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Nossa colunista Cynthia Garcia fala sobre a união de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé e o início da parceira de sucesso que marcou a arte do colecionismo

Criações da dupla foram pensadas para que pessoas experimentem o prazer do convívio com peças e não as confinem a museus ou vitrines de loja

  • Por:Cynthia Garcia
  • 20 dezembro 2016
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Companheiros de vida, Yves e Bergé, uma vida dedicada à arte, Fondation Pierre Bergé-Yves Saint Laurent

No natal há 50 anos, os companheiros Yves Saint Laurent e Pierre Bergé deram o primeiro passo na arte do colecionismo, presenteando-se com a primeira de tantas obras raras que viriam a possuir. Em 2009, a coleção Yves Saint Laurent-Pierre Bergé foi vendida por US$ 484 milhões no leilão do século, o maior valor até hoje conquistado por uma coleção particular. A união de Yves e Pierre foi uma lição de como viver com arte.

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Yves Saint Laurent, 1969, Fondation Pierre Bergé-Yves Saint Laurent

Dias após assinar a declaração de união estável com Bergé e já minado por um coquetel de drogas legais, ilegais, letais, Yves pegou emprestado uma frase do escritor Edmond de Goncourt e a repetiu a seu sócio na vida e nos negócios: “Meu desejo não é ter meus desenhos, meus livros, minhas obras de arte e meus bibelôs confinados a museus ou vitrines de loja, quero minhas coisas nas casas das pessoas para que experimentem o prazer que tive com o convívio destas peças, assim esses colecionadores se transformarão em herdeiros do meu gosto”. Em julho de 2008, um mês após a morte do último mestre da alta costura, a Christie’s Paris anunciava a venda da coleção Yves Saint-Laurent-Pierre Bergé organizada em 733 lotes que testemunhariam as batidas do martelo em fevereiro do ano seguinte.

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Andy Warhol, retrato de Yves Saint Laurent, 1972, Fondation Pierre Bergé-Yves Saint Laurent

A visitação das peças in situ, no pied-à-terre do casal no número 55 da rue de Babylone, foi permitida a um seleto grupo de mil convidados, incluindo o então presidente Sarkozy e a bela Bruni. No mês seguinte, a coleção meticulosamente montada na casa de leilão da avenue Matignon recebeu uma visitação recorde da trinta mil colecionadores, curiosos e admiradores de arte. Com consentimento de ambos apenas três peças foram doadas a museus. O retrato do menino nobre espanhol “Luís Maria de Cistué y Martìnez”, um óleo sobre tela de Goya de 1791, que antes deles havia pertencido aos Rockefeller, foi para o acervo do Louvre. “A Adoração dos Magos”, uma tapeçaria pré-rafaelita de 2.58 m X 3.78 m, feita sobre cartão do pintor inglês Burne-Jones, em 1904, entrou para a coleção do Musée d’Orsay. A terceira, o óleo surrealista do italiano De Chirico, “Il Ritornante”, de 1918, seguiu para o Centro Georges Pompidou. Ele retrata um atelier de alfaiate e antes pertenceu ao maior costureiro da Belle Époque, Jacques Doucet (1993-1959), admirado por Yves. Doucet foi um intelectual de vanguarda, colecionador de arte moderna, pioneiro na colaboração de artistas e artesãos, e incentivador do Art Déco desde os primórdios do movimento nos anos 1910, características que ecoam na persona íntima e pública de YSL.

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Jean Dunand (1877-1942), par de vasos monumentais, 1925, US$ 3,982,106, arrematado no leilão da Coleção Yves Saint Laurent-Pierre Bergé, Christie’s Paris, fevereiro 2009

Foi em 1966 que os dois companheiros embarcaram na aventura do colecionismo após o sucesso das primeiras coleções criadas pelo gênio estilístico de Yves amparado pelo tino comercial de Bergé. A peça inicial, na realidade, foi um salto duplo: um par monumental de vasos Art Déco de um metro de altura cada. Em latão preto com pinturas geométricas tribais em laca dourada, prateada e vermelha, foram criados em 1925 por Jean Dunand e ambos exibem gravação da assinatura do mestre da laca déco. Na rue de Babylone, ficavam postados no alto sobre colunas ebanizadas, emoldurados pela boiserie do grand salon. No ano seguinte, a arrojada coleção África Primavera/Verão 1967 cravou a sigla YSL no exotismo dos anos 60. Coincidência?

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Coleção Mondrian Outono/Inverno 1965, foto de 1966, Fondation Pierre Bergé-Yves Saint Laurent

Caminho inverso teve o icônico vestido Mondrian criado para o Outono/Inverno 1965. Ele rendeu o maior bochincho em torno do jovem costureiro, antes que Yves e Bergé tivessem uma tela do pintor holandês na parede de casa. A fórmula moda+arte estimulou o imaginário criativo de Yves ao ponto de a coleção Outono/Inverno seguinte reverenciar a Pop arte vertida com maestria em uma série de incríveis vestidos tubinhos ultra gráficos. Somente no final dos anos 70 com o dinheiro entrando a rodo que dupla adquiriu “Composição em Azul, Vermelho, Amarelo e Preto”, uma pintura de 1922 com todo rigor inovador de Mondrian. O óleo vertical de 79,6 x 49,8 cm que havia passado pela galeria do nova-iorquino Leo Castelli em 1949, acabou sendo o primeiro de três telas de Mondrian colecionadas pelos dois.

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Yves Saint Laurent na biblioteca da Rue Babylone com o torso romano de mercúrio, do século 1 d.c, foto dos anos 70

Elas ficavam na biblioteca da Babylone em meio a mais preciosidades: “The Dancer”, um grande guache e colagem em bleu-blanc-rouge de Matisse, anos 30; “The Blue Medalion” de Léger, 1928; uma traquitana lúdica de Calder em madeira e metal, 1936; três luminárias de Rateau em alabastro e bronze, também década de 30; um busto em mármore, romano, de Mercúrio, século 1 d.C.; duas mesas laterais de Jean-Michel Frank, uma em mica, a outra em marfim; uma coleção de esculturas de mesa em bronze, Itália, século 16; a tapeçaria “A Adoração dos Magos”, doada ao Louvre.

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A biblioteca do pied-à-terre da rue Babylone com duas ovelhas e o bar de Lalanne, entre outras preciosidades colecionadas por Yves e Bergé

Mas a peça que mais me fascina na biblioteca é o “YSL Bar”, nome do exemplar 01 da mesa-bar criada por Lalanne, em 1965, para o amigo Yves que adorava o trabalho desse escultor muito louco – Yves e Pierre foram os primeiros a colecionarem suas famosas ovelhas -, autor de peças híbridas alucinantes da corrente chamada Nouveaux Réalistes. O “YSL Bar” é uma peça brutalista em níquel e bronze, com dois tampos retangulares e inclui também os objetos que cumprem a função de bar integrados ao seu design mapeado, entre eles, um círculo perfurado que encaixa o cooler para resfriar garrafas em formato de ovo de dinossauro! O balde de gelo é uma esfera em cristal da Cristalleries de Choisy-le-Roi, que também talhou o cilindro que faz a vez de vaso e a coqueteleira em forma de cornucópia, símbolo de abundância, tudo a ver com o cenário que a vida criou para a história de Yves e Bergé.

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Yves Saint Laurent no último desfile, Paris, janeiro 2002

Esse ecletismo autoral abundante, rico em referências precisas de um refinamento fou, louco, é puro Saint Laurent. De minha parte, louvo que a lição estimule seu colecionismo em 2017, seja qual for. Fecho com o ensinamento de Pierre Bergé do alto de seus 86 anos: “Quando se compra um objeto, ele é apenas um objeto. Quando se adquire o segundo da mesma família, você passa a ter um par. Mas quando você chega à terceira peça, aí, sim, começa a coleção”.

Fondation Pierre Bergé-Yves Saint Laurent:
fondation-pb-ysl.net

Christie’s Collection Yves Saint Laurent et Pierre Bergé, venda 23-25 de fevereiro, 2009, Paris:
christies.com

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