A trajetória de José Marton: artista multimídia é também conhecido pelos cenários primorosos que desenha para os maiores eventos de moda do país e do mundo

Em entrevista especial à GIZ, artista fala sobre sua relação com a moda, os grandes desafios da carreira e as diferenças entre desenhar para o décor de casas e o campo fashion

  • 6 dezembro 2016
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Cenário criado por Marton para o desfile da Forum no SPFW, em 2011

Artista multimídia consagrado, José Marton, a frente do Marton Estúdio em São Paulo, é também conhecido no mundo das passarelas pelos cenários primorosos que desenha para os maiores eventos de moda do país e também do mundo.

Com quase duas décadas de trabalhos dedicados a cenografia fashion, o artista – que publicou o livro “Facetas” em 2014 especialmente para contar um pouco mais sobre sua trajetória literalmente de estilo ao longo dos 20 anos de trabalho – fala em entrevista especial à GIZ sobre sua relação com a moda, os grandes desafios da carreira e as diferenças entre desenhar para o décor de casas e o campo fashion. Para o designer, cenógrafo e arquiteto, com exceção do tempo de duração de cada projeto, há muitas semelhanças entre as duas vertentes de atuação. Saiba mais na entrevista a seguir!

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Artista multimídia consagrado, José Marton assina há quase duas décadas fabulosos cenários para o mundo fashion

GIZ entrevista: José Marton

1. Como começou sua relação com a moda?

A minha relação com moda começou com uma exposição que desenvolvemos e montamos em 1998 que se chamava “Photojeanic”, para a marca de Jeans Forum, com direção de arte do Giovanni Bianco e também diretor de arte da marca, realizada na marquise do MAM de São Paulo pela primeira vez. Depois foi montada Paço das Artes no Rio de Janeiro e o Museu de Pampulha, em Belo Horizonte. A partir desta parceria, eu comecei a ser convidado pelo Tufi Duek e Giovanni, para desenhar os desfiles da Forum e Triton. Consequência desta ótima relação, em meados de 1999, fui convidado para desenhar as vitrines da Arezzo e não demorou para eu iniciar trabalhos no Morumbi Fashion, que após algumas edições teve seu nome alterado para São Paulo Fashion Week.

2. São quantos anos dedicados a criação de cenários para moda? Quais foram os maiores desafios ao longo desse tempo?

São quase 20 anos dedicados à cenografia, e o primeiro contato que eu tive, com a moda, foi com o grupo LVMH desenhando cenografia para lançamento de produtos para algumas marcas do grupo, como  e algumas outras marcas do grupo e nacionais. Foram dois os desafios encontrados ao longo desse período, primeiro a imersão no universo de cada marca e criar através de valores financeiros pré-estabelecidos, o segundo foi romper paradigmas, e a mentalidade nacional de que um cenário deveria ter acabamentos similares com as matérias-primas nobres. Vencido esses desafios, os aprendizados foram positivos para os dois lados, o meu e o das marcas envolvidas.

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Tons negros invadem a passarela em projeto assinado por José Marton para a Triton, no SPFW 2007

3. Quais os trabalhos mais marcantes de sua trajetória ligados ao mundo da moda?

O que eu diria ser mais marcante no mundo da moda foi o aprendizado que adquiri convivendo com estilistas, empresários, stylists, produtores, fotógrafos, jornalistas, assessores de imprensa, e poder exercer até hoje a criação de projetos de varejo para marcas nacionais e internacionais. Os cenários neste contexto foram a chave para eu aprender e entender como cada marca se comunica com seu público alvo. Como exemplo de cenários marcantes cito os do São Paulo Fashion Week, quando criei um cenário com 80 toneladas de gelo, para a marca Cori, um projeto desafiador especialmente pelo fato de não termos controle sobre essa matéria-prima. O cenário da Água de Coco, com 7 toneladas de madeira, também foi marcante. Contei com uma equipe de 60 colaboradores e menos de 2 horas, na verdade apenas 1h45 minutos para montar o cenário, algo que me marcou bastante. Por duas vezes criei, executei e montei os cenários da Rosa Chá na Mercedes Fashion Week, em Nova York. O cenário foi de São Paulo para os Estados Unidos (NY) e o montamos com uma equipe americana. Não podíamos cometer erros devido aos prazos curtos entre um desfile e outro. Ambos foram sucessos estéticos e de montagem.

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Passarela assinada por Marton para a brand Lenny no Fashion Rio de 2009

4. Tem ideia de quantas criações já realizou para o mundo fashion?

De cenário de desfile de moda, aproximadamente 200 cenários de desfiles realizados nas principais semanas de moda em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Nova York. Para lojas, fizemos aproximadamente 350 cenários em 12 anos e para diversos segmentos, desde cosméticos, passando pelo universo feminino, masculino, infantil, departamentos esportivos, joias, calçados e acessórios, como cama,mesa e banho.

5. Como funciona o processo criativo e sua inspiração para desenvolver trabalhos para Moda?

O primeiro passo é o briefing do cliente e o projeto. A partir disso, nós fazemos uma pesquisa sobre o tema, e a partir dessa pesquisa começamos a elencar as matérias-primas que serão utilizadas. Depois das matérias escolhidas, iniciamos a parte formal do projeto. Nesse projeto – que em muitos casos são feitos em maquete física -, após aprovação do cliente fazemos o desenho executivo e submetemos o projeto para orçamentos em parceiros com experiências nas matérias primas utilizadas no conceito. Esse é caminho tanto para cenário, quanto para varejo, lançamento de produto e projetos corporativos e residenciais.

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Imenso cocar criado pelo artista para o desfile da Rosa Chá na semana de moda de Nova York, em 2007

6. Quais as diferenças entre criar para projetos de interiores e criar para as passarelas?

Eu não vejo muita diferença entre criar um projeto para interior e para passarela, o que os difere é a vida útil de cada projeto – um cenário de 200 a 400 metros quadrados é utilizado entre 8 e 15 minutos e um projeto de interiores tem outra durabilidade, inclusive flexibilidade durante sua execução . Já na arquitetura de varejo, com o mercado atuando com vendas online e físicas, gerando mudanças de comportamento nas compras, os projetos físicos são criados através de perfil de consumidor, pesquisas qualitativas e quantitativas e em algumas marcas além da experiência da marca através da arquitetura e seus clientes, procuramos criar imersão com o consumidor, educando-os através dos vendedores, como ele pode efetuar sua compra online.

7. Fora o SPFW e o Fashion Rio, quais outros eventos de moda em outros países já contaram com cenários assinados por você?

Criei duas vezes para a Rosa Chá em Nova York durante o Mercedes Fashion Week (Coleção Verão 2004 e 2007), também trabalhei no Minas Fashion Week, assinei um cenário para Dior no Jockey Clube e desenvolvi para o Issey Miyake em duas edições no Hotel Emiliano.

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Tudo clean no cenário assinado por Marton para a Água de Coco na SPFW de 2008

8. Sua equipe de cenografia de moda é formada por quantas pessoas?

Não tenho uma equipe fixa, é muito relativo. Depende do período que será montado o cenário – se for noturno a equipe pode ser menor, se for entre um desfile e outro a equipe pode variar de 10 a 60 pessoas, onde compartilhamos o mesmo espaço com a desmontagem de outro cenário, a montagem do nosso e o convívio durante a montagem com parceiros de iluminação, som, estilista e sua equipe, assessoria de imprensa etc. Parece tudo poético quando visto o desfile ao vivo ou por outras mídias, mas se trata de uma logística muito assertiva e de boas parcerias para se ter um bom resultado.

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