Tendências tendenciosas: o “show” do Milão em 2017

Apesar da maré baixa, o que esteve em alta em Milão, a capital mundial do design – e deve determinar os rumos das vitrines brasileiras nos próximos meses

  • 17 Abril 2017

Não sei se o termo correto é “tendência”, já que o que se viu na design week mais importante do mundo se tratou, praticamente, de tudo aquilo que já foi mostrado, digerido e regurgitado em outras edições da feira. Mas se é para falar das características mais marcantes do cenário moveleiro internacional, mostramos aqui e agora 10 “gestos” do Salão do Móvel de Milão que podem determinar a cara do mercado – e influenciar suas escolhas – nos próximos meses. Veja o que está em alta e lembre-se: a novidade está nos olhos de quem vê!

LA VIE EN ROSE – E EM VERDE, AZUL, AMARELO E TERRACOTA
Quando a indústria aperta os cintos, mas sabe que não pode parar a produção (graças a Deus, senão estamos acabados também!), o jeito é investir em novidades mais viáveis ao invés de apostar em novos conceitos (o custo de um protótipo pode ultrapassar a barreira dos 500 mil euros – se envolver pesquisa de matérias-primas e novas tecnologias então, aí a conta fica realmente impraticável). De alguns anos para cá, investe-se menos em formas e volumes para se tentar habilitar novos looks em peças que já foram “aprovadas” pelo consumidor, mirando um tiro mais certeiro. Ou seja: rola um festival de reedições em novas cores e padrões. A paleta está mais colorida do que nunca e resgata alguns hits que já pipocaram a cromoterapia anos atrás. Tem muito azul Klein (de novo), verde em vários tons (do Greenery, anunciado pela Pantone como cor do ano, ao Petróleo, mais ativo do que nunca, e o Esmeralda); o famigerado (mas superjovial) amarelo; e, curiosamente mais presente  do que todos os outros, o rosa (sim, rosa). No bloco dos discretos, reinam matizes de terracota e outros vermelhos queimadinhos, para alegria da tchurma mais sóbria (a maioria dos arquitetos morre de medo de cor, né?).

PLUZ SIZE – A HORA E A VEZ DOS GORDELÍCIAS
No ano passado, uma das principais “tendências” identificadas dava conta de um mobiliário mais baixinho, com pernas curtas, próximo ao chão, aconchegante, que remetia a um sentar mais rudimentar, quase tribal, com relaxamento proprosto do  “coccix ao pescoço”, como naquela canção da Elza Soares. Não emplacou muito, já que o problema era a hora de levantar. Parte expressiva do público consumidor do mobiliário de alto-luxo já bateu na casa dos 50 faz tempo e a coluna vertebral começa a reclamar. Para aliviar a dor nas costas, a indústria parece ter subido alguns centímetros em sofás e poltronas, mas ampliou ainda mais suas dimensões para continuar vendendo essa ideia do “abraço”. Na prática, assentos mais rechonchudos, que em alguns casos comportam mais de uma pessoa (se a pessoa não for do meu tamanho, óbvio). Uma reviravolta nas proporções!

VIDA DE INSETO
Não é necessáriamente a praga dos gafanhotos, mas as estampas com bichinhos (de pássaros a peixes, passando por serpentes e outros clássicos cheios de borogodó gráfico da fauna e da flora) estão na ordem do dia. De criações vanguardistas apresentadas no Salone Satellite por jovens talentos, ao show-case da holandesa Moooi, escaravelhos, besouros e outros macro bugs infestaram o planeta design. Até eu, que tenho P-A-V-O-R de qualquer coisa que lembre uma cucaracha, morri de amores pelo enxame.

CRIANÇA FELIZ
Anote aí: tudo se conecta, sempre! E, de mãos dadas com a bicharada, com o revival da cor e com essas dimensões mais generosas dos estofados, outro movimento bastante forte deflagrado na temporada é um certo humor que, embora bastante presente em muitas fases do desenho clássico italiano, parece ter emergido com força total em 2017 (talvez uma resposta à nuvem negra econômica que paira sobre as nossas cabeças). Não à toa, a Trienalle apresentou a expo Gira-Tondo, que celebra a história do mobiliário italiano por meio do design infantil. Mas, dentro e fora do Salone, desenhos mais extravagantes, ligeiramente surreais e, algumas vezes, literalmente engraçados, foram a ordem do dia. Como canetou o poeta Casimiro de Abreu: “Que saudades que tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!”. #Escapismo já!

FESTA NA FLORESTA
É claro que todo mundo continua olhando para as fibras naturebas, para as madeiras de manejo sustentável e para matérias-primas mais tecnológicas que absolvam um pouco a ação predatória da movelaria na natureza. Formas orgânicas, simulando casulos ou úteros, móveis híbridos com suportes para vasos, pequenas estufas, novos sistemas de cultivo de hortas e plantas domésticas, tapetes com estampas naturalistas, fauna, flora, os insetos que comentamos lá em cima, o verde “folha” da Pantone… A vida pede mais oxigênio, a urbe pede mais árvores e o Salone pede um ar mais legítimo e menos fake para a casa.

DO BARRO À VIDA
Um certo ar setentista também brisou pela Cosmit e por toda a sua órbita. Com ele vieram as cerâmicas, seja em propostas alternativas nos circuitos paralelos à feira, seja nas mega exposições do mainstream, como a da diva Paola Lenti, que sacudiu os entornos da sua vizinha Fondazione Prada, criando um novo fluxo off-downtown em Milão.

BALANÇA, MAS NÃO CAI
Na busca pelo conforto absoluto – e por uma vida mais movimentada, ainda que entre quatro paredes –, nunca se viu tantos balanços e móveis com mais mobilidade (e dinâmica) na feira. Dos Coccoons dos Campana na Vuitton, passando por Dedon e Moooi: o design balança, mas não cai.

COM A MÃO NA MASSA
Acabamento artesanal continua sendo o que há na hora de determinar a personalidade de cada marca. E que bom que as grandes empresas, por mais que apostem em tecnologia de ponta, continuam investindo na manufatura. As costuras de brands de moda que flertam com o design, como Louis Vuitton e Hermés, eram de uma impecabilidade admirável. Paola Lenti, mestra na arte, também reforça a tendência.

2, 3, 4 em 1
A onda dos híbridos – que atingiu a enseada décor já há alguns anos – está com força total: peças com um shape e múltiplas funções são as vedetes de grandes (ou pequenos) criadores.

ACACHAPANTES
E, claro, não poderiam ficar de fora da nossa seleção as peças-chave da temporada – ainda que acanhadas, algumas formas fora da curva fizeram a gente suspirar!

+ Confira aqui também a crítica do jornalista Allex Colontonio sobre Milão 2017