Revista Giz

04 Ago 2017 - Out 2017

#4 | Diáspora das Cores

GIZ NA PANELA

GIZ na Panela: Rodrigo Hilbert não se considera chef, nem “homão da porra”

Vindas do convívio familiar, as habilidades com serralheria, marcenaria, tricô e pintura, além da consagrada mão cheia que o levou para um programa de receitas na TV, para ele, são importantes para a autonomia de qualquer um

  • 30 outubro 2017

giz-rodrigo-hilbert

O cheiro de aconchego que emana de uma galinha ensopada com polenta ainda quente na panela e a carne exalando tempero num tipicamente sulista carreteiro preenchiam não apenas os metros cúbicos daquela cozinha em Orleans, Santa Catarina, em que se criou Rodrigo Hilbert, como também suas memórias mais afetuosas. Quando a mãe, Suzete, ia trabalhar fora, era o Rodrigo então menino o incumbido de finalizar a comida pré-pronta para os outros dois irmãos (antes disso, a irmã, primogênita, deixou um vazio na família). Foi ali, meio a facas, garfos e panelas que, vendo avó e tias prepararem o almoço com os alimentos por ali cultivados, o “Dito” começou a aprimorar aquela que, no futuro – e para o temor dos homens preguiçosos e conservadores –, seria apenas mais uma de suas plurais habilidades.

Passada a curiosidade de estudar informática, suscitada na pré-adolescência pelo recém-adquirido computador do irmão, percebeu que o aroma da terra lhe atiçava uma vontade de saber manuseá-la com conhecimento de causa. “Sempre gostei de plantar, de entender a procedência do alimento, daí a ideia da Agronomia.” A vida, porém, tomou outros rumos. Aos 17 anos, quando a paisagem catarinense virou rastro, a Avenida Paulista surgiu à frente e, mais tarde, de todos os lados o horizonte apontava para a monumental estátua do Cristo Redentor, ninguém diria que aquela personalidade de inibição enrubescida tomaria de assalto não apenas o comprimento de passarelas mundo afora, como também uma posição carismática em frente às câmeras. “Nessa época, o mercado de moda era muito fraco em Orleans”, relembra. “Resolvi, então, entrar em um curso de interpretação para me ajudar com a questão da timidez e acabei caindo nas novelas e no teatro.” Apareceu, depois de em Desejos de Mulher, em sucessos como a novela América e Dança dos Famosos.

Rodrigo conta que a culinária se tornou uma atração em sua vida quando se converteu na possibilidade de confraternização. Mas para a TV mesmo rumou quando Fernanda [Lima] – com quem divide a casa e a criação dos gêmeos Francisco e João, de 9 anos – convidou Gisela Matta, uma grande amiga da família, para um convencional e caseiro encontro dominical. “Ela filmou toda a bagunça e, enquanto eu fazia o almoço, pegou uma escada, amarrou uma câmera em cima da bancada e, com outra na mão, começou a andar atrás de mim enquanto eu cozinhava”, conta Rodrigo.

giz-rodrigo-hilbert-3

Cortes feitos, áudio ajustado. Era só enviar o material. Desde o momento em que caiu nas mãos da produção do canal GNT, depois da primeira temporada, gravada no Sul, já se passaram 19 outras de Tempero de Família. Para a nova leva de episódios, que estreou em agosto, a inspiração veio empratada em louça de azulejaria: em uma versão “à portuguesa”, foram selecionados preparos não tão conhecidos pelo público brasileiro, mas indispensáveis ao cardápio lusitano.

Se não define uma receita preferida por gostar de experimentar coisas novas – apesar de adorar hambúrguer e galinha ensopada com macarronada caseira –, o ingrediente mais querido não poderia se traduzir de forma mais imaterial e sensível: amor.

Diferentemente das receitas do programa, já existentes, quando Rodrigo assume o controle do fogão, não há protocolos ou obrigações. “Tento dar meu tempero a cada prato”, diz. “Mas a inspiração vem na hora, de acordo com o tipo de ingredientes que temos, com o local, com os temperos.” Com equilíbrio, mas, como um bom taurino (apesar de não acreditar em astrologia), é bom de prato. O segredo decepciona os que esperam artifícios milagrosos, instantâneos ou reveladores: alimentos saudáveis, hidratação e prática de exercícios físicos, que incluem doses diárias de bicicleta, vôlei de praia e yoga.

A mesa de casa também recebe almoço e jantar todo dia, e a cozinha, parte da área social, tem espaço para todos. No dia a dia, porém, é Rodrigo quem organiza e prepara as refeições. “A Fernanda cozinha muito bem, mas eu não dou muito espaço para ela! (risos) Os gêmeos adoram participar; quando estou fazendo algo, brincam com pedaços de massa, ajudam a cortar tomate com faca sem corte…”

Próximo da família tanto no Sul, quanto no Rio, Rodrigo joga a toalha apenas para a matriarca. “Peço para ela cozinhar tudo ao que tenho direito, mas confesso que não consigo ficar muito tempo longe do fogão.
Acabo me metendo no meio da bagunça e interferindo nas receitas da Dona Suzete”, revela. “No começo ela fica brava, mas, no fim, acabamos trocando receitas e tudo se ajeita. (risos)”

Exatamente pela descontração com que encara a atividade, nega qualquer pretensão a chef. Mas hoje há vontade de se aprofundar um pouco mais. “Quem sabe?” As habilidades como ferreiro, serralheiro e torneiro mecânico, adquiridas desde os 12 anos da experiência como ajudante do avô, e o intenso convívio com as mulheres da família, à parte sua unânime e declarada beleza, impulsionaram os internautas em um movimento bem-humorado conhecido como “Precisamos parar Rodrigo Hilbert”, que clama a contenção dos talentos do modelo e apresentador diante da elevação de expectativas para com os homens “comuns”. Ele mesmo reconhece, porém, que apenas dispõe de competências esperadas de qualquer pessoa – e, há de se convir, comuns ao cotidiano feminino. “Acho engraçada essa história de ‘homão da porra’. Essas habilidades que geraram essa brincadeira são coisas tão inerentes a mim e à minha rotina que não consigo acreditar e aceitar este rótulo.” E manda um recado: “Aos que ainda não entenderam a mensagem, sugiro pensar no quão positivas são todas essas quebras de paradigmas e no quanto isso fará bem às futuras gerações.”

Hoje, aos 37, não pretende parar de expandir seus conhecimentos. “Acredito que podemos aprender algo novo todos os dias, e falo tanto em habilidades manuais quanto em conhecimento. Minha fome de aprendizado é grande!”, arremata. Além de estar na TV todas as quintas, às 20h, com o programa gastronômico no GNT, acaba de lançar o segundo volume do livro As Deliciosas Receitas do Tempero de Família, pela Globo Livros.

giz-giz-na-panela-produtos

Fogão Dolcevita, design Vintage, Lofra. lofra.com.br/Set de talheres Goa, 24 peças, Casa de Perrin. casadeperrin.com/Panela Oval Cocotte, Le Creuset, lecreuset.com.br