixão de Gramacho [Duque de Caxias, Rio de Janeiro]. Eles fazem oficinas de arte. É legal falar de arte como uma coisa acessível, também, porque senão fica essa imagem, né? De que é caro, de que não vai entender, isso e aquilo. Quando, na verdade, não precisa entender. Não é para entender, é para sentir. Claro, se você tiver um envolvimento político e vontade pode ler por que a Yayoi Kusama mora em um hospício e tem obsessão por bolinhas. Esse é um ótimo exemplo, porque ela se curou por meio da arte. Nem sei se ela se curou, na verdade, mas ela administra a loucura dela, vamos chamar assim, por meio da arte. Eu ia falar também do Ai Weiwei e dele quebrando vasos de 2 mil anos de idade [Dropping a Han Dynasty Urn, 1995], aí você vai entender tudo que está por trás…

A missão política dele. Talvez ele seja o artista mais engajado de todos na atualidade…
Voltamos ao primeiro ponto, naquela questão do artista como voz política. Acho que você não precisa entender, mas é legal você ir lá e procurar saber por que ele está fazendo aquilo. Ainda sobre o lixão [de Gramacho], por exemplo, é isso. As crianças pegam discos e pintam. Uma vertente superválida da arte. Sou a madrinha do projeto.

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Você enxerga a arte de uma forma muito sensorial…
Vejo essas casas que são projetadas dentro da natureza, como a da Lina. Fui a uma exposição lá em 2013, “The insides are on the outside / O interior está no exterior”. Quem fez a curadoria foi a Luisa Duarte [crítica de arte e curadora independente]. Era tão interessante. A gente entrava na casa e sentia um cheiro de café absurdo. E, de repente, se ouvia: “Lina, va fare un caffè”. Era uma parte da obra do Cildo, que frequentava as reuniões na casa da Lina e do marido [o jornalista, historiador, crítico e colecionador de arte Pietro Maria Bardi]. Quando essas reuniões ficavam mais inflamadas, ele pedia para Linha fazer um café. O Cildo se lembrou disso. Aquilo mexeu comigo. O cheiro também tem isso, né? Tudo é instinto. Acho que a arte também fala do instinto, o ver, o sentir.

Você falou muitas vezes da Lina durante o papo. Ela foi uma pioneira, uma arquiteta muito engajada e posicionada, numa época muito mais complicada do que a gente vive. Você se identifica com esses aspectos?
Como uma mulher, sim. Total. Lina Bo Bardi era uma mulher à frente do seu tempo. Assim como eu leio a Simone de Beauvoir e vejo que ela poderia ter nascido hoje, né?

Você acha que estamos vivendo um retrocesso?
Acho. Há uma censura velada. E tem um ponto importante: educação. Se a gente tem uma educação consistente – e eu estou falando das massas populacionais –, você começa a ter um povo que reivindica mesmo, que se posiciona, que tem propriedade para se posicionar. Quando você tem menos educação… Olha a guerra que foi, e que ainda está sendo, com os professores. Meu pai também é professor. Ele é professor de direito. É advogado, mas gosta de lecionar. Deu aula por 30 anos. Então, eu cresci com meu pai corrigindo provas e lidando com alunos. Se a gente fortalecer a nossa educação, vamos conseguir um povo mais engajado. O problema, na nossa opinião, de ser feita de uma forma só é isso, uma pessoa lê ou um veículo reproduz fora de contexto e aí a coisa toma uma proporção gigantesca. Nas eleições do Rio, entre o Freixo e o Crivela, eu me posicionei. Pelo Freixo. Mas se você for ver a rede social, é uma loucura.

Muita gente se posicionou, inclusive na sua classe, e se arrepende amargamente.
Exatamente. É claro que no foro íntimo eu vou discutir e ter as minhas opiniões. Mas, a gente tem que ficar no update porque tudo pode mudar. A não ser que seja uma pessoa de extremo caráter. Estive uma vez com o Chico Alencar. Fui fazer um filme em Brasília, e tive a oportunidade de conhecê-lo, e eu já conhecia o Jean Wyllys, por exemplo. São duas pessoas que eu adoro. E conheço também o Cássio Cunha Lima, da Paraíba, que também tem milhões de coisas… É difícil ter pessoas com caráter, com ética. O problema é que os políticos não estão nem com pudor de roubar, de desviar verba. Os hospitais precisando, a educação precisando. Dá impressão de que eles não querem que a educação se fortaleça justamente para eles conseguirem manipular essa máquina do público sem educação, e aí vira um ciclo vicioso. E aí reflete em tudo, no teatro, cinema, televisão, em todas as plataformas. A arte fica inacessível, mas não é. Não é para ser. A arte está aí porque só a vida, por si só, eu acho que não basta. É preciso ter poesia na vida, arte na vida, para a gente conseguir caminhar de uma forma mais gostosa, mais fluida, mais ampla. Eu levei as crianças do projeto do lixão Gramacho para ver um filme meu no cinema. Elas nunca tinham visto uma escada rolante! O nosso Brasil tem isso… Como vamos discutir arte, política, quando ainda não alcançamos o básico? Eles não têm água! Eles ainda não têm água potável! A Danni Suzuki (leia em nossa seção Diva no Divã) tem um projeto que eu quero muito entrar e estar junto, que é levar água potável para as pessoas. Ele leva filtro às pessoas, que aprendem a filtrar a água, já que não têm abastecimento do Governo. Eu acho que aí volta de novo para o nosso problema de educação. É uma discussão tão macro. Voto é fundamental. Gosto de exercer a minha cidadania. E acho que a gente tem que estimular isso para o público também. Tentar escarafunchar mais sobre a posição dos políticos. E dos partidos. Político não é ele sozinho, né? Tem uma máquina ali, uma engenhoca do partido. Tem que se envolver, sim. Não tem jeito.

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